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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A boa notícia de Tóquio: o futuro olímpico é feminino, LGBT e preto

Douglas Souza treino selecao -
Douglas Souza treino selecao
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

21/07/2021 13h32

Eu não queria ver estes Jogos Olímpicos.

Até ouvir Marta. Até seguir Douglas Souza. Até ler Paulinho. Até pensar nas tantas histórias que ainda não conheço. As Olimpíadas têm este poder, para o bem e para o mal, de capturar mesmo o coração mais cético.

Sabe a história da fábrica de salsicha? Quando você entende como algo realmente é feito, perde o apetite. Isso aconteceu comigo e o universo olímpico. Por trás das inúmeras inspirações, há também muita gente torpe e uma máquina de fazer dinheiro para quem menos merece. Sem falar no desvario de juntar pessoas do mundo inteiro sob o mesmo teto em meio à uma pandemia.

Mas aí me emocionei, sem querer, com o jogo da seleção feminina de futebol. Assistindo à Andressa bater perfeitamente um pênalti de que Marta abriu mão (o que não é pouca coisa para quem persegue o recorde artilheiro de Cristiane, com 14 gols em Jogos). A mesma Marta que balançou a rede outras duas vezes e comemorou fazendo um T com os braços, em homenagem à noiva, Toni.

Aí, eu assisti à live do Douglas Souza, ponteiro da seleção de vôlei e recém-ungido ícone olímpico brasileiro. Homem que, em um dia, passou de 100 mil a mais de um milhão de seguidores no Instagram, merecendo cada um deles. Uma live promovida pela Vogue Brasil, apresentada por Caio Braz: dois homens gays falando de Olimpíadas e fervo e os boy e a Pablo Vittar e preconceitos, em um canal de moda, com mais de 20 mil pessoas ligadas ao vivo. Acostumem-se.

Aí eu li a carta aberta de Paulinho, atacante da seleção masculina de futebol, intitulada "Que Exu ilumine o Brasil". Um trecho, sobre sua relação com o candomblé e a umbanda: "Como assentado e praticante, vou ao meu pai de santo sempre que estou no Brasil e peço proteção aos orixás, principalmente ao meu Pai Oxóssi e à minha Mãe Iemanjá. Exu é o caminho. Procuro saudá-lo antes de cada obrigação, de cada partida. Laroyé! Por tudo que nosso país já sofreu, temos não só o preconceito com religiões de matriz africana, mas também de outras naturezas, como de raça, gênero e orientação sexual."

Paulinho está certíssimo. Ele, Douglas, Marta e tantas outras e outros, porém, podem ser a luz no final do túnel racista, misógino e LGBTfóbico de que parecemos não sair. Um tapa na cara de um Comitê Olímpico Internacional que sempre lutou por Olimpíadas assépticas, estéreis, desprovidas de qualquer personalidade, opinião, individualidade. Que sempre optou por calar em vez de dar voz.

Pois o que já começamos a ver em Tóquio, mesmo antes da cerimônia de abertura, é algo bem diferente. Um sonho possível de congraçamento real, sem fronteiras, de países ou crenças. Quem sabe, até, um Brasil de que dá para ter orgulho, um Brasil pelo qual dá vontade de torcer. Um Brasil feminino, LGBT, preto, inclusivo e cheio de axé.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL