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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Copa América 5 mil x 60 mil Eurocopa: inveja da pós-pandemia

Torcedores da Inglaterra apoiam a seleção na partida contra a Dinamarca pela semi da Eurocopa -  Andy Rain / POOL / AFP
Torcedores da Inglaterra apoiam a seleção na partida contra a Dinamarca pela semi da Eurocopa Imagem: Andy Rain / POOL / AFP
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Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

11/07/2021 11h10

Faltando poucas horas para a final da Eurocopa, entre Inglaterra e Itália, em Londres, só consigo pensar duas coisas: vai acabar a cerveja no Reino Unido e, caraca, que esperança (inveja). Há vida pós coronga.

Assistir à semifinal me deu uma sensação mista de alegria (por perceber que será possível voltar aos estádios, a aglomerar, a abraçar estranhos, a beber em público, a esquecer, ainda que por algumas horas, que existe qualquer coisa para além da euforia) e tristeza (por não termos nada disso aqui, por ora).

A catarse que o futebol proporciona é, na minha experiência, comparável unicamente a um bom bloquinho de rua no carnaval. A sensação de pertencimento, de esquecimento, de expectativa e felicidade puras. A diferença é que somente em um é possível perder, então vencer talvez seja o ingrediente especial que a bola traz para as apaixonadas e apaixonados.

Poder ter paixão pelo país e pela Seleção foi outra inveja que senti, na quarta. Já são tantos anos de decepções com ambos, por essas bandas, que fica difícil imaginar a mesma emoção do pessoal do God Save the Queen em terras tupiniquins. E nem teremos como saber, com a final da Copa América decidida entre os arquirrivais Brasil e Argentina sob a melancolia merecida de um estádio triste e (quase) vazio. Um torneio que mal teve torcida pela televisão.

Enquanto isso, do outro lado do oceano…

Depois de um ano e meio de isolamento, a Inglaterra sambou na nossa cara e meteu 60 mil pessoas em Wembley, no jogo contra a Dinamarca. Depois de muitos erros cometidos, o Reino Unido saiu de um pico de 1300 mortes por dia, em janeiro, para 70, em março. Agora, estão em 29, com 87% da população vacinada com ao menos uma dose e 65%, com duas. Apenas 14% dos brasileiros estão imunizados, 1.600 seguem morrendo por dia, em uma nação com histórico inigualável de estrutura, expertise e adesão à vacinação.

Podemos discutir a prudência de haver público em qualquer lugar do mundo, a eficácia dos protocolos e o respeito às regras, mas é claro por que o Maracanã recebeu cinco mil pessoas para assistir à quebra do jejum argentino e Wembley abrirá suas portas para 60 mil que poderão ver o fim da fila inglesa.

Por uma gestão minimamente decente do isolamento na pandemia e uma campanha de vacinação histórica, eles agora podem ser felizes aos montes. Juntos, misturados, apinhados, suados e fora de si. A gente aqui orando para ter carnaval em 2022 e eles, lá, enchendo a cara, estáticos, em julho de 2021. Mais uma vez, parabéns aos envolvidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL