PUBLICIDADE
Topo

Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Um telefonema, uma demissão, e como não ter esperança numa reforma da CBF

Walter Feldman, que já não é mais o secretário-geral da CBF - Bruno Freitas/UOL
Walter Feldman, que já não é mais o secretário-geral da CBF Imagem: Bruno Freitas/UOL
Alicia Klein

Alicia Klein tem quase 20 anos de mercado esportivo em posições de liderança no Brasil e no exterior. Escreveu a biografia de Michael Schumacher, trabalhou na NFL, no universo olímpico e no da Copa do Mundo. Decidiu que é hora de falar sobre misoginia, racismo, trabalho infantil e tudo que o esporte aceita em nome dos resultados dentro e fora de campo.

20/06/2021 04h00

Poucas horas depois da publicação da minha coluna, na semana passada, com diversos casos de assédio sexual na CBF, o secretário geral da entidade me ligou. Nunca tínhamos conversado, não sei quem lhe passou meu telefone.

Animal político, Walter Feldman foi muito educado. Disse que não reconhecia o ambiente tóxico relatado no texto, que nunca testemunhara ou ouvira falar de qualquer caso semelhante, mas que não duvidava das alegações. Caminhou aquela linha fina dos negociadores experientes: discordando de maneira tão cortês, tão hábil, que você quase pensa estar concordando.

Ofereceu-se para abrir as portas da CBF para que eu visitasse o escritório, fizesse uma reportagem investigativa, que o importante era garantir um ambiente saudável para todos. Depois de mais de duas décadas neste meio, fiquei pouco impressionada ou esperançosa.

Toda mulher reconhece na fala de um homem sinais de um comportamento questionável. Até nos mais bem intencionados.

Enfim, não deu tempo. Não que fosse fazer diferença.

Em mais um episódio da triste novela que é a maior instituição do maior esporte brasileiro, Feldman acabou demitido esta semana. Pela segunda vez em 11 dias. Xadrez político? Revolução Francesa? Golpe?

Em conversa com um amigo estes dias, das pessoas mais preparadas que eu conheço no mercado esportivo, oscilamos entre os termos zona, máfia e MBA em autopreservação. Para quem olha de fora, é difícil entender como pessoas com tanta exposição possam agir de maneira escusa por tanto tempo com tamanha impunidade, mas o que se poderia esperar de um sistema em que a permanência na presidência da Confederação depende apenas dos presidentes das 27 federações estaduais.

Na matéria do UOL sobre a saída de Feldman, há a foto de um encontro de dirigentes de clubes na CBF (veja abaixo). Vintes pessoas. Vinte homens brancos. Mas, para o (agora ex) secretário-geral: "o futebol avançou muito desde o Fifagate. Por isso ele tem uma luta, uma expressão, ideias mais avançadas. Aquele período gerou um Rogério Caboclo que foi um avanço para aquele momento. Esse de hoje tem outros componentes. É um novo quadro. É um quadro onde já existe ética, compliance, que são provas dos avanços que a CBF produziu."

Dirigentes de clubes na CBF - Lucas Figueiredo - Lucas Figueiredo
Dirigentes de times do futebol brasileiro em reunião na CBF em agosto de 2019
Imagem: Lucas Figueiredo

Rogério Caboclo, o "avanço", chamou uma funcionária de cadela. E ele talvez não seja nem o pior caso. Apenas, o com mais evidências.

Como ter esperança de que esta entidade possa, um dia, ser um lugar idôneo, com alguma equidade e muito respeito? Eu não tenho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL