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Alicia Klein

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

E se os brasileiros se revoltassem como torcedores de futebol

Muros do Allianz Parque são pichados após derrota para o SPFC: "Acorda Abel" - Twitter
Muros do Allianz Parque são pichados após derrota para o SPFC: 'Acorda Abel' Imagem: Twitter

18/04/2021 12h11

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Sempre achei uma loucura (crime) essa coisa de pichar muro para ameaçar treinador, jogador, diretoria. Aquele tipo de situação que, transposta para fora do universo do futebol, seria inconcebível. Sua filha é injustiçada por um professor: você vai lá e picha a porta da escola. Um médico passa um antibiótico desnecessariamente: você vai lá e picha a entrada do consultório. A empresa lhe demite: você vai lá e picha a sede dos malditos. Junta seus amigos e impede a entrada dos executivos, atira pedra no carro deles, descobre onde moram e vai lá confrontá-los.

Você, muito provavelmente, não faria nada disso. Não, necessariamente, por falta de vontade. Mas por ter algum bom senso e talvez medo de ser presa ou preso.

Algumas torcidas organizadas não sofrem deste mal. Operam, como boa parte do tal universo do futebol, em uma realidade paralela, onde é liberado xingar, apavorar e até agredir funcionários do clube para o qual torcem. São inúmeros os casos, incluindo até invasão e porradaria em vestiário. Direito adquirido sabe-se lá onde, impunidade garantida por sabemos quem.

Surpreendentemente, porém, não venho hoje aqui admoestá-los, bradar que são vândalos, indignos da alcunha de torcedores. Não.

Hoje, olho para a capacidade de indignação destes indivíduos e sinto certa inveja. Sinto que tantos de nós poderíamos tomar estes atos como inspiração. Estamos assistindo calados à morte de mais de 4 mil pessoas diariamente, a um país que disparou na liderança de pior gestão da pandemia, em que somos 2,7% da população mundial e 25% das vítimas de Covid (média atingida na semana passada). Cem mil pessoas podem morrer só neste mês. E o que estamos fazendo? Que muros pichamos?

Ah, mas o que eu posso fazer? De que adianta eu me revoltar, meia dúzia de gatos-pingados protestarem. Rogério Ceni e Abel Ferreira sabem bem. Comandam os dois melhores times do Brasil. Foram campeões Brasileiro, da Supercopa, da Libertadores, da Copa do Brasil. Há poucos dias, semanas. E o que tem sido pauta constante na mídia? A pressão da torcida. De uma pequena parte da torcida. Não importa. Uns poucos tropeços podem custar-lhe o emprego. Assim é o futebol.

Imagina se fosse assim na política? Minhas amigas e meus amigos... Os que estão aí, jogando a favor do vírus, teriam caído em abril de 2020. Pensa só um técnico que passasse 27 anos sem ganhar nada e, quando promovido ao maior cargo do país, tomasse goleada toda semana, literalmente causasse a morte da sua equipe. Quanto tempo esse sujeito duraria no cargo?

Não estou defendendo o uso da violência como ferramenta, claro. Só quero ver a nossa gente saindo dessa inércia, dessa apatia, dessa anestesia que escolhemos para sobreviver ao que muitos têm chamado de genocídio. Precisamos nos zangar, sublevar, ficar putos mesmo. Deixar claro que fulano que não acordar, que não honrar a camisa, que não virar o jogo, vai rodar. Aqui é Brasil, porra.