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OPINIÃO

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NBA: Como o Jogo 5 foi um microcosmo da temporada 2022 do Boston Celtics

Jayson Tatum passa pela marcação de Duncan Robinson em partida disputada entre Celtics e Heat - Jim Rassol/USA TODAY
Jayson Tatum passa pela marcação de Duncan Robinson em partida disputada entre Celtics e Heat Imagem: Jim Rassol/USA TODAY
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

27/05/2022 04h00

A primeira metade foi horrível. Jayson Tatum e Jaylen Brown não acertavam nada, o time cuspiu um monte de turnovers, e cansou de cometer erros mentais dos dois lados da quadra. O ataque, em particular, foi péssimo, cheio de erros, falta de movimentação de bola, e arremessos tijolados. A única coisa que impediu um problema maior foi a defesa, que foi muito boa, mas ainda assim incapaz de sozinha impedir que os Celtics se colocassem em uma grande desvantagem e um grande buraco.

Mas, na segunda metade, tudo mudou. Tatum e Brown foram espetaculares, jogando como verdadeiras estrelas. O ataque parou de forçar arremessos ruins e começou a atacar a cesta, caçar mismatches, rodar a bola e acertar seus chutes. A defesa subiu dois níveis, dominante como poucas vezes vimos nesse esporte, sufocando por completo o adversário e gerando cestas fáceis em transição. Boston jogou o fino da bola, dominou dos dois lados da quadra, e se colocou no topo para não sair mais.

E ai eu te pergunto, caro leitor: estou falando sobre a temporada 2022, ou sobre o Jogo 5 das finais do Leste? Porque esses dois parágrafos se aplicam a ambas, não é mesmo?

De certa forma, o Jogo 5 foi um microcosmo da temporada inteira do Boston Celtics, o time que estava em 11º no Leste em janeiro e contemplando a possibilidade de ficar de fora dos playoffs, e de repente virou os Bulls de 1996, terminando a temporada em uma sequência de 33 vitórias contra 10 derrotas para chegar ao segundo lugar do Leste, atrás da melhor defesa e o segundo melhor ataque da NBA, o melhor time da liga no período com folgas. Foi uma virada de chave dos dois lados da quadra que envolveu tremenda resiliência e força mental, uma mudança de atitude, e seus principais jogadores subindo um degrau.

O Jogo 5 foi marcado pelas mesmas características. Boston anotou apenas 37 pontos no primeiro tempo, em uma das piores atuações que eu já vi. Tatum e Brown, as duas estrelas do time, combinaram para 10 pontos em 3/16 nos arremessos, com seis turnovers. Boston arremessou 25% de três pontos, e 38% de quadra. Foram 10 turnovers cometidos, e 9 rebotes cedidos - erros mentais e infantis que, entre pontos de segunda chance e de contra-ataque, geraram 28 dos 42 pontos do Heat. Não fosse uma atuação ruim do próprio Heat e mais uma partida dominante da defesa, a desvantagem no intervalo teria sido bem maior que 5 pontos.

Só que no segundo tempo Miami continuou ruim, e Boston mudou da água para o vinho. A defesa ficou ainda mais sufocante, mas o ataque acordou. Tatum e Brown combinaram para 15 pontos no período, e o time cometeu apenas dois turnovers. Sem pontos fáceis em transição, Miami foi obrigado a jogar na meia quadra, e a defesa de Boston sufocou qualquer ação possível do time da Flórida, transformando seus erros em pontos em contra-ataque. Boston venceu a parcial por 32 a 16, transformando a desvantagem de cinco pontos em uma vantagem de 11 que se tornou decisiva indo para o quarto período. Apesar da extrema irregularidade, Boston jogou seu melhor basquete na hora certa - e seu melhor basquete talvez seja superior a qualquer outro da NBA.

E nenhum jogador encapsulou melhor essa mudança no intervalo, essa reviravolta tão simbólica para o Boston Celtics, do que Jaylen Brown. Brown foi completamente ijogável no primeiro tempo, ao ponto das pessoas perguntarem se ele sequer tinha condições de estar em quadra. Ele era incapaz de driblar a bola sem cometer um turnover; foram quatro só no primeiro período, virando oito pontos em transição para Miami. Ele arremessou 2-7 de quadra para 6 pontos. Foi o pior jogador dos Celtics até então.

No segundo tempo? Foram 19 pontos em 8 de 12 nos arremessos, incluindo três bolas longas e essa enterrada espetacular.

Brown atacou a cesta com confiança e explosão, não cometeu um turnover sequer, e acertou as bolas longas que Tatum gerou para ele. Ele foi destrutivo na defesa, e acertivo no ataque. Com Brown e Tatum dominando, os Celtics embalaram e não pararam mais, destruindo um exausto Miami no segundo tempo para assumir o controle da série. Assim como em toda a temporada, a resiliência dos Celtics esteve em primeiro plano.

E, por causa disso, os Celtics estão a uma vitória das Finais da NBA.