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OPINIÃO

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NBA: Final do Leste entre Celtics e Heat é a série mais imprevisível do ano

Bam Adebayo, do Miami Heat, é marcado por Marcus Smart, do Boston Celtics -  Mike Ehrmann/Getty Images
Bam Adebayo, do Miami Heat, é marcado por Marcus Smart, do Boston Celtics Imagem: Mike Ehrmann/Getty Images
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

25/05/2022 04h00

Depois de quatro jogos nas finais da Conferência Leste, Boston Celtics e Miami Heat estão empatados com duas vitórias para cada lado. O que era uma série de melhor de 7 agora virou uma melhor de 3, e as margens de erro são minúsculas. Ao contrário do Oeste, onde os Warriors abriram 3-0 de vantagem e praticamente se garantiram nas Finais logo de cara, o Leste continua completamente aberto e literalmente qualquer coisa está em cima da mesa no momento.

No papel, essa é a marca de uma grande série, disputada e bem jogada, decidida nos detalhes. Na prática, no entanto, essa série até aqui tem sido - não existe outra palavra para isso - bizarra. Dos quatro jogos, apenas um deles não chegou no quarto período já decidido, o Jogo 3, que teve suas próprias circunstâncias fora da curva. O Jogo 3 também foi o único decidido por menos de 10 pontos até aqui. Ambos os times tem oscilados quartos dominantes com quartos de completa letargia, grande basquete com péssima execução, e tem dificuldades em jogar uma partida inteira com consistência. E, acima de tudo, essa série tem sido definida por quartos com enorme disparidade, e pelas lesões e ausências.

Quanto ao primeiro ponto, é talvez o mais visível da série: quase todos os jogos foram decididos por um quarto em específico onde um time foi dominante e o outro jogou como um time colegial. No Jogo 1, Miami fez 39 a 14 no terceiro período, virando o jogo e abrindo uma vantagem definitiva na partida. No Jogo 2, Boston matou o jogo no segundo quarto, no qual fez 35-21 (depois de 35-24 no primeiro período). No Jogo 3, Miami abriu 21 pontos logo no primeiro quarto com uma sequência de 39-18; Boston conseguiu encostar no fim do jogo, mas em grande parte por causa da lesão de Jimmy Butler. E, no Jogo 4, Boston devolveu com 29-11 no primeiro quarto, definindo o jogo novamente antes do intervalo. Esses quartos da "morte" são bizarros não só por uma discrepância pontual entre dois times extremamente parelhos no resto do tempo, mas porque eles tiram muito da graça do jogo, definindo cedo várias dessas partidas.

As ausências e lesões, por outro lado, podem ser ainda mais significantes. Claro, na NBA ninguém nunca está 100% saudável e lidar com ausências de jogadores importantes é parte do que faz um campeão, mas a dança das lesões nas finais do Leste estão particularmente determinantes no resultado. No Jogo 1, Boston esteve sem dois titulares em Marcus Smart e Al Horford, ausências decisivas para um time que tomou esse já citado vareio no terceiro período. No Jogo 2, Boston jogou com os titulares completos e ganhou com propriedade, mas Miami estava (assim como no Jogo 1) sem Kyle Lowry, alguém que mesmo não estando na sua melhor fase altera em muito a geometria da série quando está em quadra. Para o Jogo 3, a ausência de Robert Williams no time dos Celtics permitiu a Bam Adebayo ter o melhor jogo da sua carreira, e a subsequênte lesão de Jimmy Butler no segundo tempo foi parte importante do que quase permitiu aos Celtics virarem o jogo no final. Por fim, no Jogo 4, Boston jogou novamente sem Marcus Smart, e Miami jogou sem Tyler Herro e com um Butler possivelmente ainda baleado, levando a uma vitória dos Celtics.

De novo, lesões fazem parte de qualquer série (Boston e Miami chegaram aqui beneficiados em parte por lesões em Khris Middleton e Joel Embiid, respectivamente), mas a irregularidade com que elas tem acontecido tem impedido a série de desenvolver algum tipo de ritmo, e torna muito mais difícil fazer análises a respeito - e o mesmo é verdade da irregularidade como um todo, incluindo taticamente. Como sugerir ajustes e pensar em cenários para os próximos jogos se não temos nem como entender direito o que se passou nos últimos? É possível, claro, dar alguns palpites bem educados - no fundo, todas essas análises sobre o futuro não passam disso - mas eles ficam muito mais incertos do que em outras circunstâncias.

Em geral, tentando deixar de lado todo esse ruído, eu acho que Boston tem sido ligeralmente superior ao Heat de modo geral; o melhor dos Celtics, pelo menos, tem sido superior ao melhor de Miami, se é que isso faz sentido. Mas Boston tem menos força mental, o que se manifesta naqueles quartos inexplicáveis de letargia e péssimo basquete, e o Heat se beneficia de ter um elenco mais profundo (inclusive para lidar com lesões) e o melhor técnico da NBA em Erik Spoelstra; quando a série vira (como tem acontecido em muitos momentos) uma briga de foice, truncada e disputada, o Heat tende a levar vantagem e se aproveitar dos erros dos Celtics. No fundo, isso não é muito diferente do que eu tinha falado na prévia da série, mas é o que tende a aparecer nos poucos momentos onde realmente conseguimos entreaver algo de concreto em meio a tanta flutuação.

Meu palpite antes dela começar era Celtics em 6, e de certa forma, eu ainda acho que Boston tende a ser o favorito nesses três jogos pelos mesmos motivos, mas a margem para erro agora é muito menor, e considerando a irregularidade dos Celtics, esse favoritismo (que já não era grande) fica ainda menor. A única coisa que eu torço com todas as forças é que essa vaga nas Finais seja decidida dentro de quadra, e não pelas lesões dos principais astros do show.