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OPINIÃO

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O jogo físico dos playoffs da NBA podem ser uma bênção ou uma maldição

Stephen Curry e Ja Morant, após jogo 2 da série entre Golden State Warriors e Memphis Grizzlies - Justin Ford/Getty Images
Stephen Curry e Ja Morant, após jogo 2 da série entre Golden State Warriors e Memphis Grizzlies Imagem: Justin Ford/Getty Images
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

09/05/2022 04h00

Se você fosse resumir as séries de segunda rodada de playoffs entre Celtics e Bucks, e entre Warriors e Grizzlies, em uma palavra, ela provavelmente seria "físicas". Ambas as séries estão sendo marcadas por um basquete duro, físico, forte e de enorme intensidade - bem do jeito que o fã de basquete gosta. Parte disso talvez seja pura nostalgia por evocar uma NBA do passado, dos anos 80 e 90, onde a velocidade era menor e as faltas duras ainda eram não só permitidas, como quase incentivadas - algo que tradicionalistas e saudosistas dizem ser algo que sentem falta em uma NBA que se tornou mais técnica mas menos física com o tempo.

Você pode discutir qual basquete você prefere assistir, qual é mais divertido, mas é inegável que essa vertente mais física tem um número significativo de fãs e apela para uma grande parte do público que assiste basquete.

E tem momentos onde realmente essa atracão é fácil de entender - como no Jogo 3 entre Celtics e Bucks, um banho de sangue que parecia mais saído de um filme de Rocky do que Hoosiers ou Space Jam. Momentos como a falta dura de Giannis no aro em cima de Tatum, ou a cotovelada (totalmente não intencional) de Bobby Portis em Rob Williams, foram a norma e não a exceção; os jogadores se jogavam em cada bola perdida (causando momentos como esse atropelo), disputavam cada rebote, e sempre adicionavam uma dose extra de energia a cada lance, enquanto os juizes deixavam os contatos acontecerem. Ao fim de cada jogada, parecia que os jogadores sempre demoravam um ou dois segundos a mais para se levantarem. Eu fiquei exausto só assistindo a isso de casa.

E se talvez o basquete jogado não foi o mais interessante ou bonito, o nível de dramaticidade foi altíssimo. Como eu disse em outra coluna recente, a maioria dos fãs quer acompanhar uma narrativa interessante, uma história dramática e envolvente, e isso foi algo que o Jogo 3 entregou com sobras. Você sentia cada impacto em quadra, cada trombada, cada grama de esforço que os jogadores entregavam. Era claro que os dois times sabiam exatamente o que eram capazes de um ponto de vista técnico, e tentavam conquistar a vantagem na base da raça e força de vontade. Essa dedicação saltava aos olhos, e tornava os jogadores muito mais relacionáveis, quase como personagens de um épico grego que nós podemos acompanhar ao vivo. Não é por acaso que esse basquete é tão bem amado por uma parcela significativa dos fãs.

Também vale destacar que, apesar de física e brigada, a série em nenhum momento deixou de ser leal. Mesmo lances já citados, como a falta de Giannis em Tatum e a cotovelada não-intencional de Portis, foram faltas duras sem dúvida, mas não foram intencionais ou sujas; ambos foram faltas de basquete, consequência dessa velocidade e intensidade que ambos os times estão mostrando. Os jogadores dos dois times, inclusive, estão perfeitamente consciente disso, e você sente esse respeito dos dois lados; todos querem muito vencer, e se respeitam por isso. É o melhor lado da fisicalidade do jogo impulsionando uma das melhores séries desses playoffs.

Mas existe o outro lado, muito mais feio e desagradável, que tem dado as caras na outra série muito física dessa rodada, Grizzlies e Warriors: quando esse jogo físico se transforma em animosidade e um jogo sujo, violento. Mesmo que você não ache que os jogadores em si estão sendo sujos e violentos de propósito - eu pessoalmente não acho que alguém ali tem a intenção de machucar o outro - as ações, as consequências e principalmente a forma como os próprios envolvidos estão tratando a questão (principalmente fora de quadra) servem para inflamar os ânimos de forma perigosa e colocar o foco no lugar errado. Nesse sentido, o lado físico é um problema que está ofuscando o bom basquete dentro de quadra.

As brigas dessa série começaram no Jogo 1, quando Draymond Green foi expulso depois de uma falta flagrante 2 em cima de Brandon Clarke. A expulsão foi altamente contestada no momento, mas independente de você achar que ela foi justa ou não, ela criou uma primeira polêmica - uma que alguns comentários depois do jogo inflamaram e deixaram os jogadores dos Warriors irritados. Mas foi no Jogo 2 que a questão começou a sair de controle, com a falta de Dillon Brooks extremamente dura em cima de Gary Payton que acabou por quebrar o cotovelo do jogador dos Warriors.

Isso não é uma falta dura; é uma falta extremamente perigosa, vindo por trás com velocidade contra um jogador indefeso no ar. Eu obviamente não acho que Brooks fez de propósito para machucar Payton, é claro, mas ele assumiu um risco gigante com uma jogada que simplesmente não tem lugar em uma quadra de basquete. Brooks foi expulso e suspenso pela falta (e merecidamente), mas ela acabou sendo o estopim para que a série passasse de simplesmente física para algo a mais. Os jogadores dos Warriors abertamente criticaram a jogada como sendo suja, enquanto os dos Grizzlies ficaram na defensiva. Depois do jogo, o técnico dos Warriors Steve Kerr disse que Brooks "quebrou o 'código' do jogo" (no sentido de "código de honra"), e o jogo em quadra passou a refletir esse sentimento. Se em Celtics vs Bucks as faltas duras eram uma consequência da vontade e energia dos times, nessa série elas passaram a ser a causa e não a consequência, com os dois times tentando "devolver", ter a última palavra e se impor fisicamente de forma não amigável. Talvez fosse mais uma questão de percepção, mas a forma como os jogadores e técnicos de ambos os times abordavam a questão - acusações para todos os lados - contribuiu para isso.

O auge dessa infelicidade veio no Jogo 3, quando Jordan Poole atingiu o joelho de Ja Morant durante uma disputa de bola que fez o armador sair mancando de quadra.

Lesões são sempre uma desgraça, e ver um jogador como Ja saindo machucado nos playoffs é horrível, mas em circunstâncias normais isso talvez seria visto como uma fatalidade e não algo a mais. Mas, dadas as faltas duras, brigas, acusações e provocações, de repente parecia que Poole tinha tirado um soco inglês do bolso e nocauteado Morant. Jogadores e técnicos dos Grizzlies - liderados pelo técnico Taylor Jenkins - basicamente assumiram uma postura (ridícula, se você tiver um mínimo de bom senso) de que Poole teria causado a lesão de propósito, equiparando essa jogada à falta flagrante de Brooks e tentando transformar um lance de acaso normal em uma atitude maliciosa e intencional de machucar o adversário. O próprio Ja chegou a tuitar um video do lance com a frase de Kerr, Os Warriors, em resposta, continuam evocando a falta de Brooks, dando a entender que eram os Grizzlies que queriam machucar adversários e prejudicar com suas carreiras.

E, em algum momento, o que vinha sendo uma série extremamente divertida e bem jogada ficou em segundo plano, e as brigas, intrigas e animosidade real viraram o foco das conversas. Se Ja Morant perder mesmo o Jogo 4, como Memphis disse que vai, a conversa vai ficar ainda mais alta, e o discurso insuportável. Basquete é para ser divertido, e basquete físico, intenso PODE ser divertido - Celtics e Bucks sendo a Prova A - mas quando as brigas e intrigas, acusações e polêmicas, assumem o centro do palco, é porque algo está errado. Uma das séries está mostrando o melhor lado desse tipo de basquete, e a outra, o pior - e eu espero que o segundo isso suma dos playoffs antes que cause um estrago maior.