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OPINIÃO

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Os Suns chegaram para os playoffs da NBA, e eles são assustadores

Banco do Phoenix Suns comemora a vitória da equipe - NBA/Twitter
Banco do Phoenix Suns comemora a vitória da equipe Imagem: NBA/Twitter
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

06/05/2022 04h00

Se todo grande time da NBA tem uma jogada emblemática, um lance que representa um microcosmo de tudo que faz daquele time tão espetacular, essas jogadas geralmente são grandes tocos ou enterradas, trocas de passe velozes, contra-ataques mortais, bolas de três pontos, ou outro lance chamativo.

Mas, se eu tivesse que escolher uma jogada para representar perfeitamente o Phoenix Suns, seria essa do Jogo 1 contra o Dallas Mavericks:

À primeira vista, não parece ter nada de espetacular. É o tipo de jogada que você talvez nem repararia ao longo da partida, uma boa jogada da defesa, Luka errando um step back 3, e pronto. Mas o fato de nada fora do normal acontecer nessa jogada é exatamente o que faz dela extraordinária, e o que faz dos Suns tão extraordinários: ela não precisa ser especial porque ela é, do começo ao fim, completamente perfeita. São cinco defensores se movendo em total sincronia, fazendo as mesmas exatas leituras, as rotações corretas, tomando decisão certa atrás de decisão certa em uma fração de segundos e sem nenhum jogador destoar. Nela, os Suns não PRECISAM fazer nada especial porque fazem o básico à perfeição, e Dallas não consegue um centímetro de espaço ou um segundo de dianteira para gerar um bom arremesso.

Veja o vídeo de novo. Luka começa caçando DeAndre Ayton em um pick-and-roll. Essa é uma das jogadas que Luka mais é letal, forçando a defesa a trocar a marcação e colocar seu pivô em Luka - um mismatch que Luka ataca melhor do que qualquer jogador na NBA. Os Suns cedem a troca, mas sabem que não podem deixar Ayton marcando Doncic; Mikal Bridges então avança para colocar pressão, sem chegar a dobrar a marcação de fato, mas cortar linhas de passe e ficar bem posicionado para caso Luka tenta driblar. Kleber então aproveita que Bridges está focado em Luka para cortar pelas suas costas e atacar o garrafão; Luka acerta o passe perfeito, e Kleber agora está em uma situação de 4-contra-3.

Os Suns agora tem um problema: Kleber, marcado por ninguém, tem caminho livre até a cesta. Cameron Johnson, o último homem dos Suns, precisa se deslocar do seu jogador (Finney-Smith, na zona morta) para impedir a cesta fácil; mas, se o fizer, ele abre um passe fácil para Kleber e deixa livre um jogador na área mais perigosa da quadra para um arremesso de três. Só que isso é precisamente o que faz da jogada tão perfeita: no momento que Kleber faz o corte, todos os jogadores dos Suns entendem ao mesmo tempo exatamente tudo que precisam fazer; quem vai fazer a ajuda em cima de Kleber, que jogador vai ficar livre, que passe Kleber vai fazer, e as rotações que precisam ser feitas em sequência. Então, no momento que Johnson faz a rotação para cima de Kleber, o resto da defesa dos Suns já está fazendo as próximas rotações ANTES dos Mavericks começarem suas ações: Chris Paul desce para marcar Smith, e Bridges se recupera na direção de Bullock, de modo que quando Dallas faz a sequência natural de passes, os jogadores dos Suns já estão em posição, sem dar nenhum espaço para o arremesso. A bola volta para Luka, mas enquanto a laranja rodava, os Suns destrocaram a marcação para tirar Ayton de Doncic. Com o relógio acabando, Luka precisa forçar o arremesso de três, que não entra.

Esse é um resumo do que faz dos Suns tão bons; eles não precisam do e espetacular, porque são quase perfeitos em todos os fundamentos. Mesmo no ataque, seu arremesso característico é o chute de meia distância - que eles arremessam mais e melhor que qualquer outro time - uma jogada pouco chamativa e associada a um basquete ultrapassado, mas que eles fazem tão bem que não faz diferença. E apenas o resultado final (no caso, o chute de meia distância) acaba ocultando todo o enorme refinamento que existe por trás desse ataque, com movimentações de jogadores e bola, cortes e fintas, que é expert em gerar o melhor confronto e o maior espaço possivel para esses arremessos - veja, por exemplo, como eles conseguiram envolver Doncic em um número enorme de jogadas na defesa no Jogo 2.

Essa eficiência é a marca registrada dos Suns, uma máquina consistente e devastadora que foi o melhor time da temporada regular. Na primeira rodada dos playoffs, os Suns não mostraram essa mesma dominação contra um time dos Pelicans que era um matchup ruim para a equipe, ainda mais sem Devin Booker. Agora, contra Dallas, nós finalmente estamos vendo os Suns que eram considerados por muitos o maior favorito ao título da NBA, o time que destruiu todo mundo no caminho por cinco meses de temporada regular. Os Suns chegaram para os playoffs de vez, e Dallas está sendo a vítima da vez. A série ainda está longe de acabar, claro, mas os Suns mostraram um basquete de altíssimo nível nesses primeiro jogo, não só vencendo como dominando.

Nas palavras do Emperador Palpatine, essa máquina de batalha está plenamente operacional. E isso é um problema para o resto da NBA.