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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mantendo a calma e reconhecendo chances perdidas nos Jogos 1 da NBA

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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

03/05/2022 04h00

Ontem a tarde, durante a rodada da NBA, o analista da ESPN Kevin Pelton tuitou um dado curioso: nos últimos dez anos, por doze vezes um time começou uma série de 7 jogos na NBA vencendo o Jogo 1 fora de casa por dois dígitos - situação na qual seria de se esperar que esse time iria ser franco favorito a vencer essa série. No entanto, tais equipes ganharam apenas duas dessas doze séries.

É claro, isso não quer dizer que vencer o primeiro jogo fora de casa por dois digitos é ruim, e a amostra é pequena demais para tirar qualquer tipo de conclusão ou realizar alguma análise. Mas é um lembrete interessante do quão perigoso é tirar conclusões grandes demais após apenas uma partida. As séries da NBA envolvem sete jogos, e não um, por um motivo; o resultado de um único jogo é extremamente influenciado pelo acaso e por diversas variáveis que, ao longo do tempo, não tendem a se repetir, e portanto o resultado também não. Isso não quer dizer que alguns resultados não SEJAM sustentáveis, mas querer achar que tudo que acontece em um jogo é não, e esse é o principal motivo pelo qual nunca devemos ler demais em um jogo só.

Por outro lado, vencer um jogo de playoffs de qualquer jeito que seja é enormemente valioso. Vencer um bom time de basquete quatro vezes em sete tentativas é difícil; vencer quatro em seis é muito mais, e por isso qualquer time que saia com vantagem de 1-0 se coloca na frente da série por uma margem não considerável. Então as duas coisas precisam ser levadas em conta: entender que nem tudo que levou ao resultado de um Jogo 1 vai se carregar para o resto da série, mas também aceitar que o resultado em si é uma vantagem grande para o confronto.

O que eu busco fazer nesses casos é me perguntar quais são os fatores que tendem a não se repetir nos próximos jogos. claro, é impossível controlar TODOS os fatores e sempre vai ter uma ou outra coisa que você pode ficar caçando infinitamente, mas eu me refiro às grandes variáveis.

Pegue Celtics vs Bucks, por exemplo. É inegável que os Bucks foram muito superiores na sua vitória no Jogo 1, que jogaram melhor e a vitória foi merecida. Mas, antes de achar que os Bucks vão ser superiores em todos os jogos, vale lembrar de diversos fatores que contribuíram para isso. Jayson Tatum e especialmente Jaylen Brown foram muito mal no Jogo 1; da mesma forma, Boston teve a segunda pior performance em arremessos de dois pontos da história da NBA e sua pior na temporada. Parte disso tem a ver com a ótima defesa dos Bucks, mas parte é simplesmente algo que não vai se repetir e é um ponto fora da curva que tende a se normalizar. Giannis não vai arremessar 9-25 de quadra, mas também não vai dar 12 assistências, e Jrue Holiday não vai acertar alguns dos arremessos ultra-contestados, e os Celtics não serão pegos tão desprevinidos no duelo tático da série - mesmo que você ache Budenholzer um técnico superior a Udoka, é extremamente improvável que com o tipo de ajuste e adaptação que os playoffs enxergam jogo-a-jogo a vantagem tática dos Bucks seja tão grande pelos próximos jogos como foi no Jogo 1.

Isso não é para dizer que os Bucks só venceram por sorte, é claro. Mas em um duelo entre dois times tão bons como esses, a vitória muitas vezes é decidida por uma série de variáveis, e quando essas variáveis todas caem de um jeito que favorece um dos times - como foi o caso dos Bucks no Jogo 1 - é natural que esse time vá vencer por uma margem confortável e se mostrar superior. Mas se essas variáveis de repente voltem a se equilibrar para os próximos jogos, como seria normal, então a vantagem que levou a equipe a dominar o Jogo 1 desaparece, e os dois times novamente estão em pé de igualdade. Isso não quer dizer que os Bucks não possam vencer os outros jogos mesmo caso essas variáveis se normalizem, apenas que elas ajudaram o time a vencer o Jogo 1 com uma facilidade que não é esperada que se repita - e portanto não deveria ser usada como parâmetro para ajustar expectativas daqui para frente.

Mas existe o outro lado da moeda, que foi o que vimos no segundo jogo de domingo entre Warriors e Memphis. Na prévia da série, eu escrevi sobre como a questão das bolas de três e do espaçamento eram variáveis chaves para os Grizzlies; e, de fato, Golden State entrou pensando a mesma coisa, deixando os jogadores de Memphis (tirando Desmond Bane) arremessarem de três a vontade em troca de fechar o garrafão e impedir a infiltração. Memphis precisava acertar essas bolas não só para igualar a matemática contra um dos melhores times arremessando de fora na NBA, mas também para abrir sua defesa e todo o resto do jogo.

E, no Jogo 1, foi exatamente o que aconteceu, em um nível além dos maiores sonhos dos Grizzlies. Morant acertou quatro bolas de três pontos, e Jaren Jackson acertou seis; combinados, eles foram 10/20 nas bolas longas, um número surreal no quesito que talvez era mais fundamental para Memphis. E, como se não fosse suficiente, vários outros pontos imprevisíveis favoreceram os Grizzlies: Curry e Thompson passaram a partida quase toda com problemas de faltas; os juízes favoreceram Memphis em diversos lances críticos (o mais notável sendo a bola ao alto na última posse do jogo no que deveria ser claramente bola de Golden State) E ainda viram os Warriores jogarem o segundo tempo inteiro sem Draymond Green depois de sua expulsão no segundo quarto. É uma combinação de fatores favorável que caiu no colo de Memphis.

Mas, ao contrário dos Bucks, os Grizzlies não aproveitaram esses fatores favoráveis para dominar o jogo. Na verdade, Memphis perdeu o jogo por um ponto após a cesta decisiva de Klay Thompson e um toco (!!) providencial de Steph Curry. O que poderia muito bem ser uma vantagem de 1-0 agora se torna uma desvantagem.

Algumas pessoas interpretaram isso como um sinal de que os Grizzlies estão ferrados; de fato, em Las Vegas a varrida dos Warriors passou a ser o resultado mais bem cotado em apostas. O argumento é, se Memphis não conseguiu vencer em um jogo onde tudo deu certo, que chance eles tem de vencer jogos onde isso não será o caso? Mas esse é o raciocínio equivocado. Muitas coisas vão mudar para o Jogo 2 - Bane e Brooks não jogarão tão mal, possivelmente Memphis vai melhorar suas rotações, eles atacarão e defenderão diferente com base nos ajustes que tirarão do Jogo 1 - e isso vai fazer com que o próximo jogo seja diferente. A questão e que essas variáveis que favoreceram Memphis são flutuantes e aleatórias; vai ter noites que serão neutras, vai ter noites onde te favorecerão, e noites que agirão contra você. E o problema é que, como você não pode contar com elas se repetindo, você TEM que garantir as vitórias quando tudo está a seu favor. É uma chance que pode não se repetir, e portanto você não pode desperdiçar, caso contrário você se coloca em uma desvantagem muito grande - e foi exatamente o que aconteceu com Memphis. Já começando a série como azarão, eles PRECISAM aproveitar esses momentos; não é sobre o que isso diz para o resto da série, e sim sobre a chance perdida que coloca a série em um buraco.

Celtics e Grizzlies ambos perderam seus jogos 1 em casa, e começam a série em um buraco; mas a série é longa, tem muito chão pela frente, e ambos são perfeitamente capazes de virarem e se classificarem mesmo assim. Um jogo não diz nada sobre os próximos seis. Mas as circunstâncias importam, e o que elas nos dizem precisam ser levadas em conta. E se para os Celtics ainda não é hora de entrar em pânico, para Memphis eu me pergunto se não olharemos de volta para o Jogo 1 como o momento onde Memphis perdeu sua grande chance de bater os Warriors.