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OPINIÃO

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Como Ja Morant evoluiu e se consolidou como a nova superestrela da NBA

Ja Morant, jogador do Memphis Grizzlies - Joe Murphy/NBAE via Getty Images
Ja Morant, jogador do Memphis Grizzlies Imagem: Joe Murphy/NBAE via Getty Images
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

28/01/2022 04h00

Você pode não saber disso, ou até mesmo achar contra-intuitivo, mas a escolha #2 do Draft da NBA carrega consigo uma certa... maldição. Não uma maldição de verdade, claro, mas algo que as pessoas associam a isso popularmente. Pois a verdade é que, desde 1984 - quando o Portland Trail Blazers usou a escolha #2 do Draft para selecionar Sam Bowie na frente de Michael Jordan - os times que tinham essa escolha tão alta em geral acabaram saindo com grandes decepções.

Nesses trinta e oito anos desde então, a vasta maioria dos jogadores a saírem com a segunda escolha geral do Draft acabaram sendo grandes fracassos (como Darko Milicic, Stromile Swift, Danny Ferry, Hasheem Thabeet), jogadores no máximo sólidos (Rik Smits, Shawn Bradley, Keith Van Horn, Marvin Williams), ou então jovens que se tornaram legítimas estrelas... mas só DEPOIS de saírem ou serem trocadas pelo time que as selecionou (Jason Kidd, LaMarcus Aldridge, Alonzo Mourning). As duas únicas exceções são Gary Payton e Kevin Durant... que, é claro, foram escolhidos por um time que não existe mais, o Seattle Supersonics. Mesmo em anos recentes, cuja história ainda não está totalmente escrita, vimos nomes como Marvin Bagley, Jabari Parker e James Wiseman saindo no #2 geral na frente de Luka Doncic, Joel Embiid e LaMelo Ball. É muita bagagem para uma escolha só.

No entanto, a NBA hoje tem um jogador que não só está em boas condições de quebrar essa Maldição de Sam Bowie... como na verdade talvez já o tenha feito.

Ja Morant, escolha #2 do Draft em 2019, sempre foi um jogador extremamente talentoso - afinal, ele FOI visto com o segundo melhor jogador da classe - mas só talento te leva apenas até certo ponto na NBA. Logo que entrou na liga, ele mostrou que não apenas era bom, mas suas habilidades iriam se traduzir bem para os profissionais. Ele foi Calouro do Ano em 2018 e continuou melhorando e expandindo seu jogo, até o ponto onde a pergunta deixou de ser "Ele vai ser bom?" para ser "O quão bom ele vai ser?"; "só" um muito bom jogador, ou uma superestrela capaz de transformar uma franquia por conta própria?

Foi na reta final da temporada passada que nós começamos a ter um vislumbre do segundo. Com o Grizzlies precisando vencer o Golden State Warriors no play-in para se classificar para os playoffs, Ja explodiu para 35 pontos, 6 assistências, 6 rebotes e 4 roubos de bola para vencer os favoritos Warriors em San Francisco. Na série que se seguiu contra o Utah Jazz, Memphis foi eliminado em cinco jogos, mas Morant novamente deu show: foram 30 pontos por jogo de média e mais oito assistências, incluindo uma explosão para 47 pontos (!!) no Jogo 2. Foram apenas seis jogos, sim, mas o cenário - playoffs, jogo de maior pressão possível, contra duas das melhores defesas da NBA - indicavam que poderia ser apenas o começo de algo maior.

E, quando a temporada 2021/22 começou, ficou claro que tinha sido apenas a ponta do iceberg. Ja Morant nunca desacelerou do ritmo insano com o qual terminou a temporada passada; em 37 jogos, Morant tem média de 26 pontos, 7 assistências e 6 rebotes por jogo, arremessando 53% para dois pontos e 36% para três, conforme lidera o Memphis Grizzlies à terceira colocação no forte Oeste. Hoje, Ja caminha não só para figurar no seu primeiro All Star Game, mas para ser um titular no jogo das estrelas - ele é o segundo armador mais votado na conferência, atrás apenas de Steph Curry. Ja Morant não é mais uma futura estrela; ele está virando uma das maiores do esporte diante dos nossos olhos.

E não só uma estrela, mas talvez não tenha hoje na NBA um jogador mais divertido de se assistir como Ja Morant. A primeira coisa que salta aos olhos é sua capacidade atlética descomunal; sua capacidade de salto é de outro planeta. O toco que ele deu em Avery Bradley alguns jogos atrás foi um dos tocos mais inacreditáveis que eu já vi na vida; parece um filme de basquete com efeitos ruins, onde uma criança ganha poderes de um astro da NBA e sai pulando por ai.

Mais do que a capacidade de salto e seu domínio no ar, Morant também é extremamente atlético no chão. Sua explosão, velocidade, capacidade de desacelerar e mudar de direção fazem com que ele consiga deslizar pela quadra; ele é tão rápido e consegue passar por espaços que parecem impossíveis com tanta fluidez que parece que Morant está se teleportando pela quadra - motivo pelo qual o colunista Matt Moore apelidou Ja de Nightcrawler, em referência ao personagem (em português, Noturno) dos X-Men.

Mas o que diferencia Ja de outros armadores hiperatléticos é que ele consegue aliar essa velocidade e explosão a um profundo e extremamente refinado controle do jogo. Ja é um excelente passador, e que enxerga o jogo um ou dois passos à frente do resto dos jogadores; ele sabe como a defesa vai reagir a cada movimento, e o que ele precisa fazer para induzir as rotações que ele quer e abrir os passes que ele busca. E, como ele é rápido o suficiente para chegar a qualquer lugar da quadra com facilidade (e o domínio de bola para ajudar), a quadra inteira se torna um grande tabuleiro de xadrez que Ja manipula como um mestre. Veja a jogada abaixo, por exemplo:

Morant chama um pick-and-roll, e a defesa está defendendo com o pivô fazendo o drop - recuando para impedir que Morant ataque a cesta, como ele faz tão bem. Ele então puxa a bola para o lado, forçando Nurkic a acompanhar o drible para não dar espaço e que seu defensor original precise ajudar no garrafão, impedindo que a defesa se recomponha. Aproveitando o espaço que existe entre ele e Nurkic, Ja recua como se fosse arremessar uma bola livre... o que força um terceiro defensor dos Blazers (McCollum) a sair de posição e tentar contestar o arremesso, mas era só uma finta. Fora de posição, McCollum cede espaço para De'Anthony Melton na zona morta cortar livre para a cesta; Morant novamente ataca, obrigando Nurkic a defendê-lo e tirando o pivô do garrafão, abrindo o passe acrobático para Melton e a enterrada fácil. É um nível genial de manipulação que muitos armadores que chegam na NBA demoram anos e anos para conseguir atingir, se conseguirem. Morant já tem ele no seu repertório na sua segunda temporada.

Morant tem o pacote completo; mesmo o arremesso, que era uma questão na época do Draft, parece estar desenvolvendo - 36% de três na temrporada para o armador dos Grizzlies. Mas o mais importante de tudo é que, apesar de todo o talento individual do mundo e de jogar tanto com a bola nas mãos, Morant é tudo menos individualista. Ele joga para o time, confia nos companheiros para fazer a jogada, e sabe se movimentar e impactar o jogo quando está sem a bola, inclusive cedendo o controle do ataque se algum companheiro está em um bom momento. Ele não liga a mínima para suas estatísticas, e sempre se dedica por completo dos dois lados da quadra - inclusive se reinventando como um protetor de aro (!!!) na defesa após voltar de lesão.

E esse é o principal motivo pelo qual Memphis passou de ser um time promissor para uma das melhores histórias da temporada - porque Morant deixou de ser um armador promissor para um dos melhores jogadores da NBA. Hoje, Morant deve ser titular no All Star, e tem um legítimo argumento para ser 1st Team All-NBA, no mínimo 2nd Team. Tirando Luka, ele talvez seja o jogador abaixo de 25 anos mais valioso de toda a liga. Memphis está 33-17, terceiro no Oeste, e é um dos quatro times da NBA a estar no Top10 tanto de defesa como ataque - ao lado dos favoritos ao título Suns, Bucks e Heat. Não tem nada, no momento, indicando que isso seja uma aberração. Memphis, e Ja, vieram para ficar.

O que, claro, é muito diferente de dizer que tudo daqui para frente será uma grande subida rumo à glória. Times jovens são extremamente irregulares, e assim como podem dar um salto inesperado, eles também tendem a oscilar perigosamente - é só ver o Atlanta Hawks, por exemplo. A história da NBA está repleta de jovens times talentosos que deram esse primeiro passo, mas não conseguiram continuar nessa trajetória rumo ao topo. Alguns desabaram por completo, outros simplesmente estagnaram. É parte do jogo, e de uma liga extremamente competitiva e fluida onde tudo pode mudar em um piscar de olhos.

E o mesmo pode acontecer com Ja e Memphis, pois o sucesso do passado importa menos do que os desafios do futuro. Nada é garantido na NBA. Mas Memphis hoje tem os dois ingredientes mais importantes para times que tem essa ambição: uma cultura bem estabelecida, dentro e fora da quadra, para ser o pilar desse time jovem e talentoso; e uma legítima superestrela que é a encarnação física de tudo que a franquia prega, que joga pelo time, se sacrifica pela vitória e da o exemplo todo dia para o resto dos companheiros.

Vinte e nove times da NBA cometeriam um crime para ter Ja Morant. E agora você sabe por quê.