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OPINIÃO

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O que nós já sabemos na metade da temporada 2021-22 da NBA

Devin Booker comanda segunda vitória dos Suns contra os Bucks na final da NBA - USA TODAY Sports
Devin Booker comanda segunda vitória dos Suns contra os Bucks na final da NBA Imagem: USA TODAY Sports
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

14/01/2022 04h00

Nós estamos cada vez mais perto do ponto médio da temporada 2021-22 da NBA, a marca de 41 jogos que divide a primeira da segunda metade do calendário. A essa altura, normalmente nós já temos uma boa ideia do que está se desenhando na temporada.

Mas a temporada 2021-22 não tem sido normal. Conforme casos de COVID voltam a explodir, os times tem enfrentado muitas ausências dos seus jogadores e sendo obrigados a repor as vagas vazias no elenco com jogadores em contratos de 10 dias. Nesse caos, a NBA já bateu seu recorde de mais jogadores a atuarem em uma única temporada, e é um fator que tem dificultado demais analisar as equipes e os jogadores. Tem sido muito raro que os times joguem completos, o que por sua vez impede o desenvolvimento de continuidade.

Mas, aos poucos, você vai conseguindo separar alguns fios desse emaranhado bizarro. Tendências vão surgindo, algumas certezas vão se aprofundando, e de repente o todo começa a fazer mais sentido. Então eu separei aqui alguns desses pontos que parecem nos dar alguma base de sustentação em uma temporada tão esquisita.

Os favoritos aos títulos estão claros

No começo do ano, parecia que quatro times compunham o ciclo interno de favoritos ao título de 2022: Golden State Warriors, Phoenix Suns, Milwaukee Bucks e Brooklyn Nets. Os Bucks eram os atuais campeões e trouxeram de volta o mesmo núcleo; os Nets, com Durant, Harden e (talvez) Kyrie, era o time mais talentoso da NBA no papel; e Warriors e Suns, além das credenciais passadas, começaram o ano destruindo tudo e a todos. Pareciam estar um nível acima dos demais.

E cada vez mais parece que esse é mesmo o caso. Suns e Warriors esfriaram um pouco depois do começo dominante, o que é normal considerando a aleatoriedade que a COVID trouxe para a NBA e a preocupação em deixar o time descansado para os playoffs. Os Bucks vinham se recuperando muito bem antes de uma onda de lesões, mas parecem ser ainda melhores que ano passado se conseguirem ficar saudáveis. Os Nets são talvez o único time desses que tem preocupado um pouco, em meio à interminável novela Kyrie Irving e um James Harden que ainda tem jogado abaixo do esperado. Mesmo assim, até o momento não vimos nada nessa temporada para nos dissuadir de que esses quatro times são os grandes favoritos.

Mas, é claro, isso não significa que sejam os únicos times que disputam o título. Pelos números, o Utah Jazz está no bolo, embora sua sequência de decepções nos playoffs impeçam que entrem no grupo acima. O Miami Heat também tem um excelente time no papel, tem jogado muito bem apesar de uma infinidade de lesões, e não pode ser descartado. A situação de lesões de Kawhi Leonard e Jamal Murray podem influenciar o futuro de Clippers e Nuggets, e Ben Simmons continua sendo uma incógnita. Todos esses tem uma janela de título - eles só estão um nível abaixo dos quatro citados anteriormente.

E, é claro...

Bulls e Memphis são para valer

Começar o ano bem na NBA é uma coisa; ter boas sequências, ótimos jogos, tudo isso acontece. Sustentar esses momentos positivos ao longo de uma temporada, no entanto, é muito mais difícil - pergunte, por exemplo, aos Wizards. Regressões acontecem, lesões e desfalques testam a profundidade e estrutura da equipe, e adversários começam a olhar e estudar você com mais atenção.

Mas duas gratas surpresas da NBA, Bulls e Memphis, parecem ter chegado para ficar. Hoje, o Chicago Bulls ainda senta no topo da conferência Leste e tem o terceiro melhor ataque da NBA; DeMar DeRozan está jogando o melhor basquete da sua carreira, o combo Caruso-Lonzo trouxe muita estabilidade para esse núcleo ao redor das estrelas, e o time parece ter um entrosamento e uma identidade extremamente avançados para um time que mudou metade do elenco desde 2021.

O mesmo vale para o Memphis Grizzlies, que emendou uma sequência de vitórias impressionante quando Ja Morant se machucou atrás de uma defesa extremamente sufocante, viu alguma oscilação quando Ja voltou... e dai emendou outra sequência de 10 vitórias com o armador, na qual venceu Phoenix, Brooklyn, Warriors, Lakers e Clippers. Morant fez o legítimo salto para ser uma grande estrela, e o time parece ter encontrado uma identidade dos dois lados da quadra. Memphis atualmente é o sexto em Net Rating na NBA, e nada indica que isso seja uma aberração. Times jovens tendem a ser muito inconsistentes e difíceis de se prever - olhe para os Hawks, por exemplo - mas Memphis veio para ficar.

Uma vez estabelecido isso, a pergunta seguinte é: Bulls e Grizzlies podem disputar o título? Se tudo der certo - os confrontos favorecerem, alguns dos favoritos tiverem problemas e jogarem abaixo do seu nível, a equipe pegar fogo na hora certa - é possível, sim, enxergar um dos dois cavando uma vaga nas Finais. A janela está aberta, e basquete é imprevisível.

Mas, em situações normais, é um pouco difícil colocar esses dois em um patamar ainda tão alto. Em parte pela inexperiência e por ainda precisarem se provar - nenhum dos dois elencos e estrelas tem histórico de sucesso nos playoffs - mas também porque ambas as equipes tem algumas deficiências significativas: a defesa do Chicago Bulls tem despencado depois de um excelente começo, e Memphis tem problemas nas bolas de três e espaçamento - deficiências que não tem importado tanto na temporada regular, mas tendem a ficar muito maiores nos playoffs. Ambos ainda podem ter uma troca na manga para tentar impulsionar o elenco e aumentar a abertura dessa janela, é claro, mas como estão construídos hoje, talvez estejam ainda um passo atrás dos demais.

Um ano com muitos compradores

Por falar em trocas, essa temporada de trocas promete ser interessante. E o principal motivo é simples: essa temporada está muito mais aberta do que é normal na NBA.

A inclusão do torneio play-in ajuda, aumentando o número de potenciais vagas nos playoffs e portanto engajando mais equipes nessa disputa por vitórias. O Oeste esse ano não está tão forte, o que da motivos de sonho para os piores times, e o Leste está incrivelmente parelho, o que gera outro tipo de incentivo para times se reforçarem. Vários times considerados fortes candidatos aos playoffs e que entraram no ano com muitas expectativas - Atlanta, Boston, Lakers, Knicks - estão decepcionando profundamente, e podem se sentir pressionados a sacudir as coisas com alguma troca. As próximas semanas prometem muita movimentação (enquanto eu escrevia, Knicks e Hawks fizeram uma troca que levou Cam Reddish para New York).

O único ponto negativo é que cada vez mais parece que as grandes estrelas não estarão se movendo, afinal. A recente lesão de Damien Lillard praticamente mata as chances dele ser negociado esse ano, e as últimas notícias é que nada tem avançado na frente de Ben Simmons - embora isso naturalmente possa mudar em um instante. Os Pacers talvez sejam a esperança nesse sentido caso realmente avancem com trocas envolvendo Sabonis e/ou Myles Turner.

De olho no Draft

Em um momento onde talvez a NBA tenha mais times competitivos e efetivamente comprometidos a vencer jogos do que em qualquer momento da sua história recente - graças ao play-in e às mudanças nas regras da loteria do Draft - nós geralmente já sabemos de antemão quem serão os times a disputar a primeira escolha do Draft. E 2022 não é exceção.

Todo mundo sabia que Pistons, Houston, Orlando e OKC estão apenas começando as reconstruções, projetos para daqui a alguns anos. Esse eram os quatro times que a maioria dos analistas e fãs esperavam ver brigando pela primeira escolha do Draft, e realmente, eles tem as quatro piores campanhas da NBA (alguns tinham o Cleveland Cavaliers nessa briga, mas Cleveland é talvez a maior surpresa da temporada 2022.)

Mas alguns times menos antecipados podem acabar se juntando a eles pelas circunstâncias. Pegue o Indiana Pacers, por exemplo. Apesar dos números indicarem que o time não é ruim como a campanha, eles atualmente estão 15-27 e em antepenúltimo no que promete ser uma extremamente competitiva conferência Leste, 6 jogos atrás da última vaga pelo play in. Além disso, tem circulados boatos de que os Pacers estariam dispostos a ouvir propostas por SAbonis, Turner e outros jogadores. Indiana é famoso em parte por evitar ir em longas reconstruções, mas um passo atrás no caso de uma a troca não está fora das possibilidades.

O Oeste também tem dois times que podem ser empurrados nessa direção devido a lesões. A temporada do New Orleans Pelicans parecia ter ido pelo ralo logo aos zero minutos devido à misteriosa lesão de Zion Williamson que deixou o time em décimo terceiro no Oeste até aqui. Da mesma forma, os Blazers não tem jogado bem em meio a diversos desfalques, e devem perder Damian Lillard por pelo menos mais dois meses.

Em situações normais, os dois times estariam em um bom momento para começar a descansar jogadores, colocar a molecada em quadra e pensar em pegar uma escolha melhor no Draft antes de se reagrupar para 2023. No entanto, com as vagas extras vindas do play-in e o décimo lugar do Oeste estando completamente em aberto (o atual décimo é justamente os Blazers, com 16-24, e que como já disse vai perder sua estrela por dois meses), ambos os times ainda podem ter uma janela para brigar pela pós-temporada. Caso acreditem que suas estrelas possam voltar a tempo dos playoffs, tudo que precisam fazer é garantir essa décima vaga e apostar tudo em abril - o que naturalmente desincentiva o tanking. Kings e Spurs também estarão na briga.

Mas a história nos indica que um desses times ainda deve recuar para o tank, e caso Pelicans ou Blazers acreditem que Zion e Dame não devam voltar mais esse ano, faria sentido pensar no Draft e em 2023.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL