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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que os pivôs na NBA têm tantos problemas para bater lances livres

Nenê cobra lance-livre no duelo do Brasil com a Sérvia na fase de grupos do Mundial - EFE/Miguel Angel Molina
Nenê cobra lance-livre no duelo do Brasil com a Sérvia na fase de grupos do Mundial Imagem: EFE/Miguel Angel Molina
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

16/12/2021 04h00

Lances livres são um dos componentes mais simples do basquete: é apenas o jogador e a cesta, sem defesa, sem interferências, todo o resto do time parado. Mas, para uma jogada tão simples, ela gera um número surpreendentemente alto de polêmicas e discussões entre os fãs.

Essas discussões, no momento, estão focadas mais na questão da frequência desses lances livres no jogo de basquete; depois de anos de jogadores cada vez mais encontrando novas formas de explorar as regras para bater um número cada vez maior de lances livres, a NBA finalmente agiu para reduzir o número de faltas nas suas partidas. No entanto, historicamente, as grandes polêmicas ao redor dessa jogada costumam seguir em outra direção: a de jogadores que tem dificuldade em converter seus lances livres.

É uma história tão antiga quanto a própria NBA: algum grande jogador, extremamente dominante, um gigante entre mortais, imparável dentro de quadra... mas que, quando sofria a falta e ia para a linha do lance livre, de repente parecia mais perdido do que *insira aqui sua analogia favorita para estar perdido*. De Wilt Chamberlain a Shaquille O'Neal, alguns dos mais dominantes e imarcáveis jogadores da história do basquete acabavam ficando de fora de momentos decisivos das partidas por causa dessa fraqueza e do medo de sofrer faltas.

Mesmo nos dias de hoje ainda vemos muitos casos como esse: Giannis Antetokounmpo, pouco antes de conquistar seu primeiro título de NBA com uma performance lendária, estava sofrendo essas mesmas críticas por causa das suas dificuldades de acertar lances livres. A dificuldade de Ben Simmons no quesito se tornou parte dos problemas que o levaram a uma queda bizarra dentro e fora das quadras. Mesmo jogadores como DeAndre Jordan e Dwight Howard, não muito tempo atrás, estavam sofrendo críticas gigantescas por essa falha no seu jogo, e a narrativa ao redor era de que esses jogadores "não treinam" ou "não tem vontade de aprender" a bater lance livre - uma narrativa ridícula considerando o quanto dinheiro está envolvido no negócio.

E, embora problemas com lances livres possam afetar jogadores de qualquer posição, é notável como eles parecem ser muito mais comuns em pivôs. Entre os jogadores que eu citei no texto até aqui, os únicos não-pivôs da lista são Giannis (que JOGA como um pivô, mesmo que não seja um no papel) e Ben Simmons, que também é um jogador bem acima do tamanho normal para a sua posição. Ao longo da história, esse é o estereótipo que costuma ser associado a problemas nos lances livres: jogadores grandes, fortes e pesados, frequentemente pivôs. Mas existe realmente uma explicação para esse fenômeno?

Lances livres pivô - Basketball Reference/Formulação própria - Basketball Reference/Formulação própria
Lance livre por posição - 2021
Imagem: Basketball Reference/Formulação própria

Essa é uma pergunta que muitos já tentaram responder - principalmente os treinadores de jogadores que se encaixam nesse perfil, é claro. Uma dessas tentativas, recentemente, foi feita pelo blog Betway Insider, que entrevistou de ex-jogadores da NBA a astros do basquete nacional para entender a relação entre o tamanho dos jogadores e sua dificuldade de bater lances livres - e encontrou diversas respostas, que vão desde a dificuldade mecânica para jogadores mais altos e longos até questões mentais dos atletas. Vale bastante a leitura se você se interessa pelo tema. E, é claro, eu também tenho minhas opiniões pelo assunto.

E sabe por onde começamos a encontrar a explicação? Pelos arremessos de três pontos.

Isso mesmo, bola de três pontos. Não entendeu a relação? Pois eu explico. Veja o gráfico abaixo para começar:

FT x 3PT% - Basketball-Reference/Formulação Própria - Basketball-Reference/Formulação Própria
Correlação entre lance livre e chute de três, 2021
Imagem: Basketball-Reference/Formulação Própria

Existe uma correlação direta entre habilidade para chutar de três pontos e converter arremessos da linha do lance livre, o que na verdade é bastante intuitivo: o movimento é semelhante, e baseado nas mesmas habilidades e tipo de memória muscular. Se um jogador é bom arremessando de longa distância, ele muito provavelmente possui boa percepção de profundidade, controle de força sobre a bola e precisão, e essas características naturalmente também ajudam em muito na hora de bater lance livre - levando a melhores aproveitamentos.

Se você pensar na capacidade de bater lance livre como um subproduto ligado à habilidade de arremessar em geral, fica ainda mais claro. Pense historicamente na função associada a pivôs: ficar perto do aro, usar sua altura (e, portanto, proximidade da cesta) para fazer enterradas e bandejas, pegar rebotes, dar tocos. São habilidades que em geral estão relacionadas à maior força e tamanho desses jogadores, e a vantagem natural que elas conferem em um esporte tão baseado na altura e onde arremessos perto da cesta tem um aproveitamento muito maior do que qualquer outro lugar da quadra. Isso faz com que pivôs tenham desenvolvido muito menos suas habilidades de arremesso desde os primórdios da liga em comparação a outras posições, focando ao invés disso em outras técnicas que não possuem essa associação. Por que Wilt Chamberlain iria dedicar seus esforços a refinar seu arremesso de longe - em uma era onde não existia linha de três pontos, ainda por cima - se ninguém (além de Bill Russell) conseguiam impedir ele de pontuar à vontade perto da cesta? Porque alguém como o Shaq faria, ou até mesmo o mais habilidoso longe da cesta Kareem?

Em contrapartida, jogadores mais baixos e menos atléticos como Jerry West, Pete Maravich, Bob Cousy (e eventualmente, após a criação da linha de três pontos, nomes como Steve Kerr, Steve Nash e Stephen Curry) e tantos outros sabiam que não tinham condições de disputar dentro do garrafão contra jogadores muito maiores e mais fortes do que eles, e precisaram adaptar suas habilidades para sobreviver mais longe do aro, onde sua maior agilidade e mobilidade lhes dava uma vantagem. Esses jogadores, portanto, desenvolveram habilidades de drible, passe e eventualmente de arremesso, esse último recebendo um enorme impulso quando da criação da linha dos três pontos em 1980. Mas foi a partir desse perfil básico de altura que se criou toda uma linha evolutiva para guiar o desenvolvimento dos jogadores de basquete.

Os resultados desse processo evolucionário, hoje, a gente vê com muita clareza: jogadores mais baixos tendem a arremessar muito mais de três do que pivôs, que por sua vez jogam mais dentro do garrafão.

3PT per 36 - Basketball Reference/Formulação própria - Basketball Reference/Formulação própria
Arremessos de 3 pontos, por 36 minutos, 2021
Imagem: Basketball Reference/Formulação própria

E, como ao longo dos anos a arte de arremessar foi se refinando cada vez mais, também aumentou a disparidade nas eficiências.

Em outras palavras, não é tão simples quanto achar que um Andre Drummond da vida simplesmente não se tranca no ginásio e não treina lance livre, e é por isso que ele é ruim no fundamento. Durante décadas, os atletas que competem por um lugar na liga de maior nível do mundo - uma liga onde a diferença entre um astro e um jogador de banco é muito menor e mais sutil do que parece - refinaram ao máximo suas habilidades para se tornar o melhor jogador possível, sempre dentro daquilo que era mais adequado ao seu tamanho e posição, e esse processo que gerou as disparidades que vemos hoje.

Mas isso não precisa ser uma verdade eterna e imutável. Conforme o jogo da NBA cada vez mais tem evoluído na direção do perímetro, e a matemática e espaçamento das bolas de três pontos tomado conta cada vez mais dos esquemas táticos, cada vez mais tem se exigido dos pivôs que sejam também ameaças longe do aro, capazes de arremessar de três - o que também levou a um aumento no aproveitamento dos lances livres. Entre os principais pivôs da NBA, Joel Embiid tem média de 81 FT% na carreira, Nikola Jokic tem 83%, Karl-Anthony Towns tem 84% - todos jogadores capazes de fazer estrago dentro E fora do garrafão, que não tem como fraqueza o lance livre. Os dois principais jogadores do próximo Draft, Paolo Banchero e Chet Holmgren, também são pivôs com ótimo arremesso e bom aproveitamento da linha do lance livre.

E, assim como a disparidade em si, isso não é fruto de treinar mais que o outro ou algo assim, e sim de uma mudança na árvore evolutiva da NBA e suas posições. Claro que, na média, um pivô sempre vai arremessar menos de fora (e, portanto, pior do lance livre) que um ala-armador ou armador, simplesmente por causa das habilidades que são exigidas para ser um jogador médio funcional na posição, mas se essa mudança recente de padrões é um indicativo de algo, é que não devemos nos apegar sempre a verdades fáceis e antigas, pois a única constante na NBA é a mudança.