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OPINIÃO

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Como uma volta às raízes está impulsionando os Warriors para o topo da NBA

Stephen Curry em ação durante partida do Golden State Warriors na temporada 2021-22 da NBA - Divulgação/NBA
Stephen Curry em ação durante partida do Golden State Warriors na temporada 2021-22 da NBA Imagem: Divulgação/NBA
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

25/11/2021 04h00

Entre 2014 e 2019, o Golden State Warriors se consolidou em uma das maiores e mais únicas dinastia da história da NBA. Nesses cinco anos, o time chegou a cinco finais consecutivas, se tornando apenas o segundo time da era moderna do basquete a realizar esse feito (depois dos Celtics entre 1957 e 1966), e venceu três títulos nesses anos, marca que novamente apenas os Celtics dos anos 60 superaram. Por qualquer métrica possível, esse era um dos melhores e mais icônicos times da história do basquete.

E seu modelo de jogo desses anos de ouro, tão icônico e bem-sucedido, era facilmente reconhecível: a movimentação de bola, o altíssimo número de cortes e de passes, um jogo coletivo baseado menos em jogadas desenhadas e mais em uma série de movimentos simultâneos, que confiava na inteligência e leitura dos seus jogadores para tomarem as decisões certas simultaneamente. Era mais que um sistema de jogo, era uma filosofia, a de que o time era composto por todos e que todos precisavam contribuir a cada posse de bola. O resultado foi algo que lembrava mais um ballet do que basquete, a elevação do jogo ao patamar de arte, o coletivo se tornando maior que a soma das suas partes. Era algo verdadeiramente lindo, e único de se assistir.

Mas, após as Finais de 2019 - na qual perderam para o Toronto Raptors em seis jogos - os Warriors precisaram se reinventar: Kevin Durant, MVP das Finais em 2017 e 2018, deixou o time para se juntar ao Brooklyn Nets; Klay Thompson, peça fundamental da identidade do time, rompeu o ligamento durante as Finais e perderia pelo menos um ano; Curry e Draymond, as duas outras peças do Big Four, estavam envelhecendo e lidando com lesões. Para piorar, a fim de juntar quatro All Stars na mesma equipe os Warriors precisaram sacrificar a profundidade do seu elenco, o que limitava consideravelmente os meios pelos quais o time poderia repor a perda de Durant.

Para tentar compensar a saída de KD, os Warriors trouxeram o armador All Star D'Angelo Russell; ainda que não fosse nem de longe um jogador do nível de Durant, pelo menos foi uma forma de manter o nível técnico da equipe em alta. Mas trazer Russell pensando no talento e não no encaixe também simbolizava algo maior: de que os Warriors estavam admitindo que o modelo que os levara até o topo tinha chegado ao seu limite, e que estava começando uma nova era em Golden State. Russell não encaixava no estilo de movimentação de bola e leitura de jogo; para acomodar seu talento, o time precisava mudar e adaptar seu estilo de jogo.

A temporada 2020 começou mal o suficiente, com esse choque entre estilos demorando para encaixar, e o ano acabou logo na primeira semana com uma lesão na mão de Steph Curry, que o manteve de fora durante quase todo o ano. Golden State acabou eventualmente trocando Russell para o Minnesota Timberwolves por uma escolha de Draft e Andrew Wiggins, no que parecia ser uma mensagem clara: estamos acumulando ativos para uma troca e apostando nossas fichas em 2021, quando Curry e Klay estarão de volta.

A troca não se realizou, mas a campanha desastrosa dos Warriors rendeu a eles a segunda escolha do Draft, que acabou virando o pivô James Wiseman. Apesar de talentoso, Wiseman era outro exemplo de jogador que agregava em qualidade pura, mas que não encaixava no estilo clássico de movimentação de bola e decisões rápidas da equipe. Só que desenvolver Wiseman era fundamental para os planos a médio prazo dos Warriors, e com Klay sofrendo nova lesão e perdendo mais um ano inteiro com uma ruptura no tendão de Aquiles, mais uma vez a equipe tentou um novo esquema para encaixar suas peças díspares. E o resultado, novamente, foi bem ruim: Golden State foi 17-24 com Wiseman na equipe, e se encontrava com míseros 24-28 de campanha após 52 jogos, parecendo prestes a perder os playoffs pelo segundo ano seguido.

E então algo estranho aconteceu.

No jogo seguinte, contra o Houston Rockets, Wiseman rompeu o ligamento do joelho. Sem seu jovem talentoso, e com um elenco extremamente magro e carente de talentos, o técnico Steve Kerr concluiu que sua única chance de vencer e brigar pelos playoffs era jogar única e exclusivamente em função dos seus dois melhores jogadores saudáveis, Curry e Green. Para isso, Kerr resgatou o velho esquema tático dos Warriors. O time voltou a apostar em uma formação mais baixa, com Draymond Green jogando mais de pivô, acelerou o jogo, voltou a executar a maior parte das suas ações fora da bola, e rodar os passes no perímetro em busca de arremessos de fora.

E, de repente, os Warriors não apenas voltaram a jogar como faziam durante seus anos de ouro, mas eles também voltaram a ganhar. Curry e Dray jogaram seu melhor basquete, e na reta final da temporada os Warriors venceram QUINZE jogos contra apenas CINCO derrotas. Golden State acabaria perdendo os playoffs após uma derrota dolorida para o Memphis Grizzlies no play-in, mas apesar da eliminação ficou claro que algo havia mudado nos Warriors após a lesão de Wiseman. Uma vez resgatada sua identidade - a identidade que fez dos Warriors aquela dinastia imbatível em primeiro lugar - o time voltou no tempo e resgatou um pouco da velha magia. Com muito menos talento no time do que antes, é claro que o resultado não chegava perto do nível extraordinário do passado, mas você via (e reconhecia) os lampejos.

E então começou a temporada 2021/22 da NBA. Klay Thompson, peça tão fundamental, ainda não jogou uma partida sequer pelos Warriors e não deve voltar até o Natal. James Wiseman continua fora, se recuperando de lesão. Suas duas escolhas de loteria em 2021, Moses Moody e Jonathan Kuminga, mal entram em quadra. E, apesar disso, Golden State está passando por cima da NBA como um rolo compressor, com a melhor campanha da liga de 15 vitórias contra apenas duas derrotas, e um saldo de pontos que lidera a liga por uma distância absurda para o segundo colocado. Mesmo desfalcado, mesmo com pouca contribuição dos seus jovens talentos, os Warriors passaram de ser um time medíocre para ser novamente o bicho papão da NBA, mesmo sem grandes adições ao elenco.

E a diferença dos Warriors dominante de 2022 para os dos últimos dois anos de decepções é evidente. Ao invés de continuar tentando encaixar uma peça redonda em um buraco quadrado, os Warriors decidiram compor em cima do que deu tão certo na reta final de 2021 e voltar à sua identidade do passado. Todas as contratações feitas pelo time na offseason foram visando esse encaixe: o time se encheu de veteranos inteligentes, versáteis e que (em geral) arremessam bem de três pontos. Nomes como Bjelica, Otto Porter e um Andre Iguodala em final de carreira dificilmente são os tipos de atletas que alteram as expectativas de um time pelo que adicionam individualmente - existe um motivo para ambos estarem disponíveis pelo salário mínimo da NBA - mas todos são excelentes encaixes nesse esquema e nessa identidade, e sua presença ajuda a construir esse ecossistema que funciona tão bem para os Warriors - e que já provou que , desde que você tenha Stephen Curry e Draymond Green, vai resultar em produto maior do que a soma das suas partes.

E embora seja precipitado dizer que os Warriors sejam novamente os grandes favoritos da NBA e que manterão esse ritmo ao longo de toda a temporada, os resultados têm falado por si só. Não apenas o time tem a melhor campanha da NBA, mas o que está por trás dela sustenta essa ideia de volta às raízes: nenhum time da mais passes por jogo do que os Warriors (317), e incríveis 71% das suas cestas vem de assistências - ambas a melhor marca da liga por uma boa margem. E talvez mais importante, isso permite que seu astro - Stephen Curry, o maior arremessador da história, um dos 10 maiores jogadores que a NBA já viu - tire o máximo dos seus talentos únicos.

E eu não digo individualmente, embora nisso também Curry esteja brilhando - jogando em nível MVP mais uma vez, recapturando sua magia única - mas coletivamente. Curry impacta o jogo simplesmente por EXISTIR em quadra; ele é uma ameaça para arremessar em uma fração de segundos, em qualquer lugar, e obriga a defesa a prestar uma atenção surreal nele, abrindo espaço para todos os companheiros.

E essa gravidade, a capacidade de distorcer e destruir esquemas defensivos simplesmente pela sua presença em quadra, é infinitamente mais mortal e mais efetiva quando todos os jogadores (incluindo Curry) e a bola estão se movendo pela quadra, ao invés de deixar a laranja centralizada nas mãos de um jogador só. Não que Curry não seja mortal quando precisa assumir o controle do jogo - nós vimos ano passado que ele ainda é totalmente destrutivo - mas a maior flexibilidade e imprevisibilidade do estilo dos Warriors permite a Curry usar toda sua inteligência e a ameaça do seu arremesso sem a bola para elevar todos ao seu redor em um nível sem paralelos na história do basquete. E de repente aqueles jogadores limitados começam a jogar como bons jogadores, e bons jogadores parecem estrelas, tornando tudo uma enorme bola de neve que faz dos Warriors esse time que nós estamos vendo mais uma vez em quadra.

Esse é o verdadeiro poder de Stephen Curry, e o segredo por trás dos times lendários dos Warriors que ele capitaneou. E, se o começo de 2021/22 é indicação de alguma coisa, é que os Warriors estão de volta. E a NBA é um lugar melhor por causa disso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL