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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Homem-a-homem, zona, trocas e mais: Como os times da NBA jogam na defesa

Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, dá um toco em Jae Crowder, do Phoenix Suns, nas finais da NBA de 2021 - Jeff Hanisch-USA TODAY Sports
Giannis Antetokounmpo, do Milwaukee Bucks, dá um toco em Jae Crowder, do Phoenix Suns, nas finais da NBA de 2021 Imagem: Jeff Hanisch-USA TODAY Sports
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

05/11/2021 04h00

Primeiro, nós ensinamos o básico do que é a NBA e como funciona sua temporada. Depois, ensinamos sobre o jogo em si e a quadra de basquete. Depois, explicamos como funcionam as posições do basquete. Por fim, falamos sobre os básicos do ataque, e como times da NBA executam suas jogadas ofensivas a fim de conseguir bons arremessos.

Agora, é hora de ir para o outro lado da quadra e falar de defesa. Apesar de falácias repetidas como a que na NBA hoje "ninguém defende mais", as defesas estão mais complexas do que nunca, e defender hoje é mais difícil do que em qualquer outro ponto da história do basquete. E, assim como com os ataques, é impossível cobrir todas as opções utilizadas pelos times da NBA. Para cada ação ofensiva, existem três ou quatro variações defensivas normalmente usadas em resposta. É uma infinidade de opções, e não é nossa proposta passar por todas elas. Pelo contrário, a ideia é passar pelo básico para dar uma visão geral do que você verá em quadra quando assistir a um jogo de NBA —e ajudar você a identificar certos conceitos bastante comuns.

Parte I - A NBA
Parte II - O jogo e a quadra
Parte III - As posições do basquete
Parte IV - O ataque na NBA

O que é defender bem?

Como dito na Parte IV, o objetivo de um time que tem a bola é conseguir uma quebra para forçar a defesa a reagir e eventualmente induzi-la ao erro, conseguindo espaço para um arremesso. Para a defesa, naturalmente, é o contrário: seu objetivo é impedir que o ataque consiga esse espaço.

E o seu maior aliado nisso é o relógio de arremesso. Na NBA, os ataques têm 24 segundos para realizarem um arremesso a cada posse de bola. Nesse tempo, o ataque busca forçar quebras e decisões sequenciais na defesa tentando um bom chute. Então quanto mais tempo a defesa consegue passar sem ceder essas quebras ao ataque, melhor: agora o ataque tem menos tempo para realizar sua jogada, e isso tende a levar a arremessos de pior aproveitamento. Nenhuma defesa, nem a melhor de todas, é capaz de impedir por completo que o adversário arremesse regularmente; o que elas fazem é simplesmente garantir que os arremessos sejam os piores possíveis.

E embora tocos e roubos de bola chamem a atenção em vídeos de melhores momentos, a verdade é que melhor coisa que um defensor pode fazer é simplesmente não cometer erros. Cada vez que um defensor executa o papel que deveria, o ataque cria menos espaço e gasta mais tempo no relógio, levando a estagnação e chutes piores. Boa defesa não vem de grandes lances chamativos que aparecem nas redes sociais; ela é discreta, resultado de se executar consistentemente a jogada correta ao longo de 48 minutos, tomando a decisão certa em conjunto com seus companheiros a cada posse para negar ao ataque aquilo que ele busca a cada momento.

O que é a "jogada certa" vai variar dependendo do que o ataque está fazendo, ou tentando fazer, a cada momento. Se o adversário está jogando em isolação, por exemplo, o defensor precisa não ser driblado; se é um pick-and-roll, tanto o armador como o pivô possuem funções diferentes para neutralizar a vantagem do ataque e recuperar a situação de equilíbrio.

Homem a Homem

Sob uma ótica macro, existem dois tipos de organização defensiva na NBA: a defesa pode marcar individualmente, também chamado de defesa homem a homem, ou por zona.

A defesa homem a homem é de longe a mais comum na NBA: como o nome indica, cada jogador da defesa é responsável por marcar primariamente um indivíduo específico do adversário, normalmente aquele que atua na mesma posição. Isso não quer dizer, é claro, que cada defensor vá defender apenas uma pessoa e ignorar o resto do jogo; defesa na NBA é algo extremamente coletivo e frequentemente depende dos cinco defensores ao mesmo tempo. Mas o posicionamento inicial e responsabilidades primárias são ditadas para a defesa a partir do posicionamento dos jogadores ofensivos.

Defesa por zona

A alternativa à defesa homem a homem é a chamada defesa por zona. Nela, ao invés do defensor ficar responsável por defender primariamente um jogador adversário, ele agora é responsável por defender uma região específica da quadra. Então agora não é mais o ataque que vai ditar o posicionamento de cada defensor; isso já é pré-determinado.

A defesa por zona é menos comum na NBA porque, como os defensores marcam mais regiões e não jogadores, o ataque consegue abrir mais distância entre seus arremessadores e a defesa - e, com o nível de qualidade dos jogadores da NBA, esse espaço a mais pode ser fatal. Mas, em pequenas doses, defesas por zona podem ser muito eficientes para confundir os ataques; estes são pensados em enfrentar defesas individuais, e a mudança para a zona causa confusão e exige que o ataque pense e execute mais lentamente suas jogadas - gastando o relógio no processo - ou então prendendo os jogadores entre as zonas.

Uma boa zona também pode ajudar a defesa a esconder um defensor fraco, já que ela tende a ser mais coletiva e portanto as responsabilidades individuais são mais diluídas.

Ajuda defensiva

Mas a defesa na NBA cada vez mais é coletiva. Ataques ficaram bons demais em criar uma quebra inicial contra qualquer formação defensiva. Se apenas os jogadores diretamente envolvidos na jogada ficarem encarregados de impedir a cesta, as chances estão contra eles.

Pense em um pick-and-roll, no qual o ataque busca tirar um defensor da jogada e criar uma situação de dois contra um. Os dois defensores diretamente envolvidos precisam executar bem o esquema do time e recuperarem suas posições, caso contrário o ataque vai pontuar com facilidade. No entanto, se a defesa consistentemente deixar o ataque atacar em vantagem numérica, ela tende a sair perdendo.

É aí que entra a ajuda defensiva. O conceito é simples o bastante: quando o ataque executa uma ação para se colocar em uma situação vantajosa, os jogadores de defesa que NÃO estão diretamente envolvidos na jogada precisam se deslocar e oferecer cobertura, tentando impedir que o ataque capitalize na sua vantagem e dando tempo para que os defensores recuperem sua posição. Veja por exemplo o lance abaixo:

O ataque cria a situação de dois contra um com o pick and roll, e consegue espaço até a cesta. Um terceiro defensor então se adianta para fornecer ajuda, e impedir que o pivô tenha a cesta fácil.

Esse é só um exemplo de ajuda; times possuem regras diferentes sobre qual jogador é responsável pela ajuda inicial, e isso varia dependendo do tipo de ação que a defesa está combatendo. Mas o conceito é o mesmo: usar os jogadores fora da bola para fornecer ajuda contra a ação primária, a fim de neutralizar a vantagem do ataque —e então o jogador da ajuda volta ao seu homem.

É claro, o ataque sabe que a defesa tende a enviar ajuda, e quer usar isso a seu favor: se um jogador foi ajudar defensivamente, o ataque agora tem um homem livre. Isso nos leva a outro ponto importante...

Rotações

Continuando o exemplo anterior, o ataque forçou a ajuda defensiva, e agora tem um jogador livre; ele vai, portanto, tentar levar a bola até esse jogador. O defensor na ajuda pode tentar se recuperar na direção do seu homem, mas a velha máxima do basquete diz que a bola se move mais rápido que o jogador - ou seja, são boas as chances de que a bola chegue antes e o ataque consiga um bom arremesso.

Para evitar que isso aconteça, a defesa precisa fazer rotações: um outro defensor se deslocará para cobrir esse jogador livre e evitar o chute desmarcado. É claro, isso vai deixar OUTRO atleta do ataque livre, e um outro defensor precisa fazer essa rotação para marcar o jogador aberto, e por ai vai. Boas defesas são aquelas que não apenas reagem na hora de fazer as rotações, mas as antecipam; quando o primeiro defensor vai para a ajuda, o time inteiro já se posiciona para rodar os marcadores e fechar os espaços antes que eles apareçam.

Como você deve imaginar, isso é muito difícil de se executar. Se um defensor está atrasado ou fora de sintonia com o resto da defesa, o ataque ganha um chute livre.

Mas quando as defesas rodam corretamente, é uma obra de arte - neutralizando a vantagem do ataque e sufocando os jogadores ofensivos, impedindo que os espaços se abram e travando a rotação de bola.

Trocas

Outro conceito que você vai ver muito na NBA hoje em dia é o das trocas. A troca é uma alternativa para a defesa combater uma ação que envolva dois ou mais jogadores, geralmente um corta-luz: ao invés de deixar o ataque criar uma situação de desvantagem para um defensor ao tirar outro da jogada, a defesa simplesmente troca os jogadores que estão marcando cada um no ataque.

As trocas se tornaram mais populares na NBA nos últimos dez anos como uma resposta ao aumento do uso de pick-and-rolls. A vantagem que essa estratégia oferece é clara: se o pick-and-roll busca criar uma situação de dois-contra-um para cima do pivô adversário, ao trocar a marcação a defesa impede que se crie essa vantagem e mantém um defensor em cada jogador do ataque. O mesmo vale para o corta-luz que acontece fora da bola.

O lado negativo é que pode criar os chamados mismatches, quando um defensor fica pareado com um jogador de ataque com o qual ele tem uma clara desvantagem. Um armador que troque a marcação para cima de um pivô terá uma desvantagem de tamanho que pode ser explorada pelo ataque; um pivô que troque para cima de um ala terá uma desvantagem em velocidade. Saber quando trocar ou não a marcação também é marca de uma boa defesa.

Como dito, a ideia aqui não é passar por todas as táticas defensivas usadas na NBA, o que é impossível. Ao invés disso, espero que esse resumo dos principais conceitos ajude vocês a entenderem o que as defesas estão fazendo —ou NÃO estão fazendo— da próxima vez que assistir a um jogo de basquete.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL