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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Facção antivacina surge como novo desafio para temporada da NBA

Aviso nos arredores do Staples Center, ginásio de Los Angeles: só torcedores vacinados seriam permitidos para ver o jogo entre Lakers e Celtics em 15 de abril de 2021 - Keith Birmingham, Pasadena Star-News/ SCNG
Aviso nos arredores do Staples Center, ginásio de Los Angeles: só torcedores vacinados seriam permitidos para ver o jogo entre Lakers e Celtics em 15 de abril de 2021 Imagem: Keith Birmingham, Pasadena Star-News/ SCNG
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

27/09/2021 04h00

Entre as principais ligas esportivas dos Estados Unidos, a NBA tem a fama de ser a liga mais progressista de todas. E com bons motivos: muito da sua história e sua consolidação enquanto liga veio nas costas de pioneiros como Bill Russell, Elgin Baylor e Oscar Robertson, jogadores brilhantes que além do que faziam dentro de quadra também lutavam fora delas contra um sistema de discriminação e segregação racial —para mais detalhes, recomendo esse episódio do podcast de história do basquete "Na Era do Garrafão". Mesmo em tempos modernos, seus jogadores têm estado na linha de frente de movimentos sociais por igualdade racial, justiça social e pela voz de minorias em meio a um conturbado período dos Estados Unidos —algo que teve um papel importante inclusive no crescimento da liga no século 21, conforme a NBA buscava conectar cada vez mais com demografias jovens.

E, no entanto, no momento a NBA vive um dilema complicado com alguns dos seus jogadores que vai em uma direção totalmente contrária a essa imagem progressista. Mais especificamente, diversos jogadores estão resistindo à vacinação contra a covid-19. Estima-se que 10% dos jogadores sob contrato estejam avessos à ideia de vacinação, colocando em xeque o andamento da temporada como projetado pela NBA. É uma atitude que, além de ridícula e potencialmente perigosa, possui as mesmas características anticientíficas e de conspiracionistas contra esses mesmos jogadores lutavam contra.

Em 2020, a temporada da NBA foi interrompida por meses e depois finalizada em uma bolha dentro da Disney por causa da pandemia; em 2021, a temporada foi mais curta que o normal e com menos descanso (o que levou a um surto de lesões) também como consequência, e mesmo assim surtos da doença atrapalharam a temporada de diversas equipes. Então, para 2021-22, é natural que a liga tentasse aproveitar a vacinação avançada nos Estados Unidos para tentar um retorno à normalidade. E foi o que ela buscava quando, algumas semanas atrás, a NBA anunciou que pelo seu novo protocolo todos os técnicos, funcionários, assistentes e trabalhadores ligados à liga teriam vacinação obrigatória para a temporada 2022.

Mas o que era para ser um momento positivo acabou gerando muito mais questionamentos que elogios, e isso se deu por causa da ausência de obrigatoriedade para o principal grupo de todos: os jogadores — o que deixou claro que existia uma resistência ativa entre os atletas à vacinação.

Agora, é importante ter em mente que quando falamos dos "jogadores da NBA", nós estamos falando de um grupo heterogêneo de mais de 400 pessoas, todos com suas individualidades. É uma generalização, e na verdade a maioria desses jogadores está vacinada. Mas quem toma as decisões pelo conjunto é a associação dos jogadores, a NBPA, e vem dela - e de alguns dos seus principais membros - essa iniciativa antivacina.

Kyrie Irving - Sarah Stier/Getty Images/AFP - Sarah Stier/Getty Images/AFP
Kyrie Irving, astro do Brooklyn Nets e vice-presidente do sindicato dos jogadores: likes em conteúdo antivacina
Imagem: Sarah Stier/Getty Images/AFP

E quando falamos desse assunto, é impossível fugir da questão racial. A população negra dos Estados Unidos - que compõe 75% dos jogadores da NBA - tem bons motivos históricos para ter receio das vacinas dadas pelo estado; existe um longo histórico no último século do governo usando essa população como "cobaias" para testes de vacinas, ou então usando vacinação forçada para esterilizar certas comunidades —o mais famosos desses casos sendo o "estudo" de Tuskungee, quando o governo do Alabama usou 600 homens negros como cobaias vivas em um estudo sobre sífilis e sua evolução no corpo humano (leia mais a respeito nesse artigo). É compreensível que o cidadão negro norte-americano médio tenha certo receio ou reservas de uma campanha de vacinação promovida pelo governo.

Mas esses jogadores definitivamente não são cidadãos médios; eles têm acesso a muito mais informação, médicos e especialistas, para se informar, educar e ter acesso a fatos e dados. Na verdade, é o oposto: esses atletas são modelos e influenciadores do resto da comunidade negra norte-americana, e suas ações e opiniões poderiam ajudar a educar e aumentar os índices de vacinação no país. De fato, diversos grandes craques (negros) da história da NBA — tanto dentro como fora das quadras — já fizeram campanha pública defendendo a vacinação, como Bill Russell e Kareem Abdul-Jabbar. Esse último inclusive deu declarações bastante duras em uma entrevista à revista Sports Illustrated, chamando os jogadores que não se vacinaram de "egoístas e arrogantes". Apesar disso, uma minoria vocal tem espalhado a mensagem errada, causando problemas para os esforços da liga de criar um ambiente mais seguro em 2022.

Alguns jogadores, o mais importante deles sendo LeBron James, não quiseram confirmar se já se vacinaram —LeBron chegou mesmo a desdenhar da vacina, embora tenha supostamente se vacinado posteriormente. Embora alguns tentem argumentar que é uma decisão individual, essa falácia já foi amplamente desmentida: a não-vacinação coloca outros em risco e mina um esforço coletivo de combate à pandemia. Mais tóxicos têm sido nomes como Kyrie Irving ou Jonathan Isaac, espalhando teorias falsas da conspiração a seu respeito.

LeBron James - Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images - Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images
Status de LeBron James ainda é incerto sobre vacinação contra a covid-19
Imagem: Andrew D. Bernstein/NBAE via Getty Images

Kyrie, aliás, tem deixado indiretas e curtindo ou compartilhado conteúdo de diferentes sites conspiratórios, inclusive um que prega que a vacina de covid faz parte de uma grande conspiração para ligar o cérebro da população negra a uma grande inteligência artificial. Considerando que Kyrie foi eleito em 2020 um vice-presidente da NBPA, não é difícil entender porque a associação dos jogadores continua tão resistente à questão da vacina — embora seja ingenuidade acreditar que se trata apenas de um ou outro jogador dissidente causando essa posição.

Mas essa não-obrigatoriedade e recusa de certos jogadores de se vacinarem têm efeitos que vão além dos riscos de saúde que oferecem para si e para seus companheiros. Alguns estados dos EUA estabeleceram medidas rígidas que só permitem vacinados em eventos em lugares fechados (o que inclui jogos da NBA). Em outras palavras, atletas de times sediados nesses estados (notavelmente Califórnia e Nova York) não poderão jogar as partidas em casa ou em visitas a esses lugares. Isso se aplica a vários times de grande importância na NBA hoje, como Warriors, Clippers, Lakers, Knicks e Nets.

Isso já colocou os holofotes em alguns nomes mais vocais entre eles. Notavelmente, além de Irving, dos Nets, surge Andrew Wiggins dos Warriors (que, vale lembrar, é canadense). Existe a perspectiva de que eles possam desfalcar suas equipes por possivelmente 41 jogos e poderia perder até a pós-temporada caso continuem com essa postura. Apesar de uma fonte da família de Kyrie ter dito à Sports Illustrated que espera que a "pressão" colocada pelos jogadores na NBA faça a liga dobrar as regras e liberar a atuação dos não-vacinados, a liga já avisou que vai respeitar as leis locais.

De certa forma, a NBA tem seguido a mesma postura de outra liga americana, a NFL; não obriga seus jogadores a se vacinarem, mas conta que as vantagens competitivas e financeiras sejam incentivos suficientes para levar à imunização. Além da perspectiva de perderem mais de metade dos jogos das suas equipes e prejudicarem assim seus companheiros, os jogadores que perderem jogos estão sujeitos a serem multados e não receber o salário correspondente aos jogos perdidos por fatores "externos" ao esporte —no caso de Wiggins e Kyrie, mais de US$ 10 milhões caso percam todos os jogos em casa.

Vai ser interessante ver se esses "incentivos" são suficientes para convencer os jogadores restantes a se vacinar, ou então se sua possível ausência (e suas consequências) serão uma história recorrente ao longo do ano e se a liga acabaria sucumbindo a esse movimento — especialmente considerando os times que são candidatos ao título e costumam ter exposição máxima nas caríssimas transmissões de TV de jogos da liga.

Olhando até mesmo além, fica a questão se essa repentina onda de conservadorismo —que vai na contramão de um esforço coletivo maior para conter uma pandemia que já matou quase 700 mil estadunidenses —afeta de alguma forma a imagem que a NBA tão cuidadosamente cultivou e tornou sua identidade ao longo dos últimos anos; e quais são os possíveis impactos maiores disso para o futuro da NBA.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL