PUBLICIDADE
Topo

14 Anéis

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Relembrando a Tim Tebow-mania na NFL, dez anos depois

Tim Tebow em ação pelo Denver Broncos em jogo da pré-temporada da NFL contra o Seattle Seahawks em 2011 - Garrett W. Ellwood/Getty Images/AFP
Tim Tebow em ação pelo Denver Broncos em jogo da pré-temporada da NFL contra o Seattle Seahawks em 2011 Imagem: Garrett W. Ellwood/Getty Images/AFP
Conteúdo exclusivo para assinantes
Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

06/09/2021 10h23

No começo da pré-temporada, cada time da NFL tem direito a carregar 90 jogadores no seu elenco; e, ao longo das semanas seguintes, precisa ir reduzindo esse número através de cortes. A primeira rodada de cortes em especial costuma ser completamente irrelevante: os jogadores dispensados são quase todos calouros não-draftados, veteranos machucados, ou atletas que simplesmente não são bons o suficiente para merecer a atenção.

Mas esse ano foi diferente. Quando o Jacksonville Jaguars anunciou sua primeira onda de cortes, ela incluiu o pior tight end do seu elenco: um jogador de 34 anos que nunca havia jogado profissionalmente na posição, estava fora da NFL desde 2015 e mal tinha atuado no primeiro jogo do time - o corte mais previsível possível. E, no entanto, a internet foi à loucura com o anúncio. Foram semanas de cobertura da mídia, opiniões polêmicas e discussões a respeito de algo que, na prática, foi completamente irrelevante.

Se você chegou recentemente na NFL, essa reação sem dúvida parece absurda. Mas, se você já acompanhava a liga no começo da década passada, você entende melhor o que acontece. Porque esse tight end já foi, dez anos atrás, um dos jogadores mais populares e polarizadores de toda a NFL.

Para entender o fenômeno Tim Tebow na NFL, é primeiro preciso falar de Tebow no esporte universitário. Em três anos como QB titular na Universidade da Florida, Tebow venceu dois títulos nacionais, foi eleito o melhor jogador universitário, e quebrou todo tipo de recordes imagináveis. Existe um argumento ser feito que Tebow é o maior quarterback da história do futebol universitário, e quando você adiciona a isso sua personalidade, carisma e mentalidade competitiva, ele se tornou um dos maiores fenômenos esportivos dos Estados Unidos.

Apesar disso, Tebow era visto com desconfiança pela NFL. Embora sua falta de precisão, mecânica de passe e dificuldade nas leituras não fossem problemas no jogo simplificado do esporte universitário, elas eram vistas como variáveis chaves entre os profissionais. Apesar disso, o Denver Broncos apostou na sua mística e usou uma escolha de primeira rodada para selecionar o QB da Florida. Tebow passou seu primeiro ano na reserva antes de ganhar a titularidade nas semanas finais da temporada, mas foi no seu segundo ano de liga, 2011, que o fenômeno Tebowmania explodiu na NFL.

Tebow não começou a temporada 2011 de titular; ele perdeu essa disputa para Kyle Orton. Mas Orton começou o ano muito mal, e Denver perdeu quatro dos primeiros cinco jogos para se colocar em um tremendo buraco. A classificação para os playoffs parecia morta. Então Denver fez a troca de quarterbacks e colocou Tim Tebow de titular, para dar mais rodagem ao segundanista.

E então algo estranho começou a acontecer. Denver começou a ganhar. E não era apenas questão de vitórias, mas que elas estavam acontecendo com um tom épico, com viradas históricas e jogadas improváveis que mantinham o time ganhando mesmo quando não deveria. E isso vindo logo com a mudança de QB para Tebow - alguém famoso pelo espírito competitivo, mentalidade vencedora e, sejamos sinceros, pela sua fé religiosa - a sequência dos Broncos ganhou um tom, bem, quase milagroso, e era difícil separar isso do seu novo quarterback.

O primeiro jogo de Tebow titular foi contra o Miami Dolphins. Nele, os Dolphins abriram 15 pontos de vantagem no quarto período; parecia que os Broncos acumulariam mais uma derrota... só para Tim Tebow liderar duas campanhas de touchdowns e correr ele mesmo para empatar o jogo, faltando 17 segundos no relógio, e levar a partida para a prorrogação - onde Denver venceria com um field goal.

Após uma derrota para os Lions, nova virada, dessa vez contra os Raiders: Denver perdia por 7 no terceiro período, mas explodiu no quarto com três touchdowns longos: duas corridas do RB Willis McGahee (uma de 60, outra de 24 jardas) e um retorno de punt de 85 jardas. Duas semanas depois veio outra virada, agora contra os Jets, com Tebow anotando o touchdown da vitória com menos de um minuto restando na partida.

O próximo jogo foi contra os Chargers: o kicker Matt Prater acertou um chute para empatar o jogo no fim do tempo normal, e outro para vencer o jogo para os Broncos nos segundos finais da prorrogação. Depois disso vieram os Vikings, e adivinhe: Minnesota vencia por 8 pontos no quarto período, mas novamente os Broncos empataram com uma corrida de Tebow, e Prater acertou um chute com o cronômetro zerado para dar a vitória para os Broncos.

Por fim, a mais milagrosa de todas, contra o Chicago Bears. Chicago vencia por 10 no quarto período, e Tebow anotou um TD para reduzir a desvantagem para 3, faltando 2:05 minutos. Mas a bola era de Chicago, que só precisava correr três vezes, deixar o relógio correr, e selar a vitória. Mas o RB dos Bears, inexplicavelmente, correu para fora de campo em uma dessas jogadas - o que parou o relógio, impediu que este se esgotasse e deu aos Broncos uma última chance na partida. Denver recebeu a bola de volta com 50 segundos no relógio; Tebow rapidamente avançou a bola para o campo de ataque, e Prater acertou mais um chute nos segundos finais para empatar o jogo. Na prorrogação, Prater deu a vitória aos Broncos.

Simples assim, os Broncos tinham vencido seis jogos seguidos e sete dos últimos oito jogos para chegar a 8-5 na temporada e assumir a liderança da divisão. Nessa sequência de 7-1, seis das vitórias vieram por uma posse de bola, seis delas em viradas no terceiro/quarto períodos, e três na prorrogação. Foi uma das sequências mais improváveis e surreais da história dos esportes americanos, e ela ter acontecido de forma tão impossível bem no momento que Tim Tebow assumiu a titularidade apenas contribuiu para sua lenda.

Denver ainda perderia os três jogos restantes para acabar o ano com uma campanha medíocre de 8-8, mas foi suficiente para se classificar para os playoffs. E, na pós-temporada, Tebow e os Broncos de 2011 escreveram de vez seu nome na história. Enfrentando o poderosíssimo Pittsburgh Steelers - atual campeão da AFC, campanha de 12-4, melhor defesa da NFL, favoritos por 7,5 pontos - o Denver Broncos jogou uma das partidas mais divertidas e empolgantes que eu já vi na minha vida. Dessa vez, foram os Broncos que explodiram ofensivamente e abriram 10 pontos de vantagem no quarto período, só para os Steelers empatarem no final do jogo e levarem a partida para a prorrogação. E foi na primeira jogada do tempo extra que veio o milagre.

Tebow terminou o jogo com 316 jardas aéreas e 3 TDs conforme os Broncos derrubaram os favoritíssimos Steelers para avançar. A internet não tardou a perceber que, além de Tebow terminar com 316 jardas aéreas, ele teve 31,6 jardas por passe completo e que o rating Nielsen da partida foi de 31,6 - uma curiosa coincidência, ainda mais considerando que Tebow é extremamente religioso e e que "João, 3:16" é considerado o mais famoso e importante versículo da bíblia cristã. Pode parecer uma curiosidade idiota, esse tipo de coisa apenas serviu para reforçar a mística ao redor do camisa 15.

Mesmo a surra que tomaram dos Patriots na próxima rodada não serviu para esfriar os ânimos no Colorado. Denver tinha emendado uma das mais incríveis sequências da história do esporte, e seguido isso com uma vitória épica nos playoffs. Para um time que começou o ano 1-4, a temporada acabou sendo um gigantesco sucesso. E, no centro de tudo isso, estava a lenda de Tim Tebow.

Mas ela não durou muito - pelo menos dentro de campo. Naquela offseason, os Broncos trouxeram Peyton Manning para assumir a titularidade, e Tim Tebow foi trocado sem cerimônia para os Jets. Tebow jogou um ano ruim por lá antes de ser dispensado, e passou os dois anos seguintes circulando pela liga, mas nunca conseguindo uma vaga. Por fim, acabou desistindo para comentar futebol americano na TV, depois foi ser jogador de baseball e, finalmente, tentou sua última cartada na NFL como tight end dos Jaguars - que acabou, como dito no começo do texto, com um corte logo no começo da pré-temporada.

Em retrospecto, a verdade é que Tebow simplesmente não era bom o suficiente como jogador para o nível NFL; mesmo como reserva, muitos times não tinham interesse em alguém tão limitado. Até durante a sequência espetacular de 7-1, foi atribuído a Tebow um papel que, honestamente, foi na sua maioria puro acaso. Não que Tebow não tenha tido sequências e momentos espetaculares para salvar Denver rumo a essas vitórias, mas a verdade é que Denver precisou muitas vezes ser salvos por buracos que o próprio Tebow ajudou a colocar a equipe. Seus números durante a sequência vitoriosa foram ruins, e muito do sucesso veio de defesa dominante que segurou os ataques adversários a 15 pontos ou menos em cinco das sete vitórias. Talvez nós tenhamos simplesmente empolgado com as vitórias e nos apressado a atribuir os méritos a Tebow, ou então acreditado em fatores intangíveis do camisa 15 que tivessem levado a esses resultados; mas a verdade é que ele não era, e nunca foi, bom o bastante para a NFL.

Ainda assim, estranhamente, esse fato serviu para tornar ainda mais espetacular o que aconteceu em 2011 com o Denver Broncos - algo mágico, fora da realidade, um relâmpago preso em uma garrafa que nós precisamos apreciar enquanto podemos porque talvez nunca vá se repetir. O único paralelo esportivo recente que eu consigo pensar foi o fenômeno Linsanity na NBA - quando Jeremy Lin, por algumas semanas, foi um dos melhores jogadores da NBA - mas mesmo a origem das duas histórias foi totalmente diferente: Lin era a zebra desconhecida que nem chegou a ser escolhido no Draft, e Tebow o supercraque universitário continuando sua jornada épica. A história é única a esse ponto.

E talvez seja por isso que o corte de Tebow dos Jaguars, por mais irrelevante que seja, mobilizou tanta gente: ele encerra um ciclo de um dos jogadores mais famosos e polarizadores para uma geração de fãs de NFL. E por mais que, racionalmente, sua tentativa de voltar como tight end estivesse destinada ao fracasso desde o começo e não houvesse qualquer chance de um final "feliz", talvez muita gente simplesmente quisesse sentir um pouco daquela mágica de novo; nós já vimos o impossível acontecer antes com Tebow, por que não de novo?

Eu falo por mim, mas a Tebowmania em Denver foi um dos momentos mais divertidos e empolgantes que eu já vivenciei como fã do esporte. E por mais que eu entenda as pessoas que se sentiram aliviadas que não precisarão mais lidar com a cobertura intensa da mídia sobre um jogador ruim, eu também sempre terei um lugar no meu coração de esportista para Tebow - que, além do que fez nos campos, parece ser genuinamente uma boa pessoa fora deles, fazendo uma tonelada de caridade e obras sociais, e sendo extremamente atenciosa com os fãs.

E, o que quer que venha a seguir na sua carreira, eu admito: uma parte de mim sempre vai estar interessada nos próximos passos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL