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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O dilema dos cinco times com quarterbacks calouros na NFL

Trey Lance em ação pelo San Francisco 49ers em jogo da pré-temporada NFL contra o Los Angeles Chargers - Harry How/Getty Images/AFP
Trey Lance em ação pelo San Francisco 49ers em jogo da pré-temporada NFL contra o Los Angeles Chargers Imagem: Harry How/Getty Images/AFP
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

24/08/2021 04h00

Qualquer pessoa que conheça um pouco de futebol americano sabe que o quarterback é de longe o jogador (ou a posição) mais importante em campo, então, não é de se espantar que uma atenção muito grande seja dada a todos os jovens quarterbacks que chegam à NFL com a promessa de serem os novos grandes craques da posição —uma promessa que, se realizada, pode mudar por completo o panorama de toda a liga. Por isso, o assunto dos quarterbacks calouros costuma ser tão polarizador, ainda mais em moda por se tratar de uma classe excepcionalmente talentosa como a de 2021.

Mas, se os torcedores querem ver tais jogadores em campo o quanto antes, os seus times enfrentam questões muito difíceis na hora de decidir quando colocá-los para jogar. Existe uma diferença gigantesca entre o jogo universitário e o da NFL. Por melhor e mais talentoso que um QB calouro seja, existe uma adaptação significativa pela qual ele precisa passar antes do seu jogo se traduzir por completo nos profissionais. Isso significa que, muitas vezes, no seu primeiro ano, o QB não está pronto para produzir logo de cara em alto nível, e equipes podem ter resultados melhores com jogadores veteranos e já estabelecidos.

Ao mesmo tempo, escolher um QB alto no Draft não é um investimento de curto prazo, mas de longo, o que gera outra variável que times precisam pesar na hora de tomar decisões: o desenvolvimento. E esse, por sua vez, não é linear. Por um lado, repetições de jogo são extremamente valiosas para os atletas se adaptarem e desenvolverem contra o nível profissional; por outro, colocar atletas jovens no fogo antes de estarem prontos —ou então em situações extremamente desfavoráveis— pode fazer mais mal do que bem, com esses jogadores desenvolvendo hábitos ruins que impeçam a progressão natural das suas habilidades. Desenvolvimento nos primeiros anos é fundamental para qualquer jogador, e equipes precisam pesar todas essas variáveis na hora de tomar uma decisão —e como fazer isso até chegar na situação ótima é um grande caso-a-caso que depende do jogador, da franquia e de todo um contexto para se avaliar. Não existe uma regra perfeita para como proceder nessas situações.

Para os cinco QBs de primeira rodada desse Draft —Trevor Lawrence, Zach Wilson, Trey Lance, Justin Fields e Mac Jones— isso significa coisas bastante diferentes, e portanto precisamos ajustar nossas expectativas de acordo. São situações muito diferentes entre si, e que serão tratadas cada uma à sua maneira.

Em um extremo, nós temos Trevor Lawrence, a primeira escolha do Draft. Embora o HC Urban Meyer ainda não tenha oficializado Lawrence como titular da equipe para a temporada, existe algum ser humano que realmente acredita que não será o caso? A alternativa do time para a vaga é... Gardner Minshew? É difícil argumentar que Minshew seja seguramente um QB melhor que Lawrence no curto prazo, mas mesmo se fosse o caso, os Jaguars são uma equipe bem longe de um título, dando os primeiros passos em uma reconstrução —o resultado da temporada 2021 deveria ser quase irrelevante para Jacksonville, e a única coisa que interessa agora é desenvolver Lawrence ao máximo, e isso por sua vez significa dar a ele todas as repetições possíveis como titular. Todo o incentivo do mundo para os Jaguars está na direção de colocar sua escolha #1 em campo desde o primeiro minuto.

Os Jets estão na mesma situação com Zach Wilson, mas vale lembrar o que aconteceu com OUTRO QB jovem e talentoso da franquia: Sam Darnold, um talento Top 5 no Draft que foi jogado como titular cedo demais atrás de uma terrível linha ofensiva e sem bons recebedores. Sem ajuda, Darnold não teve a menor chance de produzir bons resultados e desenvolveu uma série de maus hábitos por sua parte culminando no infame jogo em que ele estava "vendo fantasmas" contra New England. Nesse contexto, seria compreensível que os Jets optassem pela cautela com Wilson ao invés de jogá-lo no fogo de vez como fizeram com Darnold, mas as situações são muito diferentes: aprendendo com seus erros, NY investiu pesado na infraestrutura que colocou ao redor do seu QB, com uma linha e um corpo de recebedores muito reforçados, de modo que não devem ter problemas em usar Wilson de titular logo de cara.

No outro extremo, nós temos Trey Lance e o San Francisco 49ers. Os 49ers têm, possivelmente, o melhor elenco de toda a NFL, tendo ido ao Super Bowl em 2019; eles sabem que não podem jogar fora o ano de 2021 com um elenco tão bom e que pode brigar por títulos no curto prazo —e, portanto, precisam tomar a sua decisão pensando também nos resultados imediatos. E, nesse sentido, o que faz mais sentido é que Garoppolo seja titular em 2021. Ainda que San Fran ir atrás de Lance mostre que o enxergam como um upgrade em relação ao veterano, o calouro ainda é cru e vem da "segunda divisão" do futebol americano universitário, e faz mais sentido para San Francisco que ele se desenvolva no banco enquanto Garoppolo segura o forte. Isso não quer dizer que Lance não vá jogar esse ano —você pode ter certeza que ele vai ser usado em pacotes menores e situações específicas ao longo da temporada, e Garoppolo é famoso por suas lesões, de modo que Lance precisa estar pronto para entrar a qualquer minuto— mas, no caso de SF, o equilíbrio provavelmente pende na direção de deixar Lance no banco por uma temporada.

Os dois últimos times com QBs calouros de primeira rodada, Bears e Patriots, se encontram em algum lugar no meio desses dois pontos; times sólidos, que pensam também em quais opções são melhores para competir no curto prazo, mas que não possuem nem um elenco tão bom quanto o de San Fran, nem uma alternativa de QB competente como Garoppolo. Andy Dalton e Cam Newton são os que disputam com Fields e Jones, respectivamente, a titularidade nas suas franquias, e a questão que fica - e tão difícil de responder - é: quem da mais chances de vencer ao seu time?

No caso dos Bears, eu acredito que existe uma resposta lógica, e é Justin Fields —simplesmente porque nós sabemos que Andy Dalton, a essa altura da sua carreira, é bem ruim. Mesmo que ele ainda seja melhor que Fields no curto prazo, a barra fica colocada tão baixa que Chicago não vai a lugar nenhum mesmo que Dalton fique de titular, então, por que não apostar no jogador de mais alto potencial e que tem mais a ganhar em termos de desenvolvimento?

Mas, no caso, existe um motivo: o contexto. Lembra de Darnold, e como as condições horríveis ao seu redor (em especial da linha ofensiva) atrapalharam massivamente seu desenvolvimento? Se tem um QB calouro que corre esse risco, é Fields. Chicago fez um trabalho criminoso com sua linha ofensiva, e no momento ostenta uma das piores linhas da NFL. Se eles receiam o que pode acontecer com Fields jogando atrás desse desastre, então faz sentido deixar Dalton sofrendo os sacks e Fields treinando em paz. Esse motivo é válido; justificar que Dalton seria o titular por dar ao time as melhores chances de vencer, não —e, para uma diretoria e técnico pressionados no cargo, eu duvido que a paciência cabe por vencer em Chicago. Fields vai ser titular bem cedo.

E então chegamos a Mac Jones, talvez o caso mais difícil de se avaliar. Jones era considerado o QB calouro mais "pronto" dessa classe, e embora esse seja um rótulo extremamente perigoso (Josh Rosen e Daniel Jones também eram os mais "prontos" das suas classes), em teoria significa que ele estaria mais perto do seu teto e pode contribuir com mais tranquilidade no curto prazo. Para piorar, é difícil saber o que esperar de Cam Newton a essa altura: ele foi brilhante no auge, sim, mas faz muitos anos que ele não é esse jogador, desde que machucou o ombro em 2018. Além disso, teve um 2020 bem decepcionante na sua primeira passagem por New England, embora seja importante lembrar que ele lidou com questões de saúde e covid. Se você acredita que Newton é basicamente o jogador que foi em 2020, então vale a pena apostar em Jones, mas existem fatores para acreditar que Newton pode melhorar em 2021. É difícil encontrar a resposta certa.

Vendo de longe, parece ser o típico caso de levar semana a semana: o veterano começa de titular enquanto o calouro se desenvolve com calma. Se Newton jogar bem e for levando o time a vitórias, ele fica de titular e Jones continua no banco. Se Newton for mal e o time não estiver vencendo, é mais fácil de fazer a mudança para Jones no meio da temporada do que seria fazer o oposto. A maior parte dos calouros segue esse padrão hoje em dia.

Mas vai ser interessante ver se fatores "externos" acabam pesando a favor do calouro. Enquanto a NFL se esforça para retornar a uma vida normal pós-covid, uma variável chave tem sido a vacinação dos seus jogadores, e até agora Cam Newton ainda não foi vacinado. No começo da semana, Newton foi afastado por cinco dias após ter violado uma diretriz de covid da NFL e vai ficar sem treinar e jogar com a equipe, uma ausência que vem em um momento crítico da pré-temporada e na disputa pela titularidade.

A ausência de Newton vai pesar e abrir ainda mais a porta para Jones treinar com o time titular e provar que merece a vaga, mas não é apenas pelos dias perdidos, e, sim, pelo que a situação representa conforme a temporada avança: ter jogadores vacinados é simplesmente uma vantagem competitiva grande demais para não ser um fator, com regras muito mais permissivas e frouxas para jogadores que já tomaram as duas doses. A chance de um time com Jones (vacinado) de titular ter problemas de disponibilidade ou de contágio em um momento chave da temporada que atrapalhe sua campanha são muito menores que com o não-vacinado Newton, e isso pode acabar se provando o fator crítico na decisão de Bill Belichick.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL