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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Chicago Bulls se reforçou em peso, mas dificilmente vai mudar de patamar

DeMar DeRozan, então jogador do San Antonio Spurs, tenta dar o toco em Patrick Williams, do Chicago Bulls, em jogo da NBA - Scott Wachter/USA TODAY Sports
DeMar DeRozan, então jogador do San Antonio Spurs, tenta dar o toco em Patrick Williams, do Chicago Bulls, em jogo da NBA Imagem: Scott Wachter/USA TODAY Sports
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Vitor Camargo

Vitor Camargo é economista formado pela Faculdade de Economia e Administração da USP. Desde 2011 escreve sobre esportes americanos, com passagens por Yahoo, Gazeta do Povo e o seu próprio site, o Two-Minute Warning. Foi comentarista de beisebol na Fox Sports e consultor técnico na tradução do livro Moneyball (2011). É autor do livro Era de Gigantes (2019), o primeiro sobre a história da NBA escrito no Brasil, e apresentador do podcast Na Era do Garrafão.

Colunista do UOL Esporte

17/08/2021 04h00

Se o Los Angeles Lakers foi o time que fez a grande contratação da offseason da NBA ao adicionar Russell Westbrook, o Chicago Bulls foi talvez o time mais ativo do mercado. Apesar de estar acima do teto salarial, a equipe foi bastante agressiva na free agency e conseguiu adicionar três reforços de peso: Lonzo Ball, DeMar DeRozan e Alex Caruso.

Mas essa agressividade não aparece como uma surpresa. Pelo contrário, é apenas a continuação de um movimento que os Bulls já tinham iniciado na temporada 2020-21, quando fizeram uma grande troca para adquirir o duas vezes All Star Nikola Vucevic, de Orlando, em uma tentativa de fazer uma arrancada rumo aos playoffs. E, embora os primeiros resultados tenham sido decepcionantes, com Chicago tendo um final desastroso de temporada e terminando fora do play-in, eu escrevi na época que essa troca não tinha sido feita apenas pensando em 2021, mas nos anos seguintes - e como parte de um movimento maior. Então fazia sentido que, terminada a temporada, Chicago fosse novamente ativo em adquirir talentos no mercado.

E o fato de que Chicago conseguiu adicionar esses três jogadores a valor de mercado mesmo sem espaço na folha salarial é um testamento à qualidade da sua nova diretoria em lidar com a questão financeira na NBA. Mesmo que você não goste ou concorde com os movimentos - vamos chegar lá - a forma de torná-los realidade foi impressionante. Os movimentos precisaram ser milimetricamente calculados para que pudessem acontecer nos valores combinados e manter Chicago abaixo do teto salarial.

Lonzo Ball e DeMar DeRozan chegaram a Chicago através das chamadas sign-and-trades, quando um jogador sem contrato renova com o time anterior e imediatamente é trocado. Alex Caruso, por sua vez, chegou pelo valor previsto na mid-level exception, uma exceção que permite a times sem espaço salarial ofereçam a um jogador um contrato no valor médio anual da NBA (US$ 9,5 milhões atualmente).

Colocando separadamente, as aquisições parecem fáceis, mas não. É necessário coordenar cada movimento para que seja enviado o total certo de salário ainda mantendo o suficiente para a próxima troca, executando na ordem certa as ações enquanto navega todas as armadilhas salariais da liga (significativas, mas que não vale entrar em detalhes aqui)... é muito difícil, e exige um profundo controle do que está fazendo.

No papel, Chicago montou um time impressionante: seu quinteto titular deve contar com três All Stars (LaVine, DeRozan e Vucevic) e mais dois jovens talentos escolhidos no Top 4 do Draft (Lonzo e Patrick Williams), com Caruso vindo do banco. Mas nós sabemos que jogos não são vencidos no papel, e sim dentro de quadra. Na prática, o que podemos esperar desse "novo" Chicago Bulls?

Um ponto importante a se destacar é que, assim como aconteceu com os Lakers (mas de forma menos extrema), esse investimento em jogadores de alto nível significa que Chicago tem uma avenida muito limitada para reforçar o resto do time. Esse Top 6 + Coby White é sólido, mas além disso a equipe fica limitada a jovens sem experiência em alto nível (Troy Brown, Ayo Dosunmu) ou veteranos em contratos mínimos (Javonte Green, Tony Bradley), colocando muita pressão nos seus jogadores de topo não apenas para produzir em alto nível, mas também para ficarem saudáveis - um risco e tanto considerando que quase todo seu time titular (tirando DeRozan) entra no ano com questões sérias de disponibilidade. Múltiplas lesões ou mesmo a ausência prolongada de alguma peça-chave pode ter um efeito desproporcional nas aspirações de Chicago.

Se ficarem saudáveis, no entanto, a expectativa é que o time funcione muito bem... pelo menos no ataque. Eu já escrevi na época da troca sobre como o encaixe entre LaVine e Vucevic deve funcionar bem, dois bons criadores que complementam um ao outro. E Lonzo Ball deve encaixar bem também nesse núcleo: suas dificuldades como criador primário ficaram bastante expostas em Los Angeles e New Orleans, e ficou claro que Lonzo não tem o dinamismo a partir do drible para funcionar como criador primário de um ataque. Mas, em Chicago, ele não vai precisar ser: com DeRozan, LaVine e Vucevic, Lonzo pode ser um criador secundário, recebendo a bola em movimento contra defesas em movimento para tomar decisões instantâneas que fazem melhor uso do seu QI de basquete e habilidade como passador (um uso semelhante ao que deu tão certo para seu irmão LaMelo em Charlotte). Além disso, seu arremesso de fora melhorou exponencialmente em NOLA - o que lhe permite fazer essa função fora da bola sem estrangular o ataque.

Mesmo DeRozan, um encaixe difícil com seu jogo de meia distância na NBA de hoje, parece entrar bem nesse quinteto. DeRozan é uma cesta ambulante, capaz de pontuar a qualquer momento, e, com tantos arremessadores e criadores ao seu redor, suas limitações devem ficar muito mais escondidas. DeRozan também vem do melhor ano da carreira na armação, e isso vai ser importante para um time sem um armador tradicional. Chicago pode não ter um grande criador, mas tem criadores acima da média em praticamente todas as posições, e isso oferece muita flexibilidade ofensiva para a equipe.

O que realmente me preocupa é o outro lado. Defesa já era meu grande medo quando Vucevic foi adquirido, pois não via como Chicago poderia ser uma defesa acima da média se montando ao redor de LaVine e Vooch. De fato, foi a defesa que afundou Chicago na reta final da temporada. E essa offseason dificilmente melhorou as coisas.

Com a chegada de DeRozan, agora os três principais jogadores de Chicago são todos enormes problemas defensivos, do tipo que você precisa esquematizar ao redor para compensar. Só que os Bulls não têm as peças para fazer isso. A equipe perdeu seu melhor defensor de 2021 em Thad Young, e, embora Caruso e Lonzo sejam bons defensores, dificilmente vai ser o suficiente. Lonzo é um bom defensor, mas está no seu melhor na ajuda defensiva e não defendendo no ponto de ataque, onde sua falta de mobilidade atrapalha - e é exatamente onde Chicago vai precisar dele, já que colocar LaVine ou DeRozan na função é pedir por um desastre. Caruso é o único bom defensor que o time tem para a função, mas colocar ele e Lonzo gera outros tipos de problemas com falta de tamanho nas alas.

A não ser que o sólido Patrick Williams dê um salto espetacular no seu segundo ano, Chicago não tem um único protetor de aro no elenco ou defensor capaz de marcar pontuadores maiores no perímetro, como os Jimmy Butlers, Jayson Tatums e Kevin Durants do Leste. E mesmo que Williams acabe ficando com a função, isso gera outro mundo de dificuldades ao tentar esconder LaVine ou DeRozan em jogadores maiores de garrafão. São problemas demais e soluções de menos nesse lado da quadra. Novamente é difícil ver o caminho para Chicago se tornar uma defesa decente - muito menos a defesa boa que precisa ser para sonhar com voos maiores.

E, acima de tudo, esse é meu problema com os Bulls: para um time que se prendeu tanto salarialmente como em termos de ativos ao redor desse núcleo, ele simplesmente não me parece ter um teto dos mais altos - especialmente em um Leste muito fortalecido. Bucks e Nets ainda são os times a ser batidos, com Sixers e Heat em um patamar abaixo, mas ainda bem acima dos Bulls. Isso coloca Chicago disputando na metade de baixo dos playoffs contra um Atlanta Hawks vindo das finais do Leste; os Knicks que foram #4 na conferência ano passado e adicionaram Kemba Walker; times de Celtics e Pacers que devem ser bem melhores em 2022 com mais saúde e técnicos novos, e alguns aspirantes que correm por fora como Washington, Charlotte e até Toronto.

Por todas suas adições, Chicago ainda parece um time que disputa para não jogar o play-in e ficar com uma das últimas vagas de playoff do Leste, apenas para perder na primeira rodada ou, com sorte, chegar nas semifinais. Dificilmente mais do que isso. Chicago sacrificou muito da sua flexibilidade futura para chegar nesse resultado mediano. Não é exatamente o resultado mais animador.

Mas, para os Bulls, talvez esse processo não seja sobre os resultados em quadra ou disputar títulos. Talvez seja sobre algo maior: uma das franquias mais importantes e valiosas da NBA tentando voltar a ser relevante no cenário do basquete. Desde a aposentadoria de Michael Jordan (com exceção de dois anos no começo da década passada), Chicago tem sido amplamente irrelevante na NBA. Para um time com tanta história e poder de mercado, isso talvez seja ainda pior do que ser apenas ruim.

E, no fundo, eu acho que esse é o objetivo maior da franquia nesse momento: se reestabelecer como um dos principais times da NBA, no qual estrelas e grandes talentos querem jogar, e que não tem medo de usar suas consideráveis vantagens competitivas e financeiras para colocar em quadra um time de playoffs. Talvez não se trate de buscar um título em dois ou três anos, e sim colocar a primeira pedra na construção de um título que virá daqui a dez, quinze anos ao final de um processo mais longo e sutil que o esperado. Se vai dar certo ou não, só poderemos dizer daqui a alguns bons anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL