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Campeão brasileiro vai levar cinzas do pai para ringue em luta na Oceania

Luis Augusto Simon

Em São Paulo

02/10/2013 06h00

Santo Arias acompanhou as 64 lutas que o filho George disputou na carreira. E, se depender do campeão brasileiro de boxe, nem mesmo a morte vai impedir que ele também esteja na próxima, no final do ano, na Nova Zelândia. George comprou uma urna e a está decorando com fotos do pai e treinador, que morreu no dia 16 de setembro. Depois, transferirá as cinzas que estão atualmente guardadas em uma caixa de papel. E enfrentará as 24 horas de viagem ao lado de quem sempre o treinou.

“Sei que vou sentir a falta dele gritando 'jab, jab, roda em volta do cara’, mas tenho de fazer essa homenagem ao meu pai. Ele apostava muito nessa luta e estará comigo”, diz George, de 39 anos, que no dia 26 de novembro vai enfrentar Joseph Parker.

Uma coincidência faz com que ele reforce a luta por ter o pai, morto, ao seu lado. “Assinamos o contrato da luta no dia 13 de setembro de manhã e à tarde ele precisou ser internado porque estava com muitas dores. Era uma sexta-feira. Na segunda, ele teve um infarto e morreu. Foi muito triste e por isso ele vai. Já estou cuidando da parte burocrática e está tudo certo”.
 
Com a morte de Santo, George fez mudanças em sua estrutura técnica, totalmente familiar. Carla, a mulher que o acompanha há 22 anos, assume o posto de técnico principal. E Raquel, a filha de 21 anos, passa a ser a auxiliar. A mulher grita a tática, a filha passa vaselina nos cortes sofridos e enxuga o rosto. E o pai, George tem certeza, será uma energia positiva.

Todos subirão ao ringue ao som de “We Will Rock You”, do Queen. A tática a ser utilizada já havia sido determinada antes. Parker, de 21 anos, tem dez centímetros a mais que Arias. “Meu pai explicou que tenho de usar o jab para ganhar moral e entrar no raio de ação dele. E tenho de rodar bastante. Vai ser demorado, mas vou vencer”.

O adversário tem apenas seis lutas como profissional, o que pode dar a impressão de que Arias foi contratado apenas para ser uma escada, apenas para rechear o cartel com uma vitória a mais. “Pode ser que ele pense assim, mas eu não penso. Se entrar no ringue pensando assim, ele vai se surpreender porque estou muito bem treinado”, diz Arias.

O trabalho é duro. Arias começou a carreira como peso cruzador, no máximo 90 quilos, e há algum tempo mudou de categoria. Agora é peso pesado e tem 104 quilos. Para a mudança dar certo, precisa ganhar força no quadril. Assim, passa a ter mais impulsão na hora de acertar o rival. Essa força é conseguida com o auxílio de uma marreta. Com ela, diariamente Arias massacra um inocente pneu já há alguns anos.

O treinamento de Arias é diferente da maior parte dos treinadores. Santo Arias sempre foi contra a utilização constante de sparings. “Ele dizia que em um treinamento com sparing é impossível levar menos de cinco murros na cabeça por dia. Seriam 25 por semana e 100 por mês, 1200 por ano e 24 mil em toda minha carreira. Não passei por isso, estou limpo e posso lutar por muito tempo ainda”.

Em vez de troca de murros, George treina com Carla, de apenas 1,61 m. Magrinha, ela é enérgica no comando do treino. Com uma manopla em cada mão, grita com o marido. “Jab, jab e cruzado, cruzado de direita, de esquerda, quero um gancho, agora cinco em seguida, jab, cruzado, gancho”.

As ordens são obedecidas e é difícil acreditar que nunca um murro tenha tido endereço errado e machucado seu rosto. “Já estou acostumada, sempre vi o pai dele fazer e aprendi muito."

Pai na urna, mulher no corner, ao lado da filha. Pode dar a impressão de amadorismo, mas o clã Arias é considerado por todos como uma ilha de profissionalismo dentro do boxe brasileiro. George tem uma grande equipe a ajudá-lo. São nutricionistas, dentistas, médicos, um total de 15 pessoas que estão ao seu lado, sem nada cobrar. “Eu chamo de colaboradores, é um pessoal que meu pai conhecia e trouxe para nosso lado. Outro dia mesmo o dentista me ligou para marcar uma consulta. Não posso ter cárie porque atrapalha minha resistência. Foi ele que me lembrou”.

Mesmo assim, com amigos e uma academia em casa, George tem dificuldades para ganhar dinheiro com boxe. Bolsa de lutador é coisa que só existe em filme. “Quando acertamos uma luta, cada um vai atrás de seus patrocínios e rachamos as despesas. Se sobrar alguma coisa, a gente guarda. O ingresso é grátis porque senão fica vazio”.

Uma luta internacional garante um bom dinheiro por seis meses, pelo menos. A luta de novembro será a 65ª da carreira. Foram 53 vitórias (39 por nocaute) e onze derrotas (duas por nocaute). Arias tem certeza que não será a última. “Enquanto estiver bem, eu vou lutando”.

A despedida será especial. “Quando tiver certeza que vou parar, que será a última luta, vou tocar o Hino Nacional no saxofone. Tenho aula diariamente, mas estou começando. Por enquanto só sei tocar 'Your latest trick', do Dire Straits, e 'Luar do Sertão', para homenagear minha mulher, que gosta de sertanejo”.

E depois? “Vou alugar um helicóptero e soltar as cinzas do meu pai no mar ou em uma estrada. Ele sempre quis sair viajando de moto por aí e não deu tempo. Vou soltar o velho e ficar em casa”.

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