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Rienzo supera série de desafios e faz história na elite do beisebol dos EUA

Murilo Garavello

Do UOL, em Nova York (EUA)

13/09/2013 06h00

Quarta-feira, 4 de setembro, Yankee Stadium, em Nova York, poucos minutos passados das 15h. O técnico Joe Girardi, do New York Yankees, abre a porta do vestiário do time local. Seu semblante transparece irritação ao constatar que há um intruso, arremessador do rival daquela noite, concedendo entrevista. Ele imediatamente se retira, e o brasileiro André Rienzo, 25, sorri. Continua esbanjando simpatia em longas respostas. A conversa dura 51 minutos e só termina quando é hora de treinar. "É a entrevista mais longa que eu já vi um jogador de beisebol dar em dia de jogo", diz Daryl Martins, gerente de produção de TV da Major League Baseball. Rienzo está saboreando a nova condição, primeiro arremessador do Brasil na liga de elite do beisebol americano.

Para estrear pelo Chicago White Sox, em 30 de julho passado, e realizar seu sonho, o paulista de Atibaia percorreu um caminho longo. Começou jogar beisebol aos quatro anos em um ambiente completamente dominado pela colônia japonesa, em geral avessa à presença de um "gaijin". Vendeu rifas para ajudar o irmão a disputar campeonatos. Aos 16 anos, mudou-se para Hato Mayor del Rey, na República Dominicana, e viveu em um quarto com 30 jogadores de diversos países latino-americanos que compartilhavam o sonho de virar jogador profissional nos EUA. Uma contusão séria no braço ajudou a ampliar o desconforto da distância da família, das diferenças culturais e da estrutura precária da cidade "no meio do nada". Após um ano em Boca Chica, cidade litorânea na Dominicana, perambulou nas temporadas seguintes por quatro estados dos EUA (Virginia, Carolina do Norte, Alabama e Flórida), atuando em seis times das chamadas Minor Leagues - divisões inferiores do beisebol americano, onde milhares de jogadores competem freneticamente -, "cada um querendo matar o outro", pelos altos salários e prestígio da MLB.

Ainda com "salário velho" - só ao fim da temporada deve haver a adequação da renda à atual condição de arremessador titular dos White Sox -, Rienzo já vive a realidade de "mordomias" e assédio - de imprensa e de mulheres - típicos de um jogador profissional. Abaixo, ele conta com suas próprias palavras sua trajetória.

No Brasil

"Sou um caipira de Atibaia. Minha mãe e meu pai são separados. Ela queria ensinar disciplina para os três filhos, mas ela não tinha como ter uma mão forte para os três. Então ela pensou no beisebol e na convivência com a colônia japonesa, que é muito regrada. Colocou primeiro meus dois irmãos e depois começou a praticar também pra incentivar os filhos. Eu tinha 4 anos, era obrigado a ir no começo, mas tinha muitas crianças do meu tamanho e comecei a gostar. Então desde os quatro anos vou pro campo.

"Quando eu tinha 12 anos, meu irmão queria ir para uma competição no Equador. Aí ele teve de vender uma rifa que a Confederação criou para custear a viagem. Acho que eram uns 10 mil números ou algo assim. Nós vendemos e ele foi. Como eu era o irmão mais novo, não tinha ninguém para me ajudar a vender quando chegou minha vez (risos). Então eu só fui quando eu era juvenil ou júnior -em um campeonato no México, em 2005. Foi minha primeira vez".

"Depois do campeonato no México, tive uma proposta do Seattle, queria que eu fosse pra lá de qualquer jeito faltando seis meses pra eu terminar o terceiro colegial, mas meu pai falou que não, que eu ia terminar a escola. E eu terminei. Em 2006, um olheiro do White Sox me indicou. Eu e o Murilo Gouveia, que está com o Houston (em uma Minor League). Aí nos chamaram para ir para a República Dominicana."

República Dominicana

"Assinei um contrato, passei a ser atleta profissional do White Sox. Só posso jogar pra eles. Não podia estudar no tempo livre, fiquei comprometido a me dedicar 24 horas por dia ao esporte. Ganhava um salário, mas... Fui morar na República Dominicana, em Hato Mayor. Isso foi feio, feio, era uma cidade no meio do nada. Ficava em um alojamento com 30 jogadores por quarto. Jogadores de todos os países, menos os americanos, que são contratados aqui e já começam jogando aqui. Essa Liga está abaixo da Liga Rookie, é como se fosse uma sétima divisão. Eles querem te observar, ver se você merece ir para os EUA. É muito latino, venezuelano, colombiano, porto-riquenho... Então toda essa galera tenta conseguir vir para cá, para os EUA."

"Foi o pior ano da minha carreira, da minha vida. Olhando agora, de muita aprendizagem. Não joguei muito, machuquei meu braço. Acho que isso fez com que o ano passasse mais lento. Não jogava, via os jogos de fora. Antes de eu sair de casa, quando tinha 15 anoas, fui morar em Ibiúna, que é o CT do Brasil. Mas era pertinho, pegava um ônibus e estava em casa. Ali eu estava na República Dominicana, não dava pra pegar um avião e voltar, até porque não tinha condições financeiras. Tinha para 17 anos, muito longe da família. Tinha o Murilo, que a gente conversava muito, já era um amigo antes de ir pra lá, mas foi o pior ano da minha carreira. A gente estava no meio do nada, com pessoas novas, de um monte de culturas diferentes, às vezes a pessoa não respeita a cultura do outro e você preso no mesmo quarto, complica tudo".

"No ano seguinte, fomos para Bocachica, que fica do lado de Santo Domingo (capital da República Dominicana), praia, a coisa já era totalmente diferente. Os jogos lá eram às 11h da manhã, às vezes 13h. Aí, a gente almoçava e ia pra praia. Então já tinha o que fazer, o tempo passava mais rápido. Era bem melhor".

"Essa cidade tem muita prostituta, falando formalmente (risos). É uma cidade de muito turista. Tinha muita prostituta, muita doença sexualmente transmissível. Fiquei um pouco fora disso e deixei pra aproveitar no Brasil. Aqui a gente faz outra coisa. Mas tinha praia, só de ter praia... Água azulzinha, perfeito. E a gente ia em grupo, era mais legal. Até jogamos futebol lá, jogamos meia hora, arrebentaram minha canela..."

"Esse segundo ano já foi bem melhor pra mim. Na metade do ano já me disseram que viria para os EUA. Sempre as respostas saem no final do ano, a temporada acaba em agosto e te mandam carta em setembro. Mas nesse ano os chefes vieram e falaram pra mim antes".

Ligas menores e competitividade

"Em 2009, fui para os EUA, para Bristol, na Virginia. Lá fica a equipe do White Socks na Liga Rookie. É uma cidade pequena, menor que Atibaia. Muito verde, interior mesmo. Chovia muito, morávamos em quatro e não tínhamos carro. Tomei muita chuva. São coisas que hoje a gente agradece, foram boas experiências".

"Nunca tive um ano muito ruim nas Minor Leagues, sempre fui estável, seguindo uma linha. Esse primeiro ano foi um ano mais de conhecer a liga. Quando você quer mostrar muito, acaba não mostrando nada. Americano é muito baseado número, e eles sempre falam: "não importa como você começa, importa como você termina. Se você terminar como pior acabou, está apagado. Se terminar por cima, é a imagem que fica".

"Depois de um ano, mudei pra Alabama. Depois fui para Charlotte, na Carolina do Norte, e depois para o Arizona. É uma abaixo da Major, então é um pessoal mais velho, alguns que já jogaram a Major e estão tentando voltar. A gente tem a "rookie", classe A baixa, A média, A forte, a 2ª, a 3ª, e depois a Major. Ou seja, temos 6 ligas menores andes da MLB. Tem de passar por essas seis ligas, não importa quem você seja. Se, na média, estiver mandando mal, continua lá. Aqui, na MLB, não tem tanto isso, já é um pouco mais tranquilo, porque é o topo do topo, então o pessoal já te trata melhor. Mas na parte de baixo, falando português claro, é cada um querendo matar o outro. Eles não falam, mas você sente que quando a pessoa joga mal, você vê uns sorrisos do cara que está competindo por espaço, porque todo mundo tem o sonho de estar aqui, então até dentro do time tem bastante competição".


Convocação, estreia e rotina na MLB

"Já estava rolando uma expectativa do Peavy ser trocado pelo Boston. Se ele fosse trocado, estavam dizendo que era minha chance de subir pra Major. Mas você nunca acredita, só acredita quando acontece. Aí um dia antes dele ser trocado, depois do jogo o técnico me chamou e falou: 'Você está indo para Cleveland. Parabéns, mas quero que você só me faça um favor'. E eu: 'claro, até dois' (risos). 'Só não volta'. Porque isso é uma coisa que acontece muito no beisebol. Não é porque você é ruim, às vezes eles baixam o jogador porque está chegando um cara mais experiente, com dez anos de Liga. Eu não completei dois meses de Liga, então, se tem um que tem cinco, claro que ele vai estar bons passos na minha frente. Então não é só potencial que conta. Sobe um dia, baixa outro. Fica muito nisso".

"O básico, dentro do campo, é o mesmo nas Minor Leagues e na Major. Chega às duas da tarde, treina, faz musculação, corre, vai pro jogo. A gente vai e joga, volta pro hotel. Isso é igual aqui. Mas aqui tenho um quarto do hotel sozinho, a mordomia é muito maior. Sempre tive só um uniforme, entregue pelo meu agente. Na verdade ele sempre me mandava dois por ano e eu ficava feliz. Agora, na MLB, o pessoal tem 10 por jogo. É muito diferente".

"O assédio é maior, você sai do hotel e o pessoal pede pra você assinar... Todo dia você sai do hotel e tem que assinar. Eles pedem, te conhecem. Eu nem tanto assim, né? Eu sou novato ainda, mas tem outros que nem conseguem andar, têm que sair pela porta de trás até. Mas eu acho que é gratificante porque tem retorno do seu trabalho. Não quero impressionar fãs, quero impressionar o White Sox".

"Não recebi ainda propriamente um treinamento de mídia, mas recebi  dicas que eles dão pra você se sair melhor. Coisa que eles sempre falam: eu estou jogando e meu parceiro erra uma bola. 'Nunca coloque na mídia que ele errou. Nunca julgue ou nada disso'. São dicas para você não ser mal falado pela mídia. Se você for mal falado, que seja pelo jogo que você fez, não pelo que você falou".

Assédio feminino

"Eu ainda não senti muito esse assédio feminino, mas vai muita mulher no estádio. Você precisa se preservar para não ser mal falado. Por exemplo, vou jogar amanhã e o técnico te vê subindo com uma menina pro quarto. Você pode nem ter feito nada, mas o seu técnico te viu subindo com ela. Então se jogo mal amanhã, já fala 'Pra salinha. Senta aqui. Ontem você estava com uma menina'. Ele nem sabe se você bebeu, mas já fala: 'você bebeu'. Complicado".

"Os jogadores se preservam muito e tem jogadores aqui que saem na rua são reconhecidos. A maioria é casado também, tem as esposas que acompanham muito. Se um casado sai e pega na mão de outra mulher já sai foto, você sai na matéria e aí é divórcio... E aqui é muito pior do que no Brasil, se tem o divórcio, 50% do que você tem vai embora. Igual o Tiger Woods, deixou tudo que tinha ali".

"Mas claro que sempre tem assédio. Ontem mesmo aqueci pra entrar no jogo, mas não entrando. Olhei e tinha 15 anos de idade. Porque você olha, né? Também não vou deixar de olhar. Fiquei olhando e tal. Aí perguntei pra um cara: "quantos anos você acha que tem aquela menina?" E ele: "15 anos". Já pensou? Tem muita mulher que faz coisa pra tirar proveito. Já teve casos no beisebol de umas, não vou citar nomes e não é ninguém de perto... Ele conheceu, saiu com a  mulher, um cara do time e outra mulher.  Ela dormiu com ele, ficou no quarto. No dia seguinte, levantou, ela saiu direto pra delegacia dizendo que tinha feito a força com ela. Ele tinha esposa, saiu na mídia, acabou com o relacionamento dele, não pode ver os filhos, teve que pagar uma multa enorme. Então eles falam pra tomar cuidado".

Pelé, Ronaldo, Brasil

"Ainda não tenho apoio de nenhuma marca no Brasil, não. Ninguém me procurou, nada disso. Meus amigos falam muito, mas ainda não fui pro Brasil desde que entrei na MLB, então não sei muito o que esperar. Falei pra eles: sou jogador de beisebol, não de futebol. Se fosse jogador de futebol, já teria um monte de marca atrás de mim. Até agora, não tem nada. Meu agente brincou comigo e falou 'O Pelé te mandou uma mensagem'. Eu falei 'até parece que o Pelé ia me mandar uma mensagem. Eu não recebi nada'...  Aí ele disse: 'Se mandar pra você já pensa pra arrumar um espaço pra divulgação no Brasil'. E tudo isso numa roda de brincadeira. Aí ele disse: 'Procura o Ronaldo'. A gente sempre brinca. Ele disse que agora eu estava no topo, o primeiro arremessador e eu sempre volto pro Brasil. Ele fala pra ajudar, dar palestrinha. Eu não sou bom nisso, mas se for ajudar, topo tudo. É um foco que eu tenho, ajudar mais, por que no Brasil o beisebol é muito ruim. Não, não é muito ruim, é muio pouco divulgado. Quero que isso mude".

O jornalista Murilo Garavello viajou aos EUA a convite da ESPN

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