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  16/03/2006 - 08h45
Nos playoffs universitários dos EUA, Batista briga por NBA e seleção

Giancarlo Giampietro
Em São Paulo

Reuters
J.P. Batista briga no garrafão por Gonzaga, mas também por vaga na NBA e na seleção
O pivô João Paulo "J.P." Batista, 21, entra em quadra nesta quinta-feira com muita responsabilidade nas costas. Sua badalada equipe, Gonzaga, começa a disputar os mata-matas do basquete universitário norte-americano contra Xavier, em Salt Lake City, vindo de 18 vitórias consecutivas.

Para o pernambucano, único brasileiro no Torneio da NCAA deste ano, o peso de cada partida de agora em diante aumenta por isso, e também por motivos pessoais. É seu momento de provação para a NBA e para o técnico Lula Ferreira, da seleção nacional.

Em seu últimos momentos no basquete universitário, Batista tenta se encaixar no "draft" da liga profissional e vai atrás de sua primeira convocação - de olho no Mundial do Japão, em agosto

"Conversei com ele nesta segunda-feira e ele disse que tem muita esperança de defender a seleção", disse Lula ao UOL Esporte. "Tenho alguns DVDs com jogos dele e estamos acompanhando seu desempenho. Existe a possibilidade. É um jogador que é difícil de encontrar no Brasil, pois sabe jogar de costas para a cesta", completou o treinador.

Para a NBA, no entanto, o jogador precisa superar algumas limitações físicas consideradas fatais aos olhos dos chefões da liga profissional: é considerado baixo (2,05m) para um pivô e lento (pesa 122kg) para um ala-pivô. Ele seria o meio-termo entre ambas as posições.

Para piorar, vem de lesão muscular na perna direita e torção no tornozelo. "Não estou 100%, mas fiz bastante fisioterapia durante a semana principalmente para ajudar minha movimentação lateral", disse o brasileiro em entrevista coletiva. O UOL Esporte tentou entrar em contato com o jogador, mas a assessoria da universidade negou a entrevista "devido à proximidade do torneio".

O caminho adotado por Batista para tentar driblar este conceito foi se dedicar ainda mais à musculação - o que lhe rendeu apelido de "The Rock", sugerido justamente por um adversário. Mas o pivô não vive apenas de trombadas no garrafão. Em Gonzaga, conseguiu desenvolver bons movimentos ofensivos de costas para a tabela e um arremesso de meia distância. Também tem boa leitura de jogo.

"LOUCURAS DE MARÇO"

Após o término da temporada de futebol americano, os olhos da mídia e dos fanáticos se volta para os mata-matas do basquete universitário.

É a chamada "March Madness", que abarrota ginásios em dezenas de cidades de um país em que a cultura do esporte universitário é bastante enraizada.

Para o torneio da NCAA, 64 equipes são selecionadas e distribuídas em quatro chaves, de acordo com seu desempenho durante os torneios regionais do ano.

As duas primeiras rodadas de cada grupo são disputadas em lugares diversos. A partir das oitavas-de-final, no entanto, cada chave se concentra em uma cidade - neste ano, Atlanta, Oakland, Minneapolis e a capital Washington são as escolhidas.

O vencedor de cada grupo chega ao "Final Four", em Indianápolis. Independentemente da distância a ser percorrida, cada universidade levará milhares de fãs para o local. O que, claro, movimenta a economia e reforça ainda mais o vínculo de alunos e ex-alunos com sua universidade.
Com estes recursos, foi campeão da WCC pelo segundo ano consecutivo, fechando a temporada com médias de 19,3 pontos e 9,5 rebotes, com aproveitamento de 59,3% nos arremessos.

Números semelhantes aos de Rafael Araújo, o Baby, em seu último ano na Brigham Young College (18,4 pontos, 10,1 rebotes e 55,8%). O pivô do Toronto Raptors, porém, 6cm mais alto, saiu da universidade muito mais bem cotado, escolhido na oitava posição do draft de 2004.

Batista deixou a família em Olinda em 2002 para, literalmente, buscar o "sonho americano". "Primeiro, minha meta era chegar aos Estados Unidos. Depois, virar um bom jogador de basquete. Agora, preciso continuar melhorando para jogar um dia na NBA", disse.

Trajetória
Aos 10 anos de idade, Batista praticava atletismo em Olinda. Mas o irmão mais velho o direcionou para outro caminho. "Ele fez uma aposta comigo. Eu tinha uma competição na minha escola. Se não conseguisse nenhuma medalha, teria de desistir e começar a jogar basquete. Não ganhei nenhuma e parece que as coisas até que se ajeitaram", afirmou.

O garoto, então, passou a assistir a muitos jogos na TV - da NBA, principalmente - e passou a imitar os movimentos. Depois dos jogos em parques, começou a disputar campeonatos locais, se destacou e descolou uma brecha no basquete universitário dos Estados Unidos - que vem recebendo muitos brasileiros.

Com a grana apertada, durante três anos seu contato com a família limitou-se a e-mails e ligações aos domingos. Apenas ao fim da temporada passada ele conseguiu rever os pais e amigos.

Assim como Baby, Batista disputou duas temporadas em "Junior Colleges" - primeiro Western Nebraska, depois Barton County Community College - até entrar na mira de equipes em nível superior. Foi convidado por potências como Kansas e Illinois, mas acabou optando pela pequena Gonzaga, baseada em Spokane, cidade fortemente religiosa do estado de Washington, ao norte dos Estados Unidos.

"É muito, muito difícil ir para a escola em um país estrangeiro. O "Junior College" me preparou bem, mas lá nós não tínhamos de escrever trabalhos de cinco páginas para a aula de filosofia. Eu tive de fazer tudo certo e me esforçar bastante para isso, mas a cada dia aprendi bastante", disse Batista, que se formou em administração esportiva.

O pernambucano é freqüentador assíduo da igreja católica de St. Aloysius em Spokane e reza na capela sempre quando Gonzaga joga em casa. "A moral que ele possui, seus valores, o tipo de caráter - ele é fantástico. É provavelmente o melhor tipo de pessoa que você pode encontrar", disse seu técnico Mark Few.

PROMESSAS

Faltam três meses para o draft da NBA, e boa parte dos olheiros e cartolas da liga profissional começam a se focar exclusivamente no recrutamento de novatos.

Agora, em março, eles dividirão espaço com universitários nos ginásios lotados para observar de perto os destaques de times tradicionais como Duke, UNC, Arizona, Kansas ou mesmo tentar descobrir algum segredo em times menos observados como Winthrop, Rutgers, entre outros.

Para este ano, pivôs como Joakim Noah (filho do ex-tenista francês Yannick Noah), de Florida, Shelden Williams, de Duke, e LaMarcus Aldridge, de Texas; e os alas Rudy Gay, de Connecticut, Adam Morrison (foto), de Gonzaga, Rodney Carney, de Memphis, e Ronnie Brewer, de Arkansas, são os jogadores que deverão concorrer com o brasileiro Tiago Splitter para as dez primeiras posições do draft.
Queridinhos
Esta é apenas a nona participação de Gonzaga no Torneio da NCAA em sua história. Mas neste ano, ancorada pelo cestinha Adam Morrison, a universidade vai para os mata-matas como uma das favoritas dos torcedores.

Comparado até mesmo a ídolos como Larry Bird e Chris Mullin, o carismático Morrison teve média de 28,4 pontos por partida na temporada, estando cotado para ganhar o prêmio de melhor jogador do ano.

Além da habilidade como cestinha, o ala é famoso também por sua determinação e atitude em quadra, cabelo comprido, meias coloridas e, principalmente, pelo ralo bigode que ostenta.

"É um pouco engraçado que as pessoas prestem tanta atenção nisso", afirmou o jogador de 21 anos, admirador de Che Guevara, da banda Rage Against the Machine e Karl Marx. Outro detalhe sobre o ala: é diabético e, às vezes, precisa se auto-aplicar uma injeção de insulina no abdome durante as partidas.

Este pacote chamou os holofotes para Gonzaga durante todo o ano. O que evidenciou para a concorrência suas virtudes e pontos fracos.

"Talvez isso possa ser uma vantagem para nossos adversários. Mas não importa. Precisamos fazer o nosso", afirmou Batista, que confessou não conhecer muito sobre Xavier, rival da primeira rodada.

Nos últimos três anos, Gonzaga foi eliminada na segunda rodada do torneio. Agora, o time tenta ir além.

"Nosso foco está em passar dessa fase. No ano passado, foi muito frustrante", disse Batista. "Precisamos ser a equipe mais agressiva na quadra e nos manter confiantes", completou o técnico Few.

Quanto mais longe Gonzaga avançar no torneio, mais chances o pernambucano terá de assegurar uma escolha na segunda rodada do "draft" (entre as posições 31 e 60, que não rendem contrato garantido).

Depois do torneio, Batista terá ainda uma segunda chance para impressionar os olheiros da NBA: no campo de treinamento em Portsmouth que reúne formandos menos comentados, divididos em seis equipes, para uma série de jogos.

"Meu sonho é entrar para a NBA, é o que mais quero", afirmou o brasileiro. "Mas se não der certo, não será o fim do mundo. Se não acontecer, a vida continua. É como quando você anda de bicicleta: você não pode parar. Se parar, você cai".

"Vou jogar basquete até não poder andar mais. Se for pela NBA, agradecerei a Deus. Mas se não for, agradecerei do mesmo jeito", afirmou Batista.


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