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"Vou lutar com todas as forças", diz Gerson, ex-seleção, sobre ELA

Gerson foi campeão dos Jogos Pan-Americanos de 1987 com a seleção brasileira de basquete - Reprodução/Facebook
Gerson foi campeão dos Jogos Pan-Americanos de 1987 com a seleção brasileira de basquete Imagem: Reprodução/Facebook

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

05/01/2020 04h00

"Comecei a perceber que estava sem forças. Passei a cair muito na quadra, enquanto jogava basquete com meus amigos. Em cinco meses, perdi 17 quilos". A perda de força e o abrupto emagrecimento foram os primeiros sintomas que o campeão pan-americano de basquete Gerson Victalino sentiu antes de ser diagnosticado com ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica).

A notícia da doença foi anunciada por um dos quatro médicos que Gerson visita desde o começo de 2019. E confirmada pelos outros três. "Fiz os exames e ouvi que tinha uma doença degenerativa que não tem cura, nem tratamento. Não foi muito agradável, é claro O segundo médico me apresentou a algumas formas paliativas de amenizar os efeitos da ELA. Eu disse a ele: 'Se essa doença não tem cura, vou ser o primeiro a ser curado'", conta o ex-jogador, de 60 anos, ao UOL Esporte.

A fala de Gerson é otimista, apesar de curta e um pouco confusa. Ele evita prolongar as respostas e diz que, constantemente, se sente fraco durante as atividades do dia a dia. Agora, ele e a família fazem uma campanha de arrecadação de fundos para que possam procurar novas formas de tratamento. "Onde tem especialista, eu vou. Me consulto com médicos que nunca vi na vida, já passei por quatro até agora", conta. "Não vou me abalar".

O dia a dia da família pouco mudou: Gerson mora com a mulher e dois filhos em uma casa grande em Belo Horizonte, Minas Gerais. O ex-atleta detalha o cotidiano: ele acorda, se alonga e vai à fisioterapia —não perde uma sessão sequer— depois, vai para o clube trabalhar. "Na minha casa, a única coisa que mudou foi a preocupação. Nós sabemos que a ELA é uma coisa séria. Minha rotina ficou limitada porque perdi muita força nos braços e ando com dificuldade. Então, não consigo fazer muita coisa."

Por dia, Gerson faz uso de quatro medicamentos: fórmulas para fortalecer os músculos, um remédio neurológico, vitaminas e suplementos. "Já engordei quatro quilos dos 17 que perdi neste ano. Faço 1h30 de fisioterapia todos os dias —a cada sessão, faço exercícios para as pernas e para os braços. Pela manhã, ao acordar, me alongo bastante. Não posso parar. Se parar, eu morro", diz.

E Gerson não para: se esforça para, mesmo lentamente, fazer o que, depois do basquete, é sua atividade preferida: cozinhar. "Sempre gostei de cozinhar, mas tem sido difícil. Quando tento fazer comida, sinto muito cansaço, mas insisto. Não sinto dor, o que já ajuda, mas sinto uma fraqueza constante", diz. "Minha mulher me ajuda muito. Ela é um espelho. A gente sabe que não vai ser fácil, mas ela não abaixa a cabeça. Nem eu."

O grude ao clube

Reprodução/Facebook
Imagem: Reprodução/Facebook

Há dois anos, o ex-atleta trabalha no Clube Ginástico, perto de casa —primeiro clube pelo qual jogou basquete, ainda aos 19 anos. Das partidas, que, mesmo aos 60 anos, Gerson não abria mão, ele precisou se ausentar. É a parte que mais faz falta. "Mesmo depois de eu ter saído do profissional, continuei na quadra. Não saía de lá nunquinha, jogava o tempo todo", conta.

"Trabalho como auxiliar técnico no Ginástico. Desde que comecei a sentir os primeiros sintomas da ELA, não consegui mais jogar. Continuo lá, não deixei de trabalhar, sabe? Só que sem a intensidade que tinha. Tem sido mais complicado, mas continuo indo. Agora, abandonar o basquete dói muito. Faz quase um ano que não jogo, precisei abolir coisas importantes da minha vida. Isso me machuca. Só que sei que vai ser provisório."

Ele repete, a cada sequência de temas tratados, quase como num mantra: "Vou me curar". "É difícil saber que tenho uma doença que não tem cura. Ainda assim, sei que o psicológico afeta a recuperação. Comecei a manter a calma, a rezar muito e a pensar positivo. Por enquanto, acho que tenho conseguido assimilar a situação. E comecei a me sentir melhor", afirma. "Quero lutar com todas as minhas forças. Estou procurando lutar. É difícil explicar, é algo que muda dentro de mim. Não tenho nem um pouco pouco de receio em relação a essa doença."

Gerson se anima ao falar de um momento alegre: o constante contato com amigos. "Alguns vêm em casa, outros, encontro quando vou ao clube. Isso é muito importante para mim, é importante demais não perder esse convívio diário. A gente conversa sobre a vida e, claro, sobre as memórias do esporte. Eu sempre falo de esporte, não tem jeito. Minha vida é falar do esporte".

Um passado presente

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Imagem: Reprodução/Facebook

"Não tem nada de especial sobre meu passado", ri Gerson, com modéstia. Ele foi campeão pan-americano de basquete em Indianápolis-1987 —numa vitória inesperada e histórica sobre a seleção dos EUA. O primeiro contato do jogador com o esporte foi aos 19 anos, por acaso. A convite de um amigo de Belo Horizonte, ele conta, que insistia para que tentasse o basquete.

"Comecei velho. Fui para o Ginástico com ele depois de muita insistência. Treinei por uma semana e não gostei. Não sabia jogar nada. Disse que desistiria. Mas esse amigo continuou insistindo, dizendo que eu tinha potencial. E me fez uma proposta: treinar por um mês. Aceitei. No começo, achava chato demais. Dois anos depois, estava na seleção brasileira", disse.

"Nessa época, passei a viver o basquete no meu dia a dia. Ia para o clube pela manhã e só voltava à noite. Lá foi meu clube formador e, até hoje, é minha casa. Tudo o que aprendi foi lá e, até neste momento difícil pelo qual estou passando, é o Ginástico que me apoia totalmente. É muito prazeroso lembrar que tive uma vida nesse clube; que joguei lá por sete anos e o carinho enorme que tenho por todos. Lá, tenho amigos de mais de 40 anos."

Depois dos sete primeiros anos no basquete mineiro, Gerson jogou por São Paulo, Corinthians, Sírio e Espanha. "Morei na Europa por dois anos. A vida lá era muito fácil, muito parecida com a brasileira, coisa de povo latino. Fui com 28 anos e, aos 30, voltei para SP".

"Minha mãe é uma mulher muito grande"

"Foi por causa da minha mãe que as coisas deram certo. Ela é uma mulher muito grande. Sempre foi exigente com essa coisa de escola, mandava que eu estudasse bastante. Sou o mais velho de cinco irmãos, sabe? Eu ia bem, ia bem na escola. Sempre gostei muito de matemática. E ela me apoiou desde o começo quando decidi migrar para o basquete".

Ao olhar para o passado, Gerson relembra a fatídica conquista do Pan. "A gente sentia incerteza porque os Estados Unidos nunca haviam perdido uma partida em casa. O caminho natural era a derrota e a gente sabia que era praticamente impossível vencer. Foi uma surpresa", conta.

"Nos últimos quatro minutos de jogo, percebi que estávamos fazendo história dentro do esporte. E, hoje, olho para trás e me sinto muito bem ao saber que pude contribuir com o basquete brasileiro. As pessoas me têm como exemplo de atleta, de luta. Sou um exemplo para a garotada do clube, para os iniciantes. Elas, o tempo todo, me procuram pedindo dicas técnicas, do jogo", diz. "É isso que me motiva."

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