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Destaque argentino já usou volante de trator como aro e hoje brilha no Real

Gabriel Deck anotou 13 pontos e pegou 8 rebotes na histórica vitória sobre a Sérvia - Divulgação/Fiba
Gabriel Deck anotou 13 pontos e pegou 8 rebotes na histórica vitória sobre a Sérvia Imagem: Divulgação/Fiba

Giancarlo Giampietro e José Edgar de Matos

Do UOL, em São Paulo (SP)

12/09/2019 20h49

A presença na Argentina na semifinal da Copa do Mundo de basquete reacendeu um olhar mais detalhado sobre a geração substituta dos campeões olímpicos de 2004. Com exceção ao veteraníssimo Luis Scola, ainda destaque em 2019, agora é hora dos torcedores se acostumarem com novos protagonistas. Um destes destaques, o ala Gabriel Deck, alcançou o sucesso após anos de desconfiança e um início de trajetória com dificuldades de quem se criou em uma região pobre do país sul-americano.

Aos 24 anos, quem vê o atleta de 2,02m brilhar no Mundial e também com a camisa do Real Madrid, também uma superpotência na modalidade, não imagina como o basquete foi introduzido na vida de Gabriel Deck, que entra em quadra amanhã (13), às 9h (de Brasília), contra a França, pela semifinal da Copa do Mundo. Os primeiros arremessos ocorreram em um aro improvisado, feito com um volante de trator.

"O primeiro aro, nós fizemos com amigos, com a ajuda de um ferreiro, mas se quebrou. Meu pai fabricou outro com a ajuda de um vizinho. Ele fez o aro com um volante velho de trator que tínhamos nos fundos de casa", recorda Gabriel Deck, em entrevista ao site argentino Infobae.

Divulgação/Fiba
Imagem: Divulgação/Fiba

O basquete era apenas uma diversão na infância. Embora desde cedo alimentasse o sonho de ir longe no esporte, Deck encarava outra realidade em Colonia Dora, um pequeno povoado com 2,5 mil habitantes e localizado no norte da Argentina. De origem humilde, trabalhava no campo com familiares.

A brincadeira no quintal com o aro de volante se tornou algo sério a partir da recomendação de uma professora de educação física, que sugeriu ao garoto tentar a sorte no Quimsa, clube de Santiago Del Estero, cidade a quase 200 quilômetros do povoado de Gabriel Deck.

Cansado do trabalho, ele arriscou e não fez outra coisa a partir de então, apenas jogou basquete.

Do Quimsa, chamou a atenção, ganhou o título argentino em 2015 e reforçou o San Lorenzo em 2016, indo para Buenos Aires. No clube popularmente conhecido pelo futebol, virou referência rapidamente e se tornou protagonista com dois prêmios de MVP nas finais nacionais de 2017 e 2018. Também levou o título e outro troféu de jogador mais valioso na Liga das Américas no ano passado.

O bicampeonato nacional, o título continental e o reconhecimento de craque da decisão das duas competições levaram o garoto que acertava arremessos em um volante de trator ao gigante Real Madrid.

NBA não confiou em Deck

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Imagem: Divulgação/Fiba

Em meio ao sucesso na Argentina e a ida ao Real Madrid, Gabriel Deck almejou o sonho de todo jogador de basquete: tentar uma vaga na NBA. Como a maioria, levou um "não", que tomou como aprendizado para evoluir fisicamente e se tornar o atleta destacado de hoje.

Ainda adolescente, Deck participou em 2013 Hoop Summit, jogo promovido pela Nike para reunir revelações promissoras do mundo todo, e recebeu péssimas avaliações. O basquete do hoje ala de seleção era considerado antiquado.

Deck foi avaliado como um garoto lento, de físico questionável para o nível exigido para a liga americana. Muitos duvidavam que conseguisse até mesmo sair de seu país para jogar na Europa.

A partir desta rejeição, Deck mudou. Emagreceu, ganhou músculos e se tornou um atleta de grande intensidade dos dois lados da quadra. Tanto que o impacto na chegada ao Real Madrid foi instantâneo. De maneira surpreendente para alguns scouts, o argentino se incorporou rapidamente à rotação do gigante espanhol e se tornou um dos favoritos da torcida no elenco multicampeão merengue.

Na Copa do Mundo, o jovem de origem humilde e hoje atleta do Real se consolidou ao lado de Facundo Campazzo como os dois grandes sucessores da geração dourada de Manu Ginóbili e Luis Scola.

São 12.3 pontos e 13.2 de eficiência por partida para Deck, que aparece em terceiro no ranking da própria seleção neste Mundial. O adolescente que jogava basquete no interior da Argentina é o grande coadjuvante do time na China. Mas não há quem possa dizer que sua curva de ascensão vá parar por aí.