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Dor lombar transformou atleta colega de Thiago Braz em modelo internacional

Jou Bellini, modelo internacional, já competiu no salto com vara com Thiago Braz - Divulgação
Jou Bellini, modelo internacional, já competiu no salto com vara com Thiago Braz Imagem: Divulgação

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

26/12/2018 04h00

Uma lesão nas costas tirou Jonathan Bellini das pistas de atletismo, mas o transformou em modelo internacional. O paulista de 24 anos, em ascensão na carreira, já estampou a capa da conceituada revista "Vogue", apareceu na Times Square, em Nova York, e trabalhou com celebridades, como a cantora Nicki Minaj e o ator Robert Pattinson.

Mas, antes de se arriscar na frente das câmeras, trilhou o mesmo caminho de um campeão olímpico.

Jonathan, conhecido no mundo da moda como Jou, foi colega de Thiago Braz na seleção paulista de atletismo. Os dois nasceram em 1993 - Jou em setembro, Thiago em dezembro. "Sempre tive muito respeito pelo Thiago, ele já estava num nível diferente, passado por etapas que eu não tinha passado. Eu achava que tinha potencial, mas não para competir contra ele", disse o modelo.

O salto com vara apareceu na vida deles mais ou menos na mesma época e, durante algum tempo, eles compartilharam o mesmo sonho e os mesmos desafios. Até que tudo mudou.

A lesão de Jou o afastou da vara e do sarrafo. Enquanto ele se reinventava nas passarelas, agenciado pela Way Model, seu amigo subia cada vez mais alto até atingir o topo da carreira: o ouro olímpico no Rio em 2016. No ano seguinte, Thiago viveu uma queda, mas Jou apontou para cima.

Contamos na linha do tempo como os dois rapazes viveram os altos e baixos dos últimos anos e o que eles aprenderam na jornada.

Linha do tempo: Thiago Braz e Jou Bellini

Linha do tempo: Thiago Braz e Jou Bellini - Arte/UOL - Arte/UOL
Imagem: Arte/UOL

1993 a 2006

Abandonado pelos pais na infância, Thiago é criado pelos avós em Marília (SP). Em Itapira (SP), Jou também cresce na casa dos avós depois que seus pais se separam em seu primeiro ano de vida.

2007

Aos 13 anos, Thiago começa a praticar salto com vara inspirado por um tio. Ele se transfere para Bragança Paulista (SP) e se destaca na modalidade.

2008 

Aos 14, Jou perde o pai. Desenvolve o sonho de se tornar atleta para honrar sua memória.

2009 

Thiago ganha medalha de bronze no Sul-Americano juvenil. Campeão brasileiro, passa a ser treinado por Elson Miranda, marido de Fabiana Murer, então recordista sul-americana no salto.

Em Itapira, Jou arrisca seus primeiros passos no atletismo, incentivado por professores de educação física. Seu desempenho chama atenção e ele ouve que pode conseguir bolsas no salto com vara. Em uma seletiva, um professor lhe diz que seu salto o colocaria entre os dez melhores atletas de sua idade no país. Ainda em luto pelo pai, vê no esporte uma válvula de escape e um meio para ajudar a família.

2010

Thiago Braz corre para saltar no Mundial da Juventude em Singapura (2010) - Wander Roberto/COB/Divulgação - Wander Roberto/COB/Divulgação
Thiago Braz corre para saltar no Mundial da Juventude em Singapura (2010)
Imagem: Wander Roberto/COB/Divulgação

Jou assina seu primeiro contrato como atleta, sai de casa e vai morar em uma república. "Foi um choque", ele afirma. Em setembro, arremata o bronze no Campeonato Brasileiro de Menores, em Uberlândia, saltando 3,90 m. O ouro fica com o favorito, Thiago, que salta 4,40 m. Os dois se encontram no pódio.

Thiago e Jou - Divulgação - Divulgação
Thiago Braz vence campeonato em Uberlândia (MG); Jou Bellini fica em terceiro
Imagem: Divulgação

2011

Thiago é vice-campeão do Troféu Brasil e se consolida como uma das grandes promessas do esporte olímpico do país.

Jou sente dores na lombar, agravadas pela carga extra de treino, com a qual ele não estava acostumado. A região é uma das mais impactadas no salto com vara, principalmente no momento em que os atletas precisam se contorcer para evitar tocar no sarrafo. A lesão o impede de estar nas principais competições do ano.

2012 

Jou saltando - Gerson Pomari/Divulgação - Gerson Pomari/Divulgação
Imagem: Gerson Pomari/Divulgação

Aos 18, Thiago é campeão mundial júnior em Barcelona e conquista o recorde brasileiro juvenil.

Jou se muda para São Bernardo do Campo (SP) para tentar retomar a carreira. Intensifica os treinos e vê evolução no corpo. A pressão para classificar ao mundial de Barcelona começou a ficar forte demais. "Meu corpo estava preparado, mas minha cabeça não", diz. A carga de treinos aumenta, mas seus saltos não. Talvez o ano parado tenha causado algum trauma que ele não conseguiu superar.

No final do ano, enquanto o nome de Thiago aparece nas principais projeções para a Olimpíada do Rio, dali a quatro anos, Jou recebe um convite para fazer fotos e comerciais na China.

Ele aceita.

2013 

Thiago ganha o ouro no meeting de Leverkusen, na Alemanha, superando um campeão mundial.

Jou vê na moda um meio de realizar o sonho de viajar pelo mundo e conhecer outras culturas. Por orientação de um agente, se muda para Singapura. Divide uma república com modelos italianos, americanos, ucranianos e russos. Aprende a falar inglês e a importância de fazer a própria comida. Constrói seu catálogo para apresentar ao mercado europeu e americano. Pela internet, acompanha de longe os resultados de seus amigos do atletismo no Brasil.

2014

Aos 20, Thiago se muda para a Itália para treinar com o lendário Vitaly Petrov, técnico da russa Yelena Isinbayeva. Gasta seu primeiro prêmio no novo país com aeromodelos, satisfazendo sua paixão por voar.

Jou vai morar em Londres e se reveza em campanhas na Europa, no Brasil e na Malásia. No final do ano, em Los Angeles, faz um trabalho para a marca Forever21, o maior da sua carreira até então.

2015 

Jou Times - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Thiago decepciona no Pan de Toronto, erra seus três saltos com o sarrafo em 5,40 m e é eliminado precocemente.

Não muito longe dali, Jou fica fascinado com seu rosto estampando uma fachada na Times Square, em Nova York. "Fui lá mais de 30 vezes, em grupo ou sozinho. Era uma coisa totalmente fora da realidade", relembra.

2016

Thiago ouro - REUTERS/Sergio Moraes  - REUTERS/Sergio Moraes
Imagem: REUTERS/Sergio Moraes

Aos 22, Thiago chega ao olimpo dos atletas ao saltar 6,03m e conquistar o ouro no Rio, superando o rival Renaud Lavillenie.

Morando em Nova York, Jou passa férias em Miami quando assiste pela TV ao amigo se tornar campeão olímpico. "Eu pulei muito no hotel", relembra. Os dois trocam mensagens e Jou rende uma homenagem no Facebook a Thiago. Depois, enquanto um goza o prestígio dos campeões olímpicos, o outro se reveza entre Los Angeles, Miami, Nova York e Milão, entre sessões de fotos e passarelas.

2017

Thiago tem o ano mais conturbado de sua carreira. Erra todos os saltos em mais de uma etapa da Liga Diamante e acaba cortado do mundial de Londres por causa de lesões nas costas e na panturrilha. Evita contato com a imprensa e termina a Liga Diamante longe do pódio.

Jou, por outro lado, fecha com a L'Oréal e descobre que tem talento para ser modelo também de cabelo: "É preciso muita personalidade e desprendimento", afirma. Grava vídeos em inglês para se conectar diretamente com o público internacional. Faz trabalhos nos EUA e na Alemanha. Suas fotos aparecem na capa da Vogue francesa e na japonesa. "Foi um impacto enorme, geralmente essas revistas não trazem modelos masculinos na capa."   

2018

Jou parede - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Imagem: Arquivo pessoal

Aos 24, Thiago volta ao Brasil para ficar perto de sua avó, que tem problemas de saúde. Acredita que o assédio pós-ouro olímpico o prejudicou. Também retoma os treinos com Elson Miranda, que o acompanhou até 2014 antes da mudança à Itália. Insatisfeito com os resultados ruins de seus dois últimos anos, espera voltar ao alto nível perto da família.

Jou faz fotos e vídeos ao lado de Robert Pattinson, o astro da saga "Crepúsculo", e da rapper Nicki Minaj.  Apesar da rotina intensa, consegue passar meses de férias com a família em Itapira. Em retrospecto, acredita que aquelas dores na lombar até que vieram para o bem: "No começo foi meio triste, mas acho que aconteceu como devia acontecer", ele afirma.

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