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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Alto de grau de paixão e viés ideológico na eleição escanteia terceira via

Montagem de fotos do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva  - Alan Santos/PR e Ricardo Stuckert
Montagem de fotos do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva Imagem: Alan Santos/PR e Ricardo Stuckert

Alberto Bombig

Colunista do UOL

13/06/2022 12h58Atualizada em 13/06/2022 16h46

Esta é a versão online da edição de segunda-feira (13) da newsletter UOL nas Eleições 2022, que fala dos desafios da pré-campanhas presidenciais com boa parte do eleitorado polarizado, além de outros bastidores das eleições. Para assinar o boletim e recebê-lo diretamente no seu email, cadastre-se aqui. Para receber outros boletins exclusivos, assine o UOL.

Uma longa noite que vai até 2 de outubro próximo parece assombrar Jair Bolsonaro. Ataques a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e pedidos de socorro a empresários e aos Estados Unidos foram os mais recentes sinais dos pesadelos que atormentam o sono do presidente e de seus apoiadores.

Em desvantagem, conforme mostra o Agregador de Pesquisas do UOL, Bolsonaro dá reiteradamente sinais de desespero, ameaça levar as contas públicas, o equilíbrio entre os Poderes e o sistema eleitoral brasileiro para um "burnout institucional" (e emocional, obviamente) no final deste ano.

O fantasma, o Freddy Krueger, que personifica o pesadelo bolsonarista é Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O pré-candidato do PT, porém, não assusta apenas o presidente e seus seguidores. O petista também mete medo em parte do empresariado e da classe média, especialmente quando entoa antigos cânticos da esquerda e promete gastar tempo, energia e dinheiro para desfazer reformas, em vez de apontar para o futuro.

Enquanto isso, a terceira via (ou quarta via) não consegue sair da inação, abandonar seu universo paralelo de rasteiras e conchavos, para apresentar uma ideia original ou instigante que contribua com o debate público. Até agora, o único posicionamento contundente que saiu da boca de Simone Tebet após ela ter sido escolhida pré-candidata pelo MDB e o PSDB foi ter se declarado contra a privatização da Petrobras.

Assim, é grande a possibilidade de a campanha eleitoral deste ano se transformar em um "diálogo de surdos", que exigirá muito sangue frio de quem ainda busca alguma racionalidade, ideias e propostas por parte dos candidatos. Porque, a menos de quatro meses do primeiro turno das eleições, os brasileiros permanecem enredados na chamada polarização entre Lula e Jair Bolsonaro.

É o que mostra um cenário, traçado com exclusividade para o UOL, pela mais recente pesquisa Genial/Quaest. Ele dá a dimensão do alto grau de "paixão política" e de "viés ideológico", digamos assim, envolvidos nas escolhas dos eleitores do petista e do atual presidente.

O levantamento, consequentemente, prevê muitas dificuldades para os nomes que tentam se tornar viáveis como uma terceira via e coloca um desafio para as campanhas eleitorais, previstas pela lei para começar em agosto, o de "virar votos" de quem já está engajado em um dos lados.

A Quaest perguntou a 2.000 entrevistados, entre os dias 2 e 5 deste mês, qual dos pré-candidatos a presidente é o melhor para: 1) defender os pobres; 2) combater a inflação; 3) negociar com o Congresso; 4) melhorar a saúde; 5) gerar boa imagem do país no exterior; 6) defender as mulheres; 7) combater a violência; 8) combater a corrupção.

Os resultados sugerem eleitores convictos em suas opções, dos dois lados da polarização, e uma grande identificação de Lula com questões relativas à desigualdade social e aos problemas econômicos. Levando-se em conta as projeções de um ano difícil nessa seara, a campanha eleitoral de Jair Bolsonaro terá de operar milagres para tirar votos do petista e convencer os brasileiros de que o atual presidente fará um mandato diferente, menos voltado para as questões ideológicas e para a guerra cultura, por exemplo, e mais atento às dificuldades monetárias da população.

Do lado petista, a batalha dever ser para melhorar a imagem de Lula para além das questões sociais, em temas como o combate à violência e à corrupção, por exemplo.

Ao cruzar dados sobre quem os brasileiros consideram mais apto para resolver os principais problemas do país com os números das intenções de voto, percebe-se que os eleitores respondem de acordo com seu viés político, independentemente do real comportamento do candidato.

Ou seja, quem vota em Lula sempre o avalia como melhor para tudo, inclusive para combater a corrupção, tema no qual o PT enfrenta dificuldades na abordagem eleitoral após ter sido abalroado pelo mensalão e pela Lava Jato. Os bolsonaristas agem da mesma forma e acham que o atual presidente é capaz de resolver todos os problemas melhor do que os outros pré-candidatos, ainda que em três anos e meio ele não tenha solucionado nenhum dos desafios apresentados aos entrevistados.

Em relação aos temas como a defesa dos pobres ou o combate à inflação, os números de Lula entre seus eleitores são mais robustos: 94% e 89%, respectivamente, contra 63% e 66% dos apoiadores de Bolsonaro. Já no que se refere ao combate à corrupção ou à violência, os seguidores do atual presidente se mostram mais confiantes em seu candidato: 86% e 83% acreditam que ele é mais apto a resolver tais questões. Entre os entrevistados que preferem o ex-presidente, 62% afirmam que ele é mais preparado para enfrentar a corrupção e 69%, para lidar com a violência.

No geral, o melhor desempenho de um outro pré-candidato que não seja o petista nem o presidente surge quando a questão colocada é: quem é melhor para defender as mulheres? Simone Tebet (MDB) foi lembrada por 13% dos entrevistados, Lula por 39% e Bolsonaro por 18%.

Com exceção da questão relativa às mulheres, o pré-candidato do PDT ao Planalto, Ciro Gomes, aparece como terceiro colocado em todos os demais quesitos, sendo que seu melhor desempenho numérico é 7% na pergunta sobre quem é melhor para a saúde dos brasileiros. O pedetista atinge 6% nas questões sobre inflação, combate à violência e combate à corrupção.

O coordenador da pesquisa Genial/Quaest, o cientista político Felipe Nunes vê um comportamento de "projeção" do que o eleitor acha que seu candidato, correlacionado com o seu voto. Segundo ele, "há um viés de confirmação operando" decisão no eleitor. "Esse viés não pode ser incorporado na análise dos dados, precisamos descontá-lo e olhar para as opiniões de quem não vota nem em um nem em outro. Ou seja, se quisermos ter uma noção melhor das capacidades de cada candidato, o melhor é olhar para quem responde sem paixão", diz ele.

E é justamente nessa análise do sentimento dos eleitores que não querem Lula nem Bolsonaro que alguns números também se destacam. Nesse grupo, que inclui de apoiadores de outros candidatos mais os que vão votar em branco ou anular, a maior vantagem do ex-presidente se dá na questão sobre quem é melhor para defender os pobres.

Para 44%, Lula é o mais preparado, contra 4% de Bolsonaro. O petista também leva a melhor no combate à inflação (23% x 4%) e na capacidade de negociar com o Congresso (22% x 6%).

No combate à violência, Bolsonaro se sobressai, com 25% dos brasileiros afirmando que ele é o mais apto para enfrentar o problema. Só 10% acham que Lula faria o melhor trabalho nessa área.

Embora a maior parte do eleitorado "nem-nem" diga que nenhum candidato esteja apto para combater a corrupção (34%), Bolsonaro leva grande vantagem sobre Lula nesse grupo (20% x 2%).
Em linhas gerais, é possível dizer que parte substancial das razões para a escola do voto ocorre por identificação (a tal paixão) ou por rejeição ao adversário. Portanto, de certa forma, esse eleitorado Lula/Bolsonaro está preso na polarização.

Se não houvesse essa rivalidade, provavelmente, um pedaço do eleitorado estaria menos apaixonado e aberto a novas opções. Mas ela existe e só tende a aumentar daqui até outubro. Até lá, o Radar das Eleições do UOL, continuará trazendo as movimentações dos candidatos e bastidores exclusivos das campanhas.

SÓ EU?
Está causando constrangimento entre amigos e aliados de Geraldo Alckmin (PSB) a forma como ele vem sendo "utilizado" pela pré-campanha do PT: mesmo sem ter autonomia ou carta branca para falar em nome do pré-candidato, ele sempre é escalado, ao menos via imprensa, para abrir diálogo com setores hostis ao PT (não sem razão). Enquanto isso, ninguém bota freio em Lula nem no MTST...

RECICLAGEM ELEITORAL
Ciro Gomes (PDT) não para de falar do PND (Plano Nacional de Desenvolvimento) que elaborou para esta campanha. Seria, segundo ele, um diferencial, o mapa da mina, a receita para o Brasil sair da crise. Curiosidade: PND (1 e 2) também foi feito na ditadura militar (1964-1985). Comandando pelo então ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso. Em 2006, o então pré-candidato a presidente Geraldo Alckmin também teve o seu PDN. A sigla, pelo jeito, é "imorrível" como Jair Bolsonaro.

MEDO NA FLORESTA
As circunstâncias trágicas que envolvem o desaparecimento do indigenista Bruno Pereira e do jornalista inglês Dom Phillips consternam o mundo e fazem as principais pré-campanhas voltarem as atenções para os conflitos amazônicos, até agora praticamente esquecidos na agenda de debates ou restritos a propostas generalizantes. Lula pediu um diagnóstico detalhado da situação e já foi aconselhado a criar uma espécie de Ministério da Amazônia se for eleito.

NO JOGO
É consenso entre advogados e juristas que Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) não cometeu as barbeiragens de Sérgio Moro (União Brasil) na transferência de seu domicílio eleitoral para São Paulo e que, portanto, conseguirá manter sua pré-candidatura ao Palácio dos Bandeirantes.