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Dá para comparar Zelensky a Putin como fez Lula? Colunistas opinam

Do UOL, em São Paulo

05/05/2022 11h44

Em entrevista à revista americana Time, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse considerar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, tão culpado quanto o presidente russo, Vladimir Putin, pela guerra que a Rússia promove na Ucrânia.

"Esse cara [Zelensky] é tão responsável quanto o Putin. Ele é tão responsável quanto o Putin. Porque numa guerra não tem apenas um culpado", disse Lula. Em 24 de fevereiro, Putin anunciou uma "operação militar especial", como ele chama a invasão russa ao território ucraniano. Desde então, há ataques diários contra alvos na Ucrânia, causando a morte de civis e fazendo com que mais de 5,5 milhões de pessoas já tenham deixado suas casas.

Confira a opinião dos colunistas do UOL sobre a fala de Lula:

Enquanto acredita estar mantendo distância segura dos envolvidos em meio a um tema tão espinhoso, a fala de Lula é muito problemática, já que ela sugere uma falsa simetria sobre o conflito no leste europeu, algo que não é possível assimilar de forma acrítica.
Fernanda Magnotta


Lula analisou com sensatez o papel de Zelensky e Biden no atual conflito. Os Estados Unidos estão ajudando a Ucrânia com uma resistência artificial aos russos. Nesse toada de escalada, há uma crise humanitária, destruição de infraestrutura e mortes que poderiam ter sido evitadas. O petista, indagado por uma revista internacional, que certamente não estava interessada na opinião dele sobre as mentiras de Jair Bolsonaro a respeito da urna eletrônica, deu a receita de como um estadista deveria ter agido na contenda russo-ucraniana.
Kennedy Alencar

Não dá para equiparar Zelensky e Putin em relação aos crimes cometidos. Esse é o problema mais grave dessa declaração. Não acredito que falar dessa guerra sem falar da expansão da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] seja suficiente. A gente precisa entender o que aconteceu com a Otan nos últimos 20, 30 anos. Mas neste momento tentar equiparar os dois é, sim, algo, no mínimo, equivocado.
Jamil Chade


Qual é o único erro do ex-presidente? Ter-se estendido sobre um tema que se transformou numa bolha gigantesca de desinformação e mistificação mundo afora. Criticou Zelensky, que é tratado como artista pop. E resolveu ir contra o consenso da imprensa ocidental, cuja militância anti-Putin --ainda que por bons motivos-- ignora consequências e riscos.
Reinaldo Azevedo


Ao falar sobre a guerra na Ucrânia, Lula navegou sobre um mar de obviedades para naufragar numa temeridade. Agarrado ao óbvio, o entrevistado flutuou ao mencionar a precariedade do populista Zelensky. Continuou flutuando ao criticar a imprudência dos Estados Unidos e da União Europeia por cutucar Putin com a Otan para ver se ele mordia. Lula afundou no instante em que declarou que o presidente ucraniano "quis a guerra". Foi categórico: "Esse cara é tão responsável quanto o Putin." Nesse ponto, a condenação retórica de Lula à invasão da Ucrânia ficou muito parecida com a de Bolsonaro. Se dissesse que é "solidário" com a Rússia, ficaria idêntico. A caminho do fundo, Lula ainda teve tempo de desqualificar a ONU. A pretexto de defender a criação de um novo modelo de "governança mundial", o candidato petista afirmou que a ONU de hoje não representa mais nada". Outra obviedade. Que, no seu caso, acabou soando também como uma declaração premonitória.
Josias de Souza


Em se tratando do eventual massacre na Ucrânia, o responsável será o presidente russo, Vladimir Putin. Mas, se for para apontar quem tem responsabilidade na guerra, aí também têm culpa o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, o dos EUA, Joe Biden, e boa parte dos dirigentes da União Europeia.
Tales Faria

    Vladimir Putin é responsável pela guerra e pelo assassinato de milhares, mas os governos russo e ucraniano, a Otan, a União Europeia e os Estados Unidos são responsáveis pela escalada que levou ao conflito. Lula, que já rechaçou a invasão de Putin, diz isso na entrevista à revista Time - que, aliás, trata de muitos outros assuntos. Contudo, estamos em um período eleitoral, em que qualquer frase será usada como munição por detratores ou por quem defende a tese de que há uma simetria entre os dois principais candidatos. Dado que a força de Lula é a espontaneidade, é difícil imaginar que irá seguir um roteiro a cada entrevista ou declaração que dê.
    Leonardo Sakamoto

    Não parece justo equiparar Vladimir Putin a Volodymyr Zelensky, já que um é o líder da potência invasora e outro, o presidente do país invadido. Mas também não é correto transformar o ucraniano em herói inocente que se sacrifica para lutar contra o vilão russo --versão difundida pela imprensa mundial. As ameaças à Rússia, reconhecidas até mesmo pelo Papa Francisco, que citou os "latidos da Otan" às portas daquele país, parecem ter sido excluídas da equação de analistas. Assim como o incentivo de Zelensky para que a população civil vá ao combate e a participação de nazistas em suas tropas têm sido ignorados. A carnificina de Putin não pode ser minimizada, mas também a responsabilidade do ucraniano não deve ser relevada, pelo que fez antes, ao ameaçar a Rússia, e depois, ao expor cidadãos a um confronto desigual.
    Chico Alves