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Conversa de Portão #5: O impacto da pandemia nas crianças

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

13/10/2020 16h50

Fiquei com medo quando descobri que as pessoas estavam morrendo". "Fiquei tão triste no começo da quarentena, porque eu tava ansioso para ver meus amiguinhos". "Eu tava triste e eu tava nervosa, porque eu não podia brincar com meus amigos. Não podia abraçar eles, não podia andar de bicicleta. Tava com medo, porque eu tava pensando: e se isso ficar para sempre"?

Os depoimentos de Joaquim, 7, Renato e Maria, ambos de 9, abrem o sexto episódio do Conversa de Portão, que traz uma dolorosa reflexão: com menos ou mais atravessamentos, dependendo de infinitas diversidades de desigualdade, as crianças estão sofrendo um impacto bastante significativo e longo durante a pandemia do coronavírus.

Todos eles estão sem aulas desde março e tiveram mudanças enormes em suas rotinas. Muitos sofrem as consequências da diminuição da renda de suas famílias e do rompimento da rede de cuidadores. Para entender os impactos de vivenciar a pandemia, a ruptura com a escola, a necessidade do distanciamento social e as dificuldades financeiras que as crianças estão vivendo, a apresentadora Mayara Penina entrevista a psicóloga Ana Paula Pereira, especialista em saúde coletiva e parte da coordenação pedagógica do curso de residência em saúde coletiva com foco na primeira infância da Universidade Federal da Bahia.

Uma pesquisa realizada pela sociedade Brasileira de Pediatria esse ano em todo o Brasil mostrou que 88% dos pediatras relataram alterações de comportamento nas crianças durante a quarentena as queixas mais atenção, ansiedade, irritabilidade, agitação, insônia, agressividade, aumento ou diminuição do apetite, entre outros.

"Isso tem sido muito recorrente das famílias", diz Mayara (a partir de 3:57 do arquivo acima). Além das alterações de comportamento das crianças, as famílias também são impactadas. Ela continua: "as famílias trazem, por exemplo, uma sobrecarga nesse cuidado. Antes elas compartilhavam esse cuidado, seja com o contexto escolar, seja com outras pessoas. Agora, ela se vê com essa rede de apoio mais restrita, e isso acaba gerando uma sobrecarga sobretudo nas mulheres, né, que a grande maioria das cuidadoras acabam sendo as mães, avós. Acaba tendo uma sobrecarga muito grande".

Parte de seu trabalho, explica Mayara, é também pensar no cuidado dessas cuidadoras. Especialmente porque os relatos de alterações de comportamento das crianças incluem os pequenos estarem bem mais dependentes. "As crianças estão demandando muito delas, sobretudo as pequenas. É uma coisa recorrente que elas têm dito. Tem tido uma dependência maior, algumas, por exemplo, que tinham avançado em alguma questão relacionada ao desenvolvimento, às vezes começam a apresentar regressão", conta Mayara (a partir de 4:56 do arquivo acima).

Tudo isso precisa ser trabalhado junto à realidade única de cada família. "A gente está enfrentando a pandemia com várias questões, vários atravessamentos. E o próprio período, aqui no Brasil, a gente já está há 6 meses nesse processo de distanciamento. Então isso impacta muito".

Conversa de Portão é um podcast produzido pelo Nós Mulheres da Periferia em parceria com o UOL Plural, um projeto colaborativo do UOL com coletivos independentes. Todas as terças, o programa traz a opinião, análise ou história de mulheres sobre notícias que importante para as mulheres da periferia.