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Absorvente sem algodão leva estudantes gaúchas a final de prêmio na Suécia

Da esquerda para a direita: a professora Flávia Twardowski e as estudantes Camily Pereira dos Santos e Laura Nedel Drebes - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos
Da esquerda para a direita: a professora Flávia Twardowski e as estudantes Camily Pereira dos Santos e Laura Nedel Drebes Imagem: Arquivo pessoal/ Camily dos Santos

Luciano Nagel

Colaboração para Ecoa, de Porto Alegre (RS)

07/07/2022 06h00

As estudantes gaúchas Camily Pereira dos Santos, 18 anos, e Laura Nedel Drebes, 19, alunas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS), em Osório (RS), criaram um modelo de absorvente feito com materiais descartados pelos agricultores da região, a partir das fibras do pseudocaule da bananeira e do açaí juçara, pequena fruta colhida de uma palmeira típica da Mata Atlântica.

As jovens cientistas vão representar o Brasil na final do Prêmio Jovem da Água de Estocolmo, na Suécia, que tem início em 26 de agosto deste ano e se estende até o dia 1º de setembro. O evento reúne estudantes entre 15 e 20 anos de 40 países e é organizado em conjunto pela Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES) e o programa Jovens Profissionais do Saneamento.

O protótipo, que levou cinco meses para ser produzido, segundo as alunas, tem absorção acima da média em comparação com outros produtos ecológicos, como a casca do arroz, o sabugo de milho e o próprio algodão. Além disso, o material é envolvido com um biofilme produzido com resíduos da indústria nutracêutica que são colocados dentro de suportes feitos com sobras de tecidos.

A proposta de um absorvente ecológico e mais econômico já havia sido reconhecida na 20ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), promovida pela Universidade de São Paulo (USP). Naquela ocasião, as alunas conquistaram o segundo lugar na área de Ciências Exatas e da Terra.

Pobreza menstrual

Absorvente - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos
Protótipo tem absorção acima da média em comparação com outros produtos ecológicos
Imagem: Arquivo pessoal/ Camily dos Santos

''A ideia surgiu depois que eu tive uma conversa com minha mãe sobre a questão dos absorventes ecológicos, que são populares, porém caros, e, na maioria das vezes, não são acessíveis a mulheres em situação de vulnerabilidade social devido ao seu alto custo. Durante a conversa, descobri que quando minha mãe era mais jovem ela não tinha acesso aos absorventes convencionais. Foi nesse momento que me deparei com a questão da pobreza menstrual e não imaginei que isso estava tão próximo de mim'', diz Camily.

Laura, sua colega de pesquisa, explica a Ecoa que o desafio da dupla, incentivada e orientada pela professora Flávia Twardowski, era descobrir materiais que pudessem substituir o algodão, no propósito de absorção. ''O algodão, que é comercialmente utilizado nos absorventes femininos, necessita de uma grande quantidade de água para o seu desenvolvimento (produção), além de utilizar agrotóxicos. Então queríamos um produto que fosse ao mesmo tempo ecológico e acessível às mulheres em situação de vulnerabilidade social, por isso experimentamos com as fibras do pseudocaule da bananeira e da fruta açaí juçara."

Absorvente - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos
O material é envolvido com um biofilme produzido com resíduos da indústria nutracêutica que são colocados dentro de suportes feitos com sobras de tecidos
Imagem: Arquivo pessoal/ Camily dos Santos

Os testes de absorção do novo modelo de absorvente ecológico, ao custo de R$ 0,02, foram feitos em laboratório através do gotejamento de uma solução aquosa sobre o produto, que apresentou bom resultado em comparação com os tradicionais absorventes já utilizados no mercado.

Camily afirma que foi preciso enfrentar alguns desafios para desenvolver o projeto e chegar até a final de um grande concurso internacional.

''Nós não tínhamos uma prensa para extrair as fibras do pseudocaule da bananeira e do açaí juçara. Tivemos de fazer tudo de improviso. Usamos um carro para passar por cima do pseudocaule e ser prensado, para posteriormente, serem extraídas as fibras. Fomos resilientes e tínhamos muita vontade de fazer o experimento'', conta, orgulhosa, a jovem que espera junto com a colega e a professora buscar, dentro de alguns meses, uma nova premiação.

Absorvente - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos - Arquivo pessoal/ Camily dos Santos
Absorvente feito com fibras do pseudocaule da bananeira
Imagem: Arquivo pessoal/ Camily dos Santos

Próximos passos

''Nossa busca agora é por apoio de alguém que abrace a nossa ideia para finalmente ser concretizada", diz Camily.

Cerca de 80% das mulheres brasileiras já precisaram substituir o tradicional absorvente íntimo por outros itens, como o papel higiênico, segundo dados do Instituto de Pesquisa Locomotiva em conjunto com a marca Always divulgados em uma pesquisa em março deste ano.

Já a Organização das Nações Unidas (ONU), desde 2014, reconhece que o direito das mulheres à higiene menstrual é uma questão de saúde pública e de direitos humanos.