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'Me fortalece': Ação de Carol Barcellos muda a vida de 120 mulheres na Maré

Há 5 anos, a jornalista criou o projeto de corrida "Destemidas" para ajudar a transformar a realidade de mulheres na comunidade carioca  - Gabriel Klein/Divulgação
Há 5 anos, a jornalista criou o projeto de corrida 'Destemidas' para ajudar a transformar a realidade de mulheres na comunidade carioca Imagem: Gabriel Klein/Divulgação

Elcio Padovez

Colaboração para Ecoa

30/06/2022 06h00

A maranhense Roseane Canela da Silva, 31, nunca tinha visto o mar ou frequentado a praia, mesmo vivendo no Rio de Janeiro desde os 16. Natural de São Luiz Gonzaga, deixou a terra natal após engravidar da primeira de suas quatro filhas e se desentender com a mãe.

Moradora da comunidade Nova Holanda, uma das 16 favelas que formam o Complexo da Maré, ela descobriu na corrida e no projeto Destemidas, que completa cinco anos de atividades, um caminho para ocupar a cidade e encontrar oportunidades que nunca havia imaginado.

"Muitos diziam que uma pessoa acima do peso considerado padrão não conseguiria correr e eu vi que isso é possível por meio do Destemidas", conta Roseane, que, antes do início do projeto fundado pela jornalista e escritora Carol Barcellos, em 2017, frequentava a ONG Luta pela Paz, onde passou a fazer aulas de reforço, de boxe e conseguiu arrumar um emprego em um restaurante.

Em 2020, incentivada pela cunhada, começou a correr os primeiros quilômetros e mudar um pouco a sua realidade. "Me sinto acolhida no grupo e posso conversar e dividir meus problemas, como o fato de estar em busca de recolocação profissional". Com os treinos, ela finalmente pode conhecer o mar e, após a segunda visita, tomou coragem e entrou na água, incentivada pelas outras participantes.

Destemidas - Divulgação - Divulgação
Roseane Canela da Silva com uma de suas 4 filhas durante um treino externo do Destemidas
Imagem: Divulgação

Carol Barcellos teve uma experiência reveladora em 2017. Ao cobrir a Maratona de Boston, entrevistou Kathrine Switzer, a primeira mulher a correr a prova, em 1967. A maratonista alemã comemorava 50 anos do feito e a jornalista brasileira a agradeceu por isso.

"Em vez de uma resposta, ouvi dela o conselho de que eu deveria dar de volta tudo o que o esporte já tinha me dado. Isso me fez nascer a vontade de criar um projeto social. Por meio de um contato na Globo, conheci o pessoal do Luta pela Paz, que também tinha o mesmo desejo", conta.

120 pessoas impactadas

Em cinco anos de trabalho, 120 vidas em situação de vulnerabilidade tiveram impacto direto por meio do Destemidas e o objetivo da fundadora é expandir o projeto para mais mulheres, mesmo com a luta para manter a estrutura que foi criada, com psicóloga, nutricionista e uma pessoa que fique responsável pelos filhos das mulheres quando elas vão correr. "Queremos atendê-las da melhor forma e uma das metas é melhorar a questão da empregabilidade e poder receber mais corredoras", revela.

Destemidas - Divulgação - Divulgação
Treino das Destemidas no Aterro do Flamengo (RJ)
Imagem: Divulgação

Os treinos de corrida acontecem duas vezes por semana na própria Maré e uma vez ao mês em outro ponto do Rio —há também aulas de ioga e funcional. O acompanhamento de profissionais é feito de 15 em 15 dias e há rodas de conversa para conscientização de problemas do cotidiano das alunas.

A assistente social Viviane Carmen Santos, que coordena o Destemidas desde 2020, diz que é fundamental contar com um projeto que oferece o esporte combinado com atividades de emancipação feminina, de maneira totalmente gratuita, e voltado para jovens mulheres de favelas e periferias. "Elas não teriam acesso ao direito de praticar atividades físicas de uma outra forma."

Isso tem um valor ímpar para as mulheres da Maré atendidas pela Luta pela Paz. Elas ocupam grande parte do seu tempo realizando atividades que não são voltadas para os esportes, principalmente entre 14 e 29 anos, que é o nosso foco de atendimento para novas alunas. Nessa idade, as mulheres trabalham, estudam e são responsáveis pelas atividades domésticas, incluindo os cuidados com as crianças e idosos da família.

Viviane Santos, coordenadora do Destemidas

Além disso, há o desafio de se investir em equipamentos esportivos para os treinos e muitas não enxergarem a atividade física como um fator importante para a saúde do corpo e da mente.

Roda de conversa do Destemidas - Divulgação - Divulgação
Roda de conversa do Destemidas, no Complexo da Maré (RJ)
Imagem: Divulgação

O poder transformador do esporte

A carioca Fernanda Andrade de Lima, 26 anos, faz parte do Destemidas desde o início e acredita que a presença de projetos sociais nas comunidades ajuda a evitar que crianças e adolescentes sigam o caminho do tráfico, além de contar com uma rede de apoio bem estruturada. "Quando treino, isso me ajuda a ter mais relações sociais e me fortalece física e mentalmente, além de desenvolver empatia e respeito pelo próximo. É como se as pessoas fizessem parte da minha família."

Carol concorda e defende que o esporte precisa caminhar lado a lado com a educação, pois ele ajuda a trabalhar a confiança e a autoestima. "Vejo que o projeto realmente tem ajudado a mudar a realidade socioeconômica de muitas mulheres do Complexo da Maré. Elas passam a almejar mais para a vida delas, descobrem uma força que não conheciam. O Destemidas propõe que elas ocupem a cidade e possam conhecer o Rio de Janeiro fora das comunidades em que elas vivem. E isso é muito importante."