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José, filho caçula de Gilberto Gil: 'a música tá no DNA da família'

Helton Simões Gomes

De Ecoa, em São Paulo

25/06/2022 04h00

Quando criança, bastava José Gil fazer silêncio para ouvir o violão de Gilberto Gil ecoar pela casa. Caçula de oito irmãos, ele nasceu quando o pai, já maduro, tinha 50 anos e viajava constantemente. Talvez por isso, na volta das turnês, um de seus passatempos preferidos era se esconder no corredor e ouvir aquele dedilhado por horas a fio. Assim, viu nascer na sala de estar músicas refinadas como "Máquina de Ritmo", depois gravada com uma orquestra inteira.

Baba-ovo confesso de seu Gilberto, como costuma chamá-lo, José, 30, seguiu os passos do pai. Primeiro ao se formar em administração, curso no qual o pai se graduou em 1964 pela UFBA (Universidade Federal da Bahia). Depois, na música - inicialmente na banda paterna e agora como integrante do trio Os Gilsons, banda formada com seus sobrinhos, João e Francisco. Para conseguir seguir a carreira em paz, no entanto, ele evita comparações. "Se fosse para fazer música espelhado nele, talvez eu nem fizesse. Não tenho a pretensão de fazer coisas tão geniais."

Junto de Gil, Bela e Nara, José conta esta e outras histórias no vídeo acima, "Origens: A Música no DNA da família Gil", produzido por MOV, a produtora de vídeos do UOL, em parceria com ECOA, a plataforma do UOL por um mundo melhor, e o Núcleo de Diversidade

Bateria e violão

Apesar do sarrafo alto, é a música, diz José, que une a família, invariavelmente em torno de Gil, que funciona como um ímã magnético. Ele jura que não eram incentivados dentro de casa a seguir por este caminho. Ainda assim, quatro dos sete filhos vivos e três dos 12 netos têm envolvimento direto com a indústria fonográfica. Não têm conexão com a música, por exemplo, Piná e Roma, filhas gêmeas de um ano de José com a cantora Mariá Pinkusfeld.

]Talvez, sugere José, tenham seguido o exemplo de seu Gilberto e "o relacionamento maravilhoso com o violão dele". Ele até se engraçou com o instrumento favorito do pai, mas preferiu namorar e casar com outro: a bateria.

José - Daniel Neri/Arte UOL - Daniel Neri/Arte UOL
José Gil, o filho mais novo de Gilberto Gil
Imagem: Daniel Neri/Arte UOL

Era ela que permitia ao fã de Red Hot Chilli Peppers combinar a sonoridade do rock ao ritmo dos blocos afro, como os Filhos de Gandhi, que o encantavam. A diferença de intensidade sonora entre os amores de pai e filho não chegava a virar motivo de discussão em casa, mas rende algumas risadas.

"Ele ainda hoje diz: 'Eu lembro muito você tocando o dia todo'", conta José, imitando o jeito cadenciado do pai falar. "Só que eu fico imaginando como era pra ele aquela coisa insuportável de ver um adolescente tocando bateria em casa e ele querendo tocar o violão dele", conta, rindo.

Música no DNA na família

A paciência do pai não era só fachada. De tanto ouvir o filho em casa, deu a ele pelo aniversário pelos DOS 25 anos o presente de debutar nos palcos. Lá, José se uniu ao irmão mais velho Bem e ao sobrinho João para formar a banda que acompanha Gil em seus shows.

"Para ele, era uma alegria também, uma satisfação diferente de estar com a família. Ele deve lembrar muito do Pedro quando a gente toca junto", diz José, lembrando do irmão, também baterista e que não chegou a conhecer por ter morrido em 1990 aos 19 anos após um acidente de carro.

José2 - Daniel Neri/Arte UOL - Daniel Neri/Arte UOL
Gilberto Gil e o filho mais novo, José Gil
Imagem: Daniel Neri/Arte UOL

O que era para ser só uma canja virou lugar cativo de baterista até Gil limar o filho. Mas por um bom motivo. A banda Os Gilsons começou a decolar e fazer muitos shows, que o impediam de acompanhar a agenda pai.

"Como músico, tenho vontade de perpetuar as influências musicais que vêm da nossa família. Não vai ser necessariamente uma música genial como a dele, mas a gente vai colocar na nossa arte a visão de mundo, o propósito que vêm dali. Não sei se um dia a gente vai explicar isso de uma forma científica e conseguir decodificar coisas no nosso DNA que cheguem a outros campos. Mas eu acredito sim que a música está no DNA da nossa família."

A árvore genealógica da família de Gilberto Gil

Uma ou duas gerações para trás

Uma análise do DNA ainda não oferece pistas sobre a existência de um gene da música, mas com ela é possível suprir buracos na formação do clã. Foi por isso que José aceitou o convite de Ecoa para realizar um exame de DNA que mapeia a ancestralidade genética e indica os locais prováveis de onde vieram seus antepassados.

"Ao mesmo tempo que a gente hoje pensa e fala muito em ancestralidade, bateu um sentimento engraçado de perceber quão distante eu estava dessas informações e como eu não sabia dos ancestrais da minha família. No máximo, uma ou duas gerações para trás."

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José Gil ainda criança
Imagem: Daniel Neri/Arte UOL

Saber das várias regiões da África presentes em seu DNA fez José refletir sobre a diversidade de cultura do continente. Ainda mais porque 15% de sua composição genética, maior porção entre os países da região, vêm do norte africano, que abriga nações como Egito, Marrocos, Líbia e Tunísia.

"Quando pensamos em África, não lembra muito no Egito, talvez seja a cultura africana que as pessoas mais conhecem no mundo. Mas não atribuem necessariamente aquilo à coisa africana, porque pensa muito no negro retinto."

Teste Jose -  -

Ao se deparar com uma divisão de seu material genético entre Europa (64,6%) e África (35,4%), José sentiu como se carregasse um conflito histórico. Mas longe de travar uma luta interna, ele encarou tudo como parte de um processo de autoconhecimento para refletir sobre suas origens.

"São raças que historicamente uma é opressora, a outra oprimida. E eu estou no meio desse caminho, no meio dessa miscigenação, de uma guerra histórica. Eu não sou só negro. Tenho muito da branquitude, mas vou estar sempre lutando do lado de quem sofreu a opressão."