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Projeto cria sistema agroecológico e gera renda para famílias no semiárido

Agroecossistema no semiárido brasileiro - Divulgação/ IRPAA
Agroecossistema no semiárido brasileiro Imagem: Divulgação/ IRPAA

Ed Rodrigues

Colaboração para Ecoa, do Recife

23/06/2022 06h00Atualizada em 23/06/2022 17h51

Em busca de alternativas para a seca, um projeto tem possibilitado a implantação de oásis no seminário brasileiro. A família Gonçalves, do distrito Maçaroca, no município de Juazeiro, na Bahia, é um dos exemplos. Com o acompanhamento dos técnicos da Articulação do Seminário Brasileiro (ASA), a família iniciou um projeto agroecológico resiliente às mudanças climáticas que permite produzir alimentos para o consumo e a comercialização.

O Projeto Daki Semiárido Vivo tem o objetivo de trocar experiências e capacitar outras famílias, inclusive com base em casos como o dos Gonçalves, para que possam implementar agroecossistemas semelhantes e construir territórios sustentáveis resistentes às mudanças climáticas.

Recentemente, aponta a ASA, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou um aumento dos efeitos das mudanças climáticas na região Nordeste. A edição alerta para o aumento da seca, seja pelo completo desaparecimento de rios intermitentes, seja pela transformação de rios perenes em intermitentes.

No interior baiano, a família Gonçalves viu de perto por muitos anos os impactos da seca severa. Emily Silva, filha de Edson Carlos Gonçalves, dono da propriedade, cursa o ensino médio técnico em agropecuária para ajudar a encontrar soluções para os problemas locais.

Ela conta que a propriedade surgiu em 1957, quando seu avô, Manoel Cascavel, chegou à comunidade Serra da Boa Vista e não havia água encanada. A primeira fonte de água foi um poço artesiano. Somente em 2010 chegaram as cisternas de placa utilizadas para consumo na comunidade, resultado de uma parceria com a ASA, a diocese e outras entidades.

Emily - Divulgação - Divulgação
Emily frequenta a Escola Família Agrícola de Sobradinho (BA)
Imagem: Divulgação

"Foi uma virada de chave, pois agora tínhamos recurso para captação da água da chuva. Meu pai herdou uma parte da propriedade que inicialmente era utilizada para o cultivo de mamona e a criação de caprinos. Em 2005, ele iniciou o plantio de tomate de forma convencional e com o uso de agrotóxicos. Nessa mesma época, toda a comunidade também iniciou o cultivo de tomate, desmatando e queimando grandes áreas para plantio. Como consequência disso, houve o aumento de doenças respiratórias e cancerígenas relacionadas aos produtos químicos", relembra.

'É possível cultivar de forma sustentável e gerar renda'

Segundo a agricultora, em 2018, após muitas perdas econômicas e de saúde, a família decidiu cessar o cultivo de tomates. Nesse mesmo ano, Emily começou a estudar em uma Escola Família Agrícola em Sobradinho (BA), que mexeu com a sua visão sobre o lugar.

"Minha família participou nos grupos de quintais produtivos e caprinos, recebendo ao longo do projeto um canteiro telado, um aviário, quintal forrageiro e cobertura de aprisco. Mas as formações que aconteciam pelo projeto eram as principais incentivadoras da produção agroecológica. O projeto de sistema agroflorestal nos mostrou que é possível cultivar de forma sustentável e gerar renda, respeitando o solo e a agrobiodiversidade da propriedade. Toda a família buscou aprender a respeitar o solo, as plantas, os animais e os seres aqui presentes", diz.

Semiárido - Divulgação/ IRPAA - Divulgação/ IRPAA
Suinocultura no semiárido brasileiro
Imagem: Divulgação/ IRPAA

A família seguiu com o cultivo agroecológico, incentivando as outras propriedades a produzirem de forma saudável também. Atualmente, a maior parte da renda provém do sistema agroflorestal e dos caprinos.

Troca de experiências

Júlia Rosas, coordenadora pedagógica do Daki Semiárido Vivo, explica que o programa atua em três regiões semiáridas da América Latina: semiárido brasileiro, Grande Chaco Americano e Corredor Seco Centro-americano. O objetivo, explica, é desenvolver capacidades institucionais para ajudar no enfrentamento das mudanças climáticas, a partir da sistematização de experiências, intercâmbios entre técnicos e agricultores e processos de formação em Agricultura Resiliente ao Clima (ARC).

Semiárido - Divulgação/ IRPAA - Divulgação/ IRPAA
Roçado criado com acompanhamento dos técnicos do Articulação do Seminário Brasileiro
Imagem: Divulgação/ IRPAA

"Nesse sentido, foi feito um levantamento bibliográfico das temáticas relacionadas ao projeto e agora está havendo a sistematização em profundidade de 55 experiências e 10 estudos de caso das três regiões latino-americanas. Essas experiências aportam aprendizados e conteúdos para o primeiro Programa de Formação em ARC, que está, atualmente, na metade da etapa de curso [há uma etapa posterior de pós-curso]", ressalta Júlia.

O projeto tem atuado, nessa perspectiva, para a produção e sistematização de experiências e conhecimentos, comunicação, visibilidade, intercâmbio de experiências entre territórios sustentáveis, propondo uma ARC pautada na agroecologia e na convivência com os semiáridos, que exigem democratização do acesso à água e à terra, solos saudáveis, florestas conservadas, protagonismo e direito dos povos dos semiáridos garantidos a partir da incidência política.

Programa de formação

A coordenadora detalha que as técnicas são diversas entre as diferentes experiências e que o projeto trabalha no programa de formação. As várias técnicas, práticas e formas que existem em diferentes experiências são adaptadas às realidades locais e territoriais.

"Há diversas técnicas de uso, manejo e recuperação de solos, como uso de fertilizantes e adubo orgânico, cobertura morta, as Barragens de Base Zero e os cordões de pedra. Há práticas relacionadas com a cultura do estoque, de armazenamento de água da chuva em tecnologias sociais, reúso de água, armazenamento de alimentação animal com fenação e silagem, resgate, manejo e armazenamento de sementes crioulas em bancos de sementes familiares e comunitários."

Além disso, continua Júlia, há formas de conservação da agrobiodiversidade, como as relacionadas às sementes, também os Sistemas Agroflorestais, os Sistemas Silvipastoris, que combinam a manutenção da biodiversidade de florestas nativas com a agrobiodiversidade de florestas plantadas e criação de animais.

"Elas são responsáveis justamente pela recuperação de solos e florestas, pela manutenção de solos saudáveis, florestas em pé, pela democratização do acesso à água, garantia de soberania e segurança alimentar e nutricional, gestão e manejo de florestas, agroecossistemas, territórios sustentáveis. É a partir delas que os povos dos semiáridos vêm construindo e vivendo nesses territórios, gerindo esses espaços de forma resiliente", destaca.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado anteriormente, o nome do município é Juazeiro, na Bahia. A informação foi corrigida.

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