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Bem viver: conceito indígena ajuda repensar vida em harmonia com a natureza

Indígenas dos povos Yawalapiti, Kalapalo e Mehinako tocam flautas de bambu urua enquanto dançam durante o Kuarup - UESLEI MARCELINO/REUTERS
Indígenas dos povos Yawalapiti, Kalapalo e Mehinako tocam flautas de bambu urua enquanto dançam durante o Kuarup Imagem: UESLEI MARCELINO/REUTERS

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

04/06/2022 06h00

Ter mais dinheiro na conta, mais carros na garagem e outros bens materiais é uma conquista desejada por muitos dentro de nossa sociedade —são símbolos que mostram que se está vivendo bem independentemente de outras circunstâncias. Em outro sentido, a filosofia do Bem Viver para os povos indígenas aponta para práticas que estejam em harmonia com a natureza e com o território, sobretudo, de povos originários da América Latina, mas que não são focadas propriamente na acumulação de recursos ou de bens.

Para entender o que é Bem Viver, a origem e a importância desse conceito para os povos originários, Ecoa conversou com um antropólogo e com uma liderança do povo Baniwa. Acompanhe a seguir.

O que é bem viver indígena?

A harmonia entre seres humanos e natureza é o norte da filosofia do Bem Viver, que traz em seu alicerce a ideia de construção e esforço coletivo, que na concepção de povos indígenas pode se traduzir literalmente na construção de casas e outras atividades que envolvem o trabalho, que é pensado sempre em caráter de benefício coletivo e preservando a floresta e o seu entorno.

"O Bem Viver para a cultura Baniwa significa um esforço constante. Para viver bem é preciso ter coisas, como canoas, casas, que são obtidos por meio do trabalho, mas que é feito para ajudar outras pessoas também", diz André Baniwa, escritor, empreendedor social e vice-presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI), do Amazonas.

É preciso fazer as coisas muito bem-feitas para que as pessoas ao redor realmente gostem do seu trabalho, e assim a gente se sinta bem por colaborar com o local em que vive.

André Baniwa, escritor, empreendedor social e vice-presidente da Organização Indígena da Bacia do Içana (OIBI)

Ele explica que o Bem Viver é uma forma de integrar seu povo à natureza que o cerca, enxergando-a além dos recursos naturais apenas, que, portanto, não devem ser extraídos e explorados em troca de lucro.

"Sentimos que fazemos parte do nosso povo, do nosso país, mas também somos parte do rio. Por isso, é preciso sempre preservar esse meio ambiente que está ao nosso redor, e não há acordo para destruí-lo como, por exemplo, para ganhar mais dinheiro ou algo do tipo", diz.

Qual a origem do Bem Viver?

Para o doutor em antropologia Messias Basques, que pesquisa povos indígenas, há uma imensa diversidade sociocultural e linguística que caracteriza as populações indígenas, mas de maneira geral a filosofia do Bem Viver tem elementos comuns ao se observar lideranças e intelectuais indígenas discorrerem sobre o tema.

"Destacaria que um dos elementos centrais é a relação indissociável entre modos de ocupação de um determinado território e o ideal de vida plena, que se manifesta na satisfação ou felicidade de viver nos lugares que nos permitem ser o que somos", explica Basques.

Ele lembra que a ideia de bem viver que se popularizou nos últimos anos tem como uma de suas origens a expressão suma kawsay (suma: bem; kawsay: viver), derivada do quéchua, que é um idioma indígena oficialmente reconhecido no Peru e na Bolívia.

Além disso, o pesquisador aponta que existem leis que vão no sentido de preservar esse conceito e filosofia. "Alguns países latino-americanos incorporaram o Bem Viver em suas constituições, como no caso do Equador (2008) —que reconheceu o "direito da população de viver em um ambiente são e ecologicamente equilibrado, que garanta sustentabilidade e bem viver"— e da Constituição do Estado Plurinacional da Bolívia (2009), que incorporou o Bem Viver como um direito e como um princípio ético moral."

No entanto, Basques também ressalta que foi a articulação de lideranças indígenas sul-americanas que colaborou para a difusão do conceito, que passou a constar nos documentos e discursos realizados em instituições multilaterais. "Como na Organização das Nações Unidas e na União Europeia, assim como nos veículos de imprensa que se dedicam a reportar temas socioambientais e de direitos humanos", exemplifica.

Bem Viver preserva a natureza por se entender como parte

De acordo com Basques, viver no lugar também significa fazer parte dele para os povos indígenas e, como exemplo, cita o trabalho da antropóloga Graciela Chamorro, professora de História Indígena na UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados).

"Chamorro sugere que uma imagem apropriada do bem viver guarani e kaiowá seria a de 'terras vivas', algo como um território existencial onde se pode vivenciar o processo contínuo de plenificação e as práticas de reciprocidade", explica.

"Na mitologia desses povos, o demiurgo [um ser criador] deu origem a todas as formas de vida a partir de uma pequena porção de barro que, soprada, começou a se expandir. Desse modo, a terra se tornou fonte de sustento e de coabitação dos viventes", continua.

Basques defende que o Bem Viver é mais do que um conceito —tratam-se de modos de vida ligados profundamente a uma relação de pertencimento aos territórios.

Não necessariamente implica a ideia de propriedade mas, antes de tudo, a de posse no sentido de cuidado ou guarda. Isso significa que esses povos não se veem como donos ou proprietários de um pedaço de terra que poderia ser vendida ou comercializada.

Messias Basques, antropólogo

"Esses povos se sentem responsáveis pelo usufruto e pelo cuidado dos territórios onde encontram as condições necessárias para que continuem a viver de acordo com os seus costumes e tradições, sem abdicar da possibilidade de introdução de novas tecnologias ou práticas que lhes permitam inclusive aprimorar os cuidados e o próprio usufruto dos lugares onde vivem", completa.

Tradição, conservação e inovação aplicadas ao Bem Viver

O antropólogo enxerga que, assim como acontece com qualquer conceito que se torna popular, o Bem Viver passou a ser utilizado sem relação direta com os seus contextos originais.

"Com isso, perde-se a oportunidade de realmente aprender e de tomar contato com modos de vida capazes de nos ensinar a viver de forma menos abusiva e predatória com os lugares que ocupamos e nos quais vivemos, seja nas cidades ou no campo", acredita Basques.

No entanto, a conservação e o cuidado com os territórios abrem espaço para inovações tecnológicas, e provam que mesmo mantendo as tradições da filosofia do Bem Viver, é possível usar esses recursos em prol da natureza e com um olhar sustentável.

"Pode-se mencionar o caso do povo Suruí Paiter, em Rondônia. O cacique Almir Suruí, pai da jovem líder indígena Txai Suruí, foi pioneiro ao buscar parcerias para o monitoramento territorial através do uso de computadores e de imagens de satélite em tempo real. A partir dessas parcerias, tornou-se possível o desenvolvimento de projetos de créditos de carbono, a produção agroflorestal e o incentivo à educação escolar bilíngue [em tupi-mondé e português]", exemplifica Basques.

Já Baniwa enxerga o conceito de Bem Viver como essencial para reduzirmos os danos na sociedade atual e frear a atual crise climática. "O mundo precisa ter esse bem viver, mas é difícil mudar práticas que todos acham que estão certas. Espero que o conceito seja assimilado e aceito. Assim, o planeta realmente terá sustentabilidade", acredita.

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