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Desinformação climática: saiba o que é e quais as consequências do problema

Parte dos equívocos e informações falsas é espalhada por meio das redes sociais - iStock
Parte dos equívocos e informações falsas é espalhada por meio das redes sociais Imagem: iStock

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa

28/05/2022 06h00

Você já deve ter ouvido ou lido, especialmente na internet, que o aquecimento global é benéfico ou que o ser humano não tem qualquer responsabilidade sobre mudanças climáticas que possam vir a ocorrer. No entanto, isso não é verdade. Esses são exemplos de mentiras que fazem parte da chamada desinformação climática, problema que preocupa cientistas e ambientalistas no mundo todo.

Parte desses equívocos e informações falsas é espalhada por meio das redes sociais. De acordo com um relatório do Greenpeace EUA divulgado neste ano, em parceria com as organizações Avaaz e Friends of the Earth, as empresas estão falhando no combate à desinformação pela falta de transparência com a qual tratam infratores em casos de fake news sobre o clima. Entre as redes sociais avaliadas no levantamento, o Twitter obteve a pior pontuação: 5 de um total de 27 pontos. Facebook e TikTok alcançaram 9 e 7 pontos, respectivamente, enquanto o Pinterest e o YouTube foram as duas plataformas mais bem avaliadas, com 14 pontos cada uma.

Diante desse cenário, como combater esse problema? E como o acesso a informações climáticas verdadeiras pode contribuir com o engajamento a favor do meio ambiente? Ecoa conversou com especialistas para explicar essas e outras questões sobre o assunto.

O que é desinformação climática?

É criar e divulgar conteúdos que negam a existência ou os impactos da mudança climática, bem como a influência humana sobre as mudanças climáticas, explica o diretor de Economia Verde do WWF-Brasil, Alexandre Prado. Ele observa que essa prática contradiz o consenso científico amplamente estabelecido, deturpando dados científicos, por omissão ou supressão de evidências.

A desinformação climática é caracterizada principalmente pela disseminação de dúvidas e incertezas artificiais entre a população leiga, visando o descrédito da ciência e o bloqueio de medidas necessárias para combater as mudanças climáticas.

Alexandre Prado, diretor de Economia Verde do WWF-Brasil

O ambientalista lembra que recentemente um estudo divulgado pelo pesquisador Robert Brulle, professor visitante da Brown University, nos Estados Unidos, mostrou como uma organização norte-americana colocou em prática ações para frear o combate ao aquecimento global. A ação da Global Climate Coalition (GCC) foi caracterizada em quatro linhas: monitoramento e contestação da ciência climática; encomenda de estudos econômicos sob medida para ampliar e legitimar argumentos; mudança na compreensão cultural sobre o assunto através de campanhas publicitárias; e condução de um lobby agressivo sobre legisladores e membros de elites políticas.

"Em geral, [essas ações] são financiadas e apoiadas por empresas e governos que têm muito a perder na mudança de padrão de produção e consumo para uma matriz mais sustentável, para que continuem suas atividades intensivas com carbono", analisa Prado.

Essa característica citada pelo ambientalista, de selecionar dados científicos e usá-los de maneira deturpada, a favor de um ponto de vista, é conhecida entre os cientistas como cherry-picking, acrescenta o professor e climatologista do departamento de geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Wilson Flávio Feltrim Roseghini.

O termo serve para ilustrar uma colheita de cerejas em que uma amostra madura é selecionada a dedo e usada para apontar que todo o restante das frutas também está saudável. "Como essa pseudociência usa dados reais, isso é um problema. Ela faz uma maquiagem em cima dos dados", diz.

Quais os tipos de desinformação climática existentes?

Segundo Roseghini, a desinformação climática existe em diferentes níveis, o que também acarreta diferentes tipos de impacto à sociedade. Um exemplo é a propagação de previsões equivocadas sobre a recente onda de frio registrada no país. "Algumas pessoas disseram que haveria furacão no Brasil ou recordes extremos de temperaturas baixas em locais pouco habituais. Nesse caso, é uma situação ligada à previsão do tempo que terá um impacto nesse período em que houve a onda de frio", observa.

O outro nível de desinformação climática é ligado à mudança no clima. Nesse caso, usa-se uma escala temporal muito mais longa, em um espaço global, a partir de cenários futuros e levantamentos de centenas de anos atrás. "Todas essas formas de desinformação trazem problemas. Uma impacta de maneira mais imediata e outra a longo prazo. No caso da mudança climática, o impacto a longo prazo dessa desinformação é preocupante porque estamos educando as futuras gerações para tratar desse tema", avalia o professor.

Ele considera o momento atual como uma época de mudança de paradigma em relação ao comportamento que teremos com o meio ambiente. "Hoje somos preocupados em resolver problemas. E a mudança climática está nos fazendo mudar para sociedade que tenta prevenir seus problemas. É uma mudança que exige investimento e não envolve apenas o pessoal, mas países, governos", enfatiza.

Quais as consequências desse problema?

Para o diretor de Economia Verde do WWF-Brasil, o risco provocado pela desinformação climática é o da inação, ou seja, a não priorização do problema climático na agenda social e política. Isso pode levar ao atraso da implementação de medidas eficazes no controle de emissão de gases causadores do efeito estufa e de ações de adaptação às mudanças climáticas.

"São prejuízos gigantescos, com vemos diariamente", pontua Prado, ao citar que em poucos meses de 2022 já se pode ver no Brasil a seca afetando parte da produção agrícola, enchentes na Bahia e em Minas Gerais e a tragédia envolvendo chuvas em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

"São exemplos de como as mudanças climáticas impactam as populações mais vulneráveis. Nessa linha, o relatório do Grupo de Trabalho II do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) deste ano reforçou que já estamos vendo impactos negativos substanciais com um aquecimento global de 1,1° C, como a redução da produtividade agrícola, a maior insegurança alimentar, o aumento da pobreza extrema e o maior deslocamento de populações, bem como maior insegurança hídrica e energética", destaca.

Do ponto de vista econômico, o ambientalista também ressalta os prejuízos causados pela alteração no clima —caso da perda agrícola, danos às populações afetadas e a perda de oportunidades para o país por não se priorizar o desenvolvimento socioeconômico de baixo carbono.

Hoje, o Brasil tem no desmatamento e nas queimadas suas principais fontes de emissão de gases de efeito estufa, com as mudanças no uso da terra respondendo por quase metade (46%) das emissões brasileiras em 2020, segundo dados do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.

Desmatamento - iStock - iStock
Desmatamento na Amazônia
Imagem: iStock

A tendência, conforme Prado, é que isso piore, uma vez que em abril deste ano o sistema de alertas de desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) já registrou aumento de 75% em relação ao mesmo período de 2021 na Amazônia.

"É o pior resultado para o mês de abril desde 2016, ou seja, a degradação ambiental em nosso país pode ser visualizada diariamente por nossas janelas, tanto para quem mora nas cidades quanto para os que vivem nas áreas rurais, tendo piorado muito nos últimos três anos de impunidade ambiental, com a redução das ações de controle, de fiscalização e de autuação", argumenta.

Como o acesso a informações climáticas corretas pode levar a um engajamento a favor do meio ambiente?

Para Prado, a geração de informação qualificada, baseada em conhecimento científico e adequada a uma ampla gama de atores da sociedade leva à tomada de consciência. Com isso, vem a necessidade de alterar rotas.

"A emergência climática nos traz a necessidade de engajamento de todos os atores da sociedade —de governos e empresas ao setor financeiro e indivíduos— nos alertando a adotar medidas rápidas e arrojadas para enfrentar a crise climática. É hora de olharmos para cima, reconhecer a ameaça e também as oportunidades de ação para garantirmos um futuro seguro não só para as futuras, mas também para a atual geração", completa.

Qual o caminho para combater a desinformação climática?

Roseghini salienta que a tecnologia, a depender de como é usada, pode ser uma aliada nesse trabalho. Ainda assim, é preciso solucionar o problema da desigualdade social, que prejudica o acesso à informação entre os cidadãos, especialmente os mais jovens. "Muitos ainda não têm acesso à tecnologia. A pandemia nos mostrou isso", frisa.

Para atingir esse público, ele aponta o investimento em educação e em cultura como fundamentais. Ao mesmo tempo, o professor cita o apoio da mídia como outro fator importante para enfrentar esse problema. "Para nós, é muito bem-vindo quando os veículos de comunicação se propõem a auxiliar nessa divulgação científica da forma correta", comenta.

O diretor de Economia Verde do WWF-Brasil acredita que a saída para a desinformação climática é a mesma usada para combater outros tipos de desinformação, relacionados, por exemplo, à democracia, às urnas eletrônicas ou à vacinação.

É preciso, reforça ele, que a informação qualificada seja baseada em fatos e na ciência para informar o que está realmente acontecendo. "O desenvolvimento socioeconômico das nações no século 21 é estruturado na geração de conhecimento e na agregação de valor baseados na ciência, na biodiversidade e numa sociedade mais justa em termos sociais, econômicos e ambientais. Informar fatos, não fakes, é o meio para nos engajar no rumo para uma sociedade mais igualitária e sustentável", afirma.

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