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Após sequelas graves, ex-atleta ajuda a reabilitar pacientes de covid longa

Após uma difícil recuperação, Raquel Trevisi criou o projeto Com Vida - Arquivo pessoal
Após uma difícil recuperação, Raquel Trevisi criou o projeto Com Vida Imagem: Arquivo pessoal

Ed Rodrigues

Colaboração para Ecoa, do Recife

22/05/2022 06h00

Já imaginou se os sintomas da covid-19, um ciclo que deveria durar em média 10 dias, permanecessem por quatro meses? Essa é a realidade de Mônica Senna atualmente. Ela, que adquiriu covid longa e precisa de suporte psicológico, é uma das pessoas reabilitadas pelo projeto Com Vida, que tem dado apoio a pacientes da doença. A iniciativa foi criada pela dentista de São Paulo Raquel Trevisi, 39 anos, ex-atleta de crossfit que enfrentou sérios problemas após receber o diagnóstico positivo e chegou até a ficar sem andar.

Durante a sua reabilitação, Raquel percebeu que havia pessoas com sequelas graves da doença, iguais ou até piores do que as dela, mas que não tinham acesso aos mesmos tratamentos que ela teve. Hoje, seu projeto atende aproximadamente mil pessoas afetadas pela covid, apesar dos poucos recursos financeiros.

A dentista fazia parte do grupo de pessoas que se acreditava não desenvolver a forma mais grave da doença: atleta, jovem e sem vícios. Apesar disso, quando foi infectada pelo coronavírus, teve duas intubações e uma experiência de quase morte.

Raquel teve infecção e trombose nos braços e pernas. Deixou o hospital em uma cadeira de rodas e não conseguia mexer o corpo do pescoço para baixo. Teve de passar por um difícil e caro processo de reabilitação.

"Eu sempre cuidei muito da minha saúde. Quando fui diagnosticada com a covid-19, não tinha comorbidade, mantinha minha rotina de treinos de crossfit diário, ou seja, era praticamente impossível que eu pudesse ter a forma mais grave da doença. Mas infelizmente não foi isso que aconteceu. A evolução da covid na minha vida foi de forma abrupta e avassaladora", contou.

Em entrevista a Ecoa, Raquel lembra que treinou normalmente no dia 7 de setembro de 2020. Na madrugada do dia 8, começou a ter os primeiros sintomas. Vinte e quatro horas depois, procurou um hospital e precisou ficar internada com 5% dos pulmões comprometidos, que rapidamente passaram para 85% de comprometimento. Com isso, os médicos viram que a única chance para tentarem reverter a situação seria a intubação.

"Senti uma movimentação estranha no quarto e perguntei ao médico se eles iriam me intubar. Quando ele disse que sim, o meu chão se abriu. Eu clamei a ele que me prometesse que faria de tudo para me trazer de volta, pois tinha dois filhos [um de 16 e outro de 11 anos] para criar e uma família que me amava me esperando. E ele prometeu", relata.

'Quando acordei, não reconhecia meu corpo'

A ex-atleta lutou pela vida por 30 dias, sendo 20 deles na UTI, com uma tentativa de extubação traumática e mais uma intubação. Até que no dia 4 de outubro foi definitivamente extubada.

"Quando acordei do coma, não reconhecia meu corpo. Havia emagrecido 25 quilos, além de ter tido infecção durante esse período, trombose em uma das pernas e tetraplegia temporária. Não conseguia mexer o corpo do pescoço para baixo e perdi toda a musculatura. A cor e a textura da minha pele estavam diferentes e eu tinha dificuldade de me perceber naquele contexto. Só me reconheci por causa das minhas tatuagens. No momento da minha alta hospitalar, no dia 8 de outubro, aquela plaquinha que dizia 'venci a covid' foi encaixada pelos médicos nas minhas mãos", relembra.

Raquel - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raquel chegou a ficar sem andar após contrair o coronavírus
Imagem: Arquivo pessoal

Daí em diante, Raquel entrou em reabilitação com uma equipe multidisciplinar que integrou enfermeiros, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, psicólogo, médicos, além do companheiro, dos irmãos e dos pais. O tratamento não saiu barato. Apenas no primeiro mês a família desembolsou cerca de R$ 20 mil.

A recuperação total ainda não aconteceu. Raquel diz que está longe do que um dia foi. Conta que tem dores e esquecimentos (uma das sequelas da covid é a perda de memória), entre outros sintomas, mas ressalta que celebra cada segundo da vida agora.

O gasto financeiro e a dificuldade para se recuperar fizeram a dentista imaginar o que estaria acontecendo com pessoas em situação semelhante à dela, mas sem recursos para um tratamento adequado. Foi aí que surgiu o projeto Com Vida.

Raquel - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Raquel Trevisi teve infecção e trombose nos braços e pernas; deixou o hospital em uma cadeira de rodas e não conseguia mexer o corpo do pescoço para baixo
Imagem: Arquivo pessoal

"A recuperação é muito cara. Uma pessoa mais humilde financeiramente não teria condições de se reabilitar por completo. Fiquei em choque ao perceber que a maioria não teria uma equipe igual à que eu tinha para ajudar na recuperação. Isso me abateu profundamente. Vi que precisava fazer algo. Comecei a mobilizar as pessoas por grupos de WhatsApp e consegui reunir voluntários e multiplicadores", diz.

Para acolher um paciente com covid, o projeto dispõe de uma equipe que analisa todos os dados e documentos que as pessoas enviam por meio do site. Lá, elas precisam comprovar a veracidade da doença com exames, teste positivo e encaminhamento médico.

"A partir desse momento, proporcionamos a eles, dentro das nossas possibilidades, tudo o que for necessário para a recuperação. Isso vai desde acolhimento a enlutados, remédios, fraldas, suplementação alimentar, apoio psicológico, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, médicos, psiquiatras e alimentação básica", enumera.

Estímulo para continuar

Mônica Senna encontrou no projeto um estímulo para continuar vivendo. Ela conta que quando não está em atendimento está dormindo, devido ao cansaço por causa da covid longa.

A descoberta do Com Vida aconteceu em uma comunidade de pacientes que haviam tido covid. "Abri o link, fiz meu cadastro, contei minha história e em alguns dias entraram em contato comigo para começar o tratamento de reabilitação", conta a Ecoa.

Mônica diz ter encontrado acolhimento diante da negação dos médicos. Começou a psicoterapia e a fisioterapia. 'Tenho plano de saúde, mas como os médicos não acreditaram no meu relato, não tinha como ser encaminhada para a fisioterapia", diz.

"Então, por meio do projeto, gratuitamente, estou recebendo suporte psicológico, que é primordial para quem tem covid longa e a fisioterapia. Posso dizer que, acima de tudo, eu me sinto cuidada, vista, considerada e apoiada e isso traz esperança no processo de reabilitação. Minha vida melhorou, sem dúvida", avalia.

O projeto, no entanto, não se mantém financeiramente sozinho. Desde sua criação, em 2020, os desafios são gigantes e diários, ressalta a idealizadora. A conta não fecha, e os necessitados não param de chegar.

"Estamos longe de sermos autossuficientes", lamenta Raquel. "Isso me entristece e me preocupa. Temos hoje apenas uma empresa que nos apoia financeiramente, que é a Bevi, através da sua CEO, Monica Santos. Ela nos repassa R$ 10 mil mensais. Isso nos ajuda muito, mas seriam necessários ao menos R$ 30 mil para continuarmos a atender e aumentar o quadro atual de colaboradores. Por isso, esperamos por novas parcerias."

Quem deseja apoiar o projeto ou busca ajuda para lidar com a covid longa deve acessar o site projetocomvida.com.br.