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Lixo vira arte em curso para internos de entidade socioeducativa em PE

O trabalho visa, além de preparar os internos para o retorno à sociedade, dar aos socioeducandos uma profissão ligada à conscientização ambiental - Funase/ Divulgação
O trabalho visa, além de preparar os internos para o retorno à sociedade, dar aos socioeducandos uma profissão ligada à conscientização ambiental Imagem: Funase/ Divulgação

Ed Rodrigues

Colaboração para Ecoa, do Recife (PE)

15/05/2022 06h00

O lixo está ganhando novos usos nas mãos dos internos da Funase (Fundação de Atendimento Socioeducativa), em Pernambuco. Utilizando sucatas, resto de madeiras, PVC e outros produtos que seriam descartados no meio ambiente, os jovens com idades entre 12 e 18 anos estão criando esculturas e artesanato. Eles passaram por um curso ministrado voluntariamente por um artesão pernambucano.

O trabalho visa, além de preparar os internos para o retorno à sociedade, dar aos socioeducandos uma profissão ligada à conscientização ambiental.

Após ganharem forma, as peças são vendidas e geram recursos para os jovens internos. A Funase tem um box na Casa da Cultura, um espaço de comercialização de artesanato e ponto turístico do centro do Recife. Os trabalhos também participam todos os anos da Fenearte, evento de projeção do artesanato pernambucano, e podem ser encontrados na própria sede da instituição ou em outros espaços que venham a ser articulados. Os preços das peças vão de R$ 20 a R$ 200 e o valor arrecadado é dividido entre os adolescentes (50%) e a manutenção das oficinas (50%).

Segundo o coordenador do Parque Profissionalizante Professor Paulo Freire, da Funase, Normando de Albuquerque, o projeto busca dar um salto de qualidade no trabalho que ocorre há algum tempo, agora com materiais que precisam de maior nível de refinamento, a exemplo da sucata mecânica e da madeira, e que agregam mais valor aos produtos.

"Os internos trabalham aspectos do empreendedorismo e da consciência socioambiental, revalorizando aquilo que aos olhos de muitos não tinha mais valor, em paralelo com a situação experimentada por eles. São inúmeros cursos nessa área utilizando pneus, pallets, garrafas PET, etc.", diz o gestor a Ecoa.

Todos os socioeducandos estão aptos a participar, afirma o coordenador. No entanto, como as atividades ocorrem em espaços externos, existe uma seleção baseada no comportamento.

Funase - Funase/ Divulgação - Funase/ Divulgação
Após ganharem forma, as peças são vendidas e geram recursos para os jovens internos
Imagem: Funase/ Divulgação

"Mais de 15 socioeducandos das unidades de internação do Cabo, Pirapama, Jaboatão e Vitória já participaram do projeto realizado nas dependências do Parque Profissionalizante Professor Paulo Freire, um espaço da Funase voltado à realização de cursos. Mas outros cursos na linha do material reaproveitável são desenvolvidos em várias localidades, a exemplo da unidade de Timbaúba e da internação provisória no Recife", ressaltou.

Profissionalização

Albuquerque explica que o projeto ocorre no campo da profissionalização em um contexto socioeducativo. Ele destaca que, além das competências técnicas para um profissional, há outros ganhos envolvidos, como a reconstrução da autoestima, projeto de vida, trabalho em equipe, consciência socioambiental e todo um conjunto de habilidades sociais necessário para a vida em comunidade.

O trabalho não reduz, no entanto, o tempo que os internos terão de passar na unidade, ao contrário do que ocorre no sistema prisional, em que a participação na escola e as atividades laborais contam para a redução do tempo total da sentença, explica o coordenador.

A participação em cursos faz parte do cumprimento da medida socioeducativa e conta favoravelmente nos relatórios técnicos encaminhados periodicamente para a reavaliação do judiciário, que tem o arbítrio sobre o tempo do cumprimento da medida.

O repasse do conhecimento técnico fica sob a responsabilidade do professor e artesão Adriano Emídio. A Ecoa, ele explica que a matéria-prima é escolhida de duas formas: quando surge uma ideia e todos procuram os materiais de acordo com o imaginado; ou quando a matéria-prima é recolhida e as peças são pensadas a partir das possibilidades que o material proporciona.

"Muitas vezes a matéria-prima fala com a gente. Olhamos o produto e ele já mostra o que poderia ser. Vamos apenas limpando, ajustando. As peças são recolhidas em diversos locais. Mas muitas vezes falamos com vários comércios, que realizam o descarte de alguns produtos de forma incorreta. Passo nas oficinas e faço um trabalho de conscientização, falando que as peças que estão indo para o lixo podem virar arte. Muitos separam e me ligam para que eu vá recolher. Também fazemos esse trabalho com pedreiros e mestres de obra", detalha o artista.

Solda, corte, escolha de material, uso de prego, cola, parafusos, encaixes e moldagens, entre outras técnicas que possam contribuir com a aprendizagem e o desenvolvimento do trabalho, são repassadas aos internos pelo artesão, que também reforça com os alunos o que eles estão fazendo pela natureza ao evitar que os materiais fossem descartados no meio ambiente.

Conceitos de sustentabilidade

"Durante as aulas, falamos sobre sustentabilidade e que o que parece lixo pode virar arte. Além de explicar que estamos retirando uma quantidade grande de resíduo do meio ambiente, que estaria sendo descartado de maneira incorreta. Eles estão se mostrando muito habilidosos. É de se admirar a facilidade deles desde a primeira aula, até mesmo em trabalhar com as máquinas. E, à medida que eles vão vendo os produtos tomarem forma, se empenham cada vez mais", destaca.

Ao término do manuseio artístico, o lixo ganha as mais variadas formas: abajures, esculturas (bailarinas, motos, navios), painéis, luminárias, porta-celulares, tábuas de carne, relógios, bancos —uma infinidade de itens que surge de acordo com a criatividade deles.

A evolução do curso e a apropriação dos ensinamentos pelos socioeducandos têm deixado o professor todo orgulhoso. "Eu me sinto extremamente feliz, não só pelas aulas, mas pelo apoio que venho recebendo no Parque Profissionalizante. Dar aulas tem mudado minha visão artística porque o olhar dos socioeducandos pode nos ensinar muito sobre arte. Todos os dias também aprendo", diz.