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Interculturalidade vai da solução de problemas ao 'jeitinho brasileiro'

Getty Images
Imagem: Getty Images

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo

07/05/2022 06h00

No Brasil, a presença de diversas culturas é sentida e vista no prato, no modo de se vestir e até mesmo na forma de falar. Esse entrelaçar de culturas e de nacionalidades, que inclui povos africanos, originários e europeus, cria o que alguns estudiosos chamam de interculturalidade.

Mas o que é interculturalidade na prática? E como esse conceito pode criar caminhos harmônicos para relações entre as culturas? Para responder a essas e outras perguntas, Ecoa conversou com um doutor em linguagem e com um sociólogo sobre o tema. Acompanhe a seguir.

O que é interculturalidade?

"A interculturalidade é um constante convite à reflexão de nossa própria cultura e identidade. A proposta é que diferentes culturas possam conviver juntas aprendendo umas com as outras, integrando-se democraticamente sem anular as suas diferenças", explica José Luís Landeira, doutor em Linguagem e Educação pela Universidade de São Paulo (USP).

É nesse encontro que nascem conceitos como o sincretismo religioso — que vem sendo nomeado como hibridismo quando há a "fusão cultural" entre duas práticas religiosas, mas sem que uma se sobreponha à outra. Esse cenário multifacetado de religiões e culturas abre possibilidades distintas no Brasil. O Atlas das Juventudes revelou que alguns dos jovens ouvidos pela pesquisa têm passado por diversas crenças religiosas, e a partir dessas experiências criam formas variadas de acreditar e pensar.

O sociólogo Marcos Horácio Gomes Dias, doutor em história social (PUC-SP), lembra que o conceito de interculturalidade caminha em sentido oposto ao multiculturalismo.

"O multiculturalismo pressupõe que cada um tem sua própria origem cultural, étnica e que todos existam em pé de igualdade com os outros e mantendo a identidade daquilo que já existe. Já a ideia de interculturalidade acredita que há um diálogo com as culturas. Dessa forma, uma cultura pode aprender com a outra e relacionar os seus momentos de desenvolvimento, que são diferentes", explica Dias.

Como a interculturalidade "acontece" na prática?

Para Dias, a interculturalidade está presente diariamente, mesmo que em coisas que parecem imperceptíveis. "Ela acontece na vida cotidiana, pois as culturas estão sempre aprendendo umas com as outras", explica.

O sociólogo ainda lembra que a globalização e a imigração, pelos mais diversos motivos, levaram as pessoas de diferentes culturas a viverem em países que têm uma cultura predominante distinta.

Embora essa convivência possa ser pacífica, Landeira ressalta que muitas vezes há uma relação de violência com a cultura do outro. "Há um processo de sufocamento por parte de uma cultura dominante sobre as outras consideradas menos importantes, seja com a sua falta de cuidado com a natureza ou com hábitos culturais que se sobrepõem aos outros".

Importância da interculturalidade e sua relação com o "jeitinho brasileiro"

Para Dias, existe uma troca real entre as culturas, principalmente para resolver problemas que são comuns no mundo, e assim, é comum encontrar uma convivência pacífica entre elas.

"Colocar-nos em aprendizado com os outros é o caminho para uma sociedade melhor. Esse é um dos principais conceitos da interculturalidade. Desse modo, todos vivem juntos e funcionam juntos, como se fossem órgãos dentro de um corpo humano", acredita.

Indo ao encontro da ideia de que a interculturalidade é um caminho para se resolver problemas, Landeira lembra que nas grandes metrópoles, como São Paulo, esse encontro de culturas deixou a sua herança no léxico paulistano. "A própria cidade, há 100 anos, tinha uma presença maior de imigrantes do que de brasileiros. Isso afetou a forma de se falar o português aqui, que se voltava, inconscientemente, para tentar resolver os problemas imediatos de comunicação", explica o doutor em linguagem.

Segundo ele, é essa flexibilidade que também dá origem ao chamado "jeitinho brasileiro". "Apesar de ser muito criticado por se conformar com soluções que muitas vezes fogem do campo da ética ou da segurança, o 'jeitinho' por outro lado traz uma flexibilidade para se dialogar com a cultura do outro", explica.

No entanto, ele lembra que ainda estamos agregados a um pensamento colonialista e extrativista, que tem como tendência a ideia de tirar proveito de tudo sem pensar muito nas consequências. "Aceitar o desafio do respeito e da democracia é a única forma de encontrar essa interculturalidade de forma respeitosa", completa.

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