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'Agricultura não está incluindo a natureza em seu design', diz empreendedor

Felipe Villela em um painel no South Summit Brasil - Divulgação
Felipe Villela em um painel no South Summit Brasil Imagem: Divulgação

Fernanda Canofre

Colaboração para Ecoa, em Porto Alegre (RS)

05/05/2022 14h33

Durante as geadas que atingiram a região cafeeira de Minas Gerais no ano passado, uma fazenda que adotava práticas da agricultura convencional perdeu cerca de um quarto da produção de café. Enquanto isso, outra fazenda vizinha, com o sistema de agricultura regenerativa, não sofreu prejuízos.

O exemplo é citado pelo gaúcho Felipe Villela, 29, CCO e fundador da reNature, empresa com base na Holanda e representações no Rio de Janeiro e em São Paulo que presta assessoria técnica, monitora indicadores de performance e ajuda produtores e comunidades a terem acesso a recursos e créditos de carbono na transição entre os sistemas.

Nesta quarta-feira (4), Villela participou de um painel no South Summit Brasil, evento realizado de 4 a 6 de maio em Porto Alegre (RS), onde falou sobre agricultura regenerativa. A lista de empresas que têm projetos com a reNature, apresentada por ele, incluía nomes como JBS/Seara, Natura, Danone, e PVH (Calvin Klein e Tommy Hilfiger), em países como Brasil, Alemanha e Turquia.

Ele defende que a "agricultura convencional não está incluindo a natureza em seu design" e que, em meio às mudanças climáticas que têm gerado perdas em várias culturas, de diferentes commodities, isso não é mais uma opção.

"A questão é a gente se adaptar e criar uma resiliência contra esses efeitos climáticos. Como você cria essa resiliência? Melhorando as condições do solo e usando espécies para diversificar a produção e criar um microclima favorável. Assim, quando esses eventos adversos ocorrerem, você tem um sistema mais equilibrado ecologicamente falando", explica ele. "E quando você trabalha resiliência ambiental da paisagem, consegue trabalhar a sua resiliência econômica", completa.

O nascimento da empresa

Há 12 anos, quando ainda estava estudando engenharia de produção na PUC-RS, ele viajou de carro do Rio Grande do Sul a Rondônia e pôde conhecer de perto a situação do desmatamento na Amazônia brasileira. Foi assim, conta, que começou a se interessar pela questão da agricultura sustentável. O tema o levou para a Holanda, onde fundou anos depois sua empresa junto com Marco de Boer.

A reNature começou com uma ONG há cerca de quatro anos e meio e, um ano depois, passou a ser uma empresa privada, com estratégia de startup, atendendo a outras empresas privadas. Em 2020, Villela apareceu entre na lista brasileira Under 30 da revista Forbes.

A empresa diz que tem como objetivo aliar a natureza às práticas de agricultura e ajudar produtores a terem um futuro sustentável a longo prazo, com projetos que visam saúde do solo, segurança alimentar, resiliência climática e crescimento econômico.

Até o momento, já foram impactados 15 mil agricultores e cerca de 70 mil hectares de produção com os projetos já implementados, segundo o CCO. O site da empresa lista iniciativas em andamento em 18 países, incluindo Quênia, Índia, México e Indonésia. No Brasil, há 11 projetos listados, parte em estágio de busca por financiamento e outros em implementação.

Vantagens da agricultura regenerativa

Villela explica que a agricultura regenerativa é baseada em processos e em observar a natureza e entender suas necessidades, criando condições favoráveis, com integração de espécies. Algo que povos indígenas fazem há muitos séculos, lembra.

A agricultura convencional, por outro lado, é mais voltada ao que é preciso aplicar e quando, como o uso de agrotóxicos e insumos. "A agricultura regenerativa foca na resiliência climática, na melhoria do solo e nas questões do aumento de biodiversidade", diz.

Segundo Vilella, no Brasil, há resistência por parte dos produtores quando ouvem palavras como "sustentabilidade" ou "carbono", o que pode ser quebrado quando começam a observar os resultados do modelo na prática.

Um dos projetos em implementação, no município de Caravelas, na Bahia, visa a criação de um modelo economicamente viável de agrofloresta regenerativa em escala, numa região de mata Atlântica no Viveiro Anauá, em meio à produção de café e cacau.

Outro projeto, em Apuí, no Amazonas, também em estágio de implementação, foca em reflorestamento e plantações de café e tem o envolvimento de mais de 30 produtores locais -- número que, segundo o site da reNature, pode ser expandido para chegar a 500 produtores.

"Café é uma cultura que tem adaptabilidade maior e tem menos resistência de produtores em aderir a essas práticas, porque já é uma espécie que tolera 30% de sombreamento", destaca Villela.

Produção em perigo

Logo no início da sua fala no evento da capital gaúcha, ele citou uma projeção de que o mundo pode ter uma redução de 50% da produção de vinho e café nas próximas décadas se seguir as práticas atuais.

"O desequilíbrio do planeta hoje vem muito por conta de só estarmos abrindo novas áreas [para cultivo]. Por que a gente não regenera o que está degradado e produz em cima? É um pensamento muito a curto prazo -- investidores e produtores acabam só querendo a colheita o mais rápido possível, mas não estamos medindo o impacto disso para nossos filhos e netos", pontuou ele a Ecoa.

O South Summit Brasil é uma realização do governo do Rio Grande do Sul, da prefeitura de Porto Alegre e da empresa 4all. O evento conta com uma série de patrocinadores, como Sebrae, AWS e Gerdau. O UOL é parceiro de mídia. São cinco palcos simultâneos e oito trilhas de conteúdo — sobre agricultura e saúde, indústria 5.0, fintech, comércio, alimentação, sustentabilidade e ESG, sociedade, inovação e ecossistema.