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Grupo une pessoas vulnerabilizadas para criar floresta no DF: 'Colhe amor'

Coletivo Aroeira: dependentes químicos criam floresta produtivo (agrofloresta) como método de redução de danos - Reprodução/Instagram
Coletivo Aroeira: dependentes químicos criam floresta produtivo (agrofloresta) como método de redução de danos Imagem: Reprodução/Instagram

Marcos Candido

De Ecoa, em São Paulo (SP)

20/04/2022 06h00

Bruna Duarte, 27, afofa e cobre a terra com folhas e lascas de tronco. Depois, levanta e caminha entre os canteiros por uma trilha. O caminho e a cobertura do solo são feitos com o material da poda das árvores mais altas. As podas ajudam as árvores a crescer e o que sobra delas fortalece as mudas. O objetivo é imitar o funcionamento de uma floresta.

"Uma planta ajuda a outra", explica Bruna. "As próximas plantas vêm com mais força. Não jogamos a madeira fora: elas dão vitaminas para as outras. A gente poda para brotar de novo", acrescenta.

Há cerca de quatro anos, Bruna se julgava "desacreditada". Ela diz: "eu estava usando muita, muita droga". Hoje, ela é parte do coletivo Aroeira. O grupo usa a agrofloresta como método de redução de danos e inserção social no Distrito Federal.

O coletivo foi criado por psicólogas em 2018 e atende ex-profissionais do sexo, egressos do sistema prisional e pessoas em situação de rua com dependência química. Uma vez por semana, o grupo cultiva com ajuda de especialista. Mexer na terra é terapêutico e ajuda na criação de uma rede de apoio.

O cultivo é feito em um pequeno terreno em frente a um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) no Setor Comercial Sul. Os participantes também conheceram e revitalizaram terras vizinhas.

"A gente chega em um lugar que a vida está compactada e coloca vida nessa terra, entendeu? A gente planta e parece que a gente colhe amor", diz. "Cuidar da planta é mais ou menos como cuidar da gente e das pessoas". Depois do projeto, ela diz ter reduzido bastante o consumo. "Nunca pensei que seria escutada (...) Tomei coragem e aluguei um barraco", acrescenta.

Coletivo Aroeira: método de redução de danos aposta no cultivo agroecológico no DF - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Coletivo Aroeira: método de redução de danos aposta no cultivo agroecológico no DF
Imagem: Reprodução/Instagram

O que é a redução de danos e para que serve?

A redução de danos é uma tática para diminuir os danos contra a própria pessoa ou contra o próximo pelo uso abusivo de substâncias químicas ou comportamento de risco. Na linha teórica, é um pressuposto de que as pessoas não abandonarão a dependência, mas que é possível ajudá-las contra atitudes perigosas sem interná-las à força ou transformar em caso de polícia. A abstinência não é exigida, mas a redução de danos também pode diminuir ou acabar com o uso abusivo.

Em Portugal, algumas drogas foram legalizadas no início dos anos 2000, e o número de prisões relacionadas à droga despencou de 75% para 45%. Com ajuda de ONGs e do Estado, os portugueses passaram a distribuir seringas higienizadas, preservativos e água para diluir drogas.

A resolução do problema em Portugal mudou da área de segurança pública para a área da saúde. Dependentes químicos em estágio avançado de recuperação foram recrutados para acompanhar os que ainda precisavam de ajuda. Desde a mudança de áreas, os usuários de heroína caíram de 100 mil consumidores para cerca de 25 mil entre os portugueses. O Canadá também adotou ação semelhante.

Há mais de uma abordagem para a redução de danos.

Em São Paulo, na gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT), em 2015, dependentes químicos da Cracolândia recebiam R$ 15 para auxiliar na limpeza das ruas e recebiam hospedagem em hotéis da região, tratamento médico e odontológico. Segundo a prefeitura à época, foram feitos 54 mil atendimentos médicos.

Com 453 cadastrados, a administração Haddad afirmou que os roubos a veículos caíram 80% em um ano. Em 2016, 2 em 3 usuários atendidos diminuíram o uso de drogas. A administração de João Doria (PSDB), que assumiu a prefeitura no pleito seguinte, encerrou o programa, que tachava como "braços abertos para morte" (em referência ao nome do projeto do antecessor). Essa havia sido uma das principais promessas de campanha para se eleger.

Mexer com a terra ajuda

O coletivo Aroeiras escolheu a agroecologia como método terapêutico para redução de danos. Bruna diz que o espaço compartilhado com pessoas que não a julgavam e outras que tinham vivido histórias parecidas a ajudaram. "São pessoas que não me deixaram cair", diz.

O grupo conseguiu financiamento de instituições feministas internacionais e doações para pagar R$ 150 por dia para cada participante do projeto. Não havia contrapartida, nem exigências. O recrutamento foi feito com o auxílio da ONG Tulipas do Cerrado, que atua no Distrito Federal.

Os primeiros cultivos foram plantas medicinais, babosa, abacate e pézinhos de laranja e limões. Porém, em fevereiro de 2021, a Polícia Militar do Distrito Federal destruiu a horta orgânica do coletivo com a justificativa de que o espaço era usado para esconder drogas e facas. O solo já tinha árvores frutíferas e batata doce.

"Como empodera as pessoas em situação de rua, gerou certo desconforto, né?", diz. Mas o projeto não foi encerrado e continuou.

Além de psicólogos, os participantes contam com instrutores de agrofloresta. Diferentemente da agricultura convencional, a agrofloresta é um método sustentável de agricultura. Na prática, a tática tenta reproduzir uma floresta e exige dedicação e responsabilidade.

"Além de ir uma vez por semana para o trabalho, nós também criamos vínculo e mostramos alternativas para, assim, ir reduzindo os danos", explica o instrutor agrofloresta Renato Rocha.

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