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Iniciativas que inspiram

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No Rio, capoeirista leva alunos e vizinhos para recolher lixo do mangue

Capoeirista Marla recolhe lixo do mangue  - Arquivo pessoal
Capoeirista Marla recolhe lixo do mangue Imagem: Arquivo pessoal

Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo

15/03/2022 06h00

É no manguezal de Barra de Guaratiba (RJ) que Marla de Farias dá aulas de capoeira para a criançada da comunidade. A escolha do local é estratégica. "É um bom lugar para falar com eles sobre a natureza, os animais, sobre a importância de deixar tudo limpo, de cuidar do nosso lixo para que ele não seja descartado aqui e acabe prejudicando o mangue", conta.

Mestra de capoeira desde os 17 anos (hoje tem 47), Marla toca o projeto Raiz do Mangue, que iniciou em 2017 para levar educação ambiental — ou "treinamento de meio ambiente", como costuma falar — para os alunos. Sempre que possível, ela marca com a turma de retornar ao local com a missão de retirar o lixo jogado por lá.

Mas a iniciativa de limpar o mangue cresceu mesmo a partir do seu próprio exemplo. Em 2020, enquanto passava de bicicleta ou fazia suas caminhadas, Marla sempre observava a quantidade de coisas descartadas no mangue. Incontáveis garrafas PET dominavam o lugar. A lama sumia debaixo do plástico.

E quanto mais o lixo se acumulava, mais incômodo causava na professora - até que ela não aguentou mais e sentiu que precisava fazer algo para mudar a situação. "Eu percebi que não dava mais para ficar esperando alguém fazer alguma coisa. Pensei: 'esse alguém vai ter que ser eu'. Eu tenho que agir, não posso mais ir embora para casa e fingir que tá tudo certo".

Com pés e coração na lama

Capoeirista Marla recolhe lixo do mangue  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Alunos de Marla ajudam a recolher o lixo
Imagem: Arquivo pessoal

Sozinha, Marla percorreu todo o mangue atrás do lixo. Na primeira vez, saiu com dez sacolas, e aumentou a quantidade de resíduos retirados com o passar do tempo.

"Lá dentro, apesar de muita tristeza porque eu olhava ao redor e só tinha garrafa plástica, mesmo assim eu sentia uma paz de espírito por estar fazendo aquilo. Parecia que eu tava arrumando o mangue para uma festa, sabe? Fora que era gratificante começar a ver os caranguejinhos voltando a ter um espaço livre. Foi muito maneiro", conta.

Vendo a atitude de Marla, alguns vizinhos se emocionaram e sentiram vontade de fazer igual. Com a ajuda de dona Edilene, dona Fátima, seu Marcelo e seu Sérgio, ela retirava entre 30 e 50 sacos de lixo por dia no começo.

Com o tempo, cada vez mais gente quis se envolver com a ação. E as crianças, se divertindo com tudo isso, competiam para ver quem conseguia tirar mais lixo do manguezal.

"Meu sonho é reeducar essas crianças para que elas se tornem adultos menos agressivos, mais educados e compreensivos, com consciência ambiental para que não façam como a nossa geração tem feito. Que olhem de outra forma para o mundo", diz a capoeirista.

Capoeirista Marla recolhe lixo do mangue  - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Com a ajuda da população local, Marla chegou a recolher dezenas de sacos de lixo por dia
Imagem: Arquivo pessoal

O Brasil hoje tem cerca de 14 mil km² de áreas de manguezais, segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Eles são importantes em diversos aspectos para a saúde do planeta, principalmente porque as florestas de mangue são as que mais sequestram carbono da atmosfera.

Marla entende a importância desse ecossistema no dia a dia e pela conexão que criou com o local. Hoje não sabe exatamente quanto lixo que saiu dali, mas conta que, com o tempo, foi percebendo que a quantidade de sacolas foi reduzindo. Para ela, um sinal de que cada vez mais as pessoas ao redor estão nessa com ela.

"Pra mim, a natureza é de Deus, sabe? Tem que cuidar bem dela. É Deus. Não existe isso de botar o lixo do lado de fora. Não existe 'lado de fora' quando a gente pensa no nosso planeta. Onde é o lado de fora do planeta? Não tem, é tudo lado de dentro. Nossa casa. Tem que pensar para onde esse lixo vai, tem que cuidar da nossa mãe natureza, né?", conclui.

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