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Valentes: livro conta história de refugiados e ajuda no combate à xenofobia

Imagens do livro Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil - Reprodução
Imagens do livro Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil Imagem: Reprodução

Lílian Beraldo

Colaboração para Ecoa, de Brasília

11/03/2022 06h00Atualizada em 11/03/2022 13h02

A venezuelana Yennifer Zarate estava desempregada quando saiu de casa com a roupa do corpo, em janeiro de 2018, para escapar da crise no país em que nasceu e tentar encontrar um futuro melhor no Brasil. Não se despediu de ninguém e durante três dias enfrentou uma longa jornada — a pé ou de carona — para cruzar a fronteira em Roraima.

A congolesa Prudence Kalambay fugiu da guerra em seu país natal. Apaixonada pelas novelas brasileiras e acreditando que o país seria mais aberto a estrangeiros, ela desembarcou no Rio de Janeiro em 2008, com uma filha nos braços e grávida de outra.
Abdulbaset Jarour desembarcou em São Paulo sozinho e ainda ferido, depois de testemunhar todo tipo de atrocidade servindo por quatro anos ao Exército sírio.

A trajetória desses e de outros estrangeiros que buscaram no Brasil um lugar de refúgio e morada é o fio condutor do livro "Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil" (Editora Seguinte), de autoria das jornalistas Aryane Cararo e Duda Porto de Souza. "Foram dois anos de muita pesquisa, entrevistas e conversas com imigrantes e refugiados para a criação de um vínculo de confiança", explica Duda sobre o processo de apuração das histórias que compõem a obra.

Em Valentes, o leitor poderá acompanhar a história de 20 pessoas que foram forçadas a deixar seus países por serem vítimas de catástrofes, conflitos armados, perseguições, guerras ou ameaças. A obra dá voz a esses imigrantes e explica de forma bastante didática, lançando mão de infográficos e mapas, os diferentes contextos que levaram cada um deles a deixar sua terra natal.

O tema do livro se torna ainda mais urgente nos dias de hoje, com o surpreendente aumento de refugiados devido à guerra entre Rússia e Ucrânia. Na quarta-feira (9), o número de pessoas que fugiram do conflito superou a barreira de 2 milhões, o que constitui a crise de refugiados mais acelerada desde a Segunda Guerra Mundial, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). A ONU estima que até 4 milhões de pessoas abandonem o país devido ao conflito.

Histórias de amor e de luta

capa - Reprodução - Reprodução
Capa do livro Valentes: Histórias de pessoas refugiadas no Brasil
Imagem: Reprodução

Apesar de ter o refúgio como tema central, o livro não resume a vida dos estrangeiros à saída do país.

"A gente queria muito mostrar esse dia a dia de construir uma vida nova. São mães procurando espaço para os seus filhos em uma creche, procurando um atendimento no sistema de saúde. Histórias de vida que se aproximam das nossas. São coisas inerentes à condição humana, são histórias de amor e de luta."

Segundo as autoras, outro esforço empreendido durante a elaboração da obra foi o de tirar a questão da migração de um lugar de sofrimento. "Nas ilustrações, por exemplo, as pessoas sempre aparecem de cabeça erguida. A gente procurou não retratá-las em um lugar de vulnerabilidade, mas em um lugar de resiliência e de dignidade", afirma Duda, lembrando que o refúgio é uma questão humanitária.

"Quem está devendo algo pra essas pessoas é a sociedade. Não são pessoas que estão fugindo, são pessoas que tiveram as suas vidas e os seus direitos violados", explica.

Combate às fake news

O livro traz um apanhado histórico das principais leis de refúgio no país e uma seção inteira de fake news — mentiras e desinformações sobre imigrantes e refugiados que, para elas, precisam ser combatidas para a construção de uma sociedade mais solidária.

"As pessoas têm um pouco de resistência porque é um livro que toca em questões muito duras. A gente fez questão de mostrar, com dados, noções absolutamente erradas que muitos têm dos refugiados. O [erro] mais comum é achar que 'eles vêm tirar os nossos empregos'", afirma Duda.

No final de 2017, o total de imigrantes empregados no mercado de trabalho formal brasileiro era de 122 mil pessoas. À época, o Brasil tinha 38,3 milhões de empregos formais — o que significa que os imigrantes representavam apenas 0,31% do total de empregados no país.

Já a taxa de desemprego é maior entre os refugiados do que entre os brasileiros. Em 2018, do total de refugiados que viviam no estado de São Paulo, 38% estavam desempregados, enquanto o índice entre os brasileiros era de 13%, segundo o Atlas de Migração do Estado de São Paulo, do Núcleo de Estudos de População da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O desemprego é ainda mais cruel com as mulheres refugiadas, com uma taxa de 55%.

Outra mentira bastante difundida é a de que "se estão fugindo é porque boa coisa não fizeram". Refugiados, entretanto, não são foragidos ou fugitivos por crimes. Muitos fogem de zonas de guerra e conflitos — caso atual dos ucranianos, na Europa. Outros são perseguidos por sua religião, posicionamento político divergente ou por defesa aos direitos humanos. Em alguns países essas questões podem ser suficientes para que as pessoas corram risco de morte e, por isso, sejam obrigadas a deixar seus lares.

"Pode acontecer com qualquer pessoa"

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Aryane Cararo e Duda Porto de Souza, autoras do livro
Imagem: Divulgação

Voltado para o público jovem, o livro quer colocar o leitor no lugar do outro e, assim, ajudar no combate à xenofobia ao trazer informações verídicas e fazer um retrato mais humano dos refugiados, avalia Aryane Cararo, uma das autoras.

"Valentes foi planejado pensando no combate à xenofobia. Nós tínhamos um interesse muito grande em trazer mais empatia para a questão dos refugiados. A gente via muitas fake news e queria que as pessoas soubessem, com fatos e informações reais, qual a dimensão desse problema que é um dos maiores da atualidade em termos humanitários — ainda mais agora com essa crise na Ucrânia", afirma Aryane.

"Essa não é uma questão do outro. Ela pode eventualmente acontecer com você. Um dia está tudo bem no seu país e, de repente, as coisas vão piorando ou acontece uma guerra ou por outras questões você é obrigado a procurar outro lugar, como aconteceu na Venezuela", completa.

A crise climática também pode obrigar pessoas a deixarem seu país. A ONU prevê que o mundo terá 1 bilhão de refugiados por alterações climáticas até 2050.

Questão urgente também no Brasil

A disseminação de fake news tem contribuído para o crescimento da xenofobia no mundo. O Brasil também tem protagonizado episódios recentes de preconceitos contra estrangeiros, como o assassinato do congolês Moïse Mugenyi Kabagambe, de 24 anos, em janeiro deste ano. Ele chegou ao país em 2011 como refugiado, escapando de uma guerra civil em seu país de origem, e morreu depois de ter apanhado de um grupo de homens num quiosque da Barra da Tijuca, zona oeste da capital fluminense.

prudence - Reprodução - Reprodução
Ilustração retrata Prudence Kalambay
Imagem: Reprodução

Conterrânea de Moïse, Prudence Kalambay — uma das refugiadas retratadas em Valentes — diz que sente o crescimento da xenofobia e do racismo no Brasil desde que chegou ao país, há 14 anos.

Mulher, negra, africana, artista e mãe solo, Prudence conta que sente na pele a discriminação e critica a falta de valorização do seu trabalho. "O cachê, por exemplo, é menor. Não somos chamados para trabalho com frequência. E, muitas vezes, é trabalho voluntário. Há uma valorização da boca pra fora e não na prática", critica.

"As pessoas dizem: 'você é guerreira'. Não é isso que eu quero ouvir. Se realmente gosta do que eu faço, que me dê oportunidade. Eu não mendigo dinheiro a ninguém. Eu peço trabalho."

Mãe de 5 filhos (a mais velha com 20 anos e o mais novo com 7), a ativista lamenta ainda não ter uma residência fixa para cuidar da família, mas diz que se sente segura na região em que vive — a Zona Leste de São Paulo — por estar perto da "família africana". No local, há uma concentração grande de imigrantes vindos de Camarões, Nigéria, Congo, Guiné e Angola.

"Qualquer coisa, um ajuda o outro. Você vai trabalhar, tem que sair, vai fazer algo, tem a irmã que vai estar lá para olhar os seus filhos", diz.

O sonho de conseguir uma vida boa e digna aos filhos ainda não se concretizou, mas Prudence não deixa de lutar e de gritar por seus direitos. Apesar de reconhecer que as mudanças na sociedade são lentas, ela acredita que, com sua história, está contribuindo ao abrir portas para outros que virão depois. "É uma luta, uma construção. Outro migrante ou pessoa refugiada que chegar [ao Brasil] vai encontrar o caminho já traçado. E isso faz muito sentido para mim."

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