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População de palmeiras se multiplica e ameaça Parque Trianon, em SP

A retirada das palmeiras mais altas é feita com guindaste - Luciano Amaral
A retirada das palmeiras mais altas é feita com guindaste Imagem: Luciano Amaral

Danilo Casaletti

Da Republica.org

09/03/2022 06h00

"Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá...". Sem fazer qualquer troça com o poema Canção do Exílio, obra-prima romântica do poeta brasileiro Gonçalves Dias, nem toda palmeira é apropriada para se plantar em qualquer área, sobretudo de preservação ambiental. E também nem todas atraem pássaros e seus gorjeios.

À primeira vista, a da espécie Seafórtia (Archontophoenix cunninghamiana), também conhecida como palmeira-australiana ou palmeira-real, é vistosa e ideal para o paisagismo. Mas ela tem sido, há anos, um grande problema para o Parque Trianon, área remanescente de Mata Atlântica que ao longo dos séculos resistiu ao tempo e à especulação imobiliária da Avenida Paulista.

Desde setembro de 2019, as palmeiras seafórtias vêm sendo retiradas do Trianon em um projeto liderado pela Prefeitura de São Paulo que conta com apoio de pesquisadores, biólogos e membros da ONG SOS Mata Atlântica.

Isso foi necessário porque, exótica — é originária da Austrália, como um de seus nomes populares indica —, a palmeira seafórtia é uma das protagonistas de uma verdadeira invasão biológica no local, prejudicando a flora e a fauna do parque. No caso das plantas, há competição por água e nutrientes no solo.

A folha é grande e escura, o que causa o sombreamento no sub-bosque — a vegetação mais baixa —, prejudicando seu crescimento. Essa interceptação faz com que as espécies nativas do parque desviem das palmeiras em busca de luz. Ao fazer esse movimento, elas ficam inclinadas, o que pode causar sua queda ao longo dos anos.

Para os animais que habitam o parque — há aves, mamíferos e anfíbios por lá, além de invertebrados —, a seafórtia também não é interessante. Além de provocar o empobrecimento da flora nativa, seus frutos, conhecidos popularmente como coquinhos, não são atrativos para os pássaros, por exemplo.

Até o momento, das cerca de 700 palmeiras que existiam por lá, 638 já foram removidas. Falta retirar as mais altas: algumas chegam a 20 metros de altura, o que requer equipamentos maiores, como guindastes.

As novas mudas prontas para serem plantadas - Luciano Amaral - Luciano Amaral
As novas mudas prontas para serem plantadas
Imagem: Luciano Amaral

No lugar delas, foram plantadas palmeiras jerivás, juçaras e outras 81 espécies nativas da Mata Atlântica. O plantio já está em fase final. Financiado pelo Fundo Municipal de Meio Ambiente (Fema), ele custou R$ 1,8 milhão.

Luciano Amaral Ribeiro, engenheiro agrônomo e assessor técnico da Divisão de Gestão de Parques Urbanos (DGPU) da Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente (SVMA), responsável pelo projeto, acredita que os trabalhos devem ir até setembro.

Para ele, já é possível observar os resultados. "O Trianon era um parque muito fechado. Agora, ele está mais aberto. A luz entra melhor, o sub-bosque está crescendo", explica Ribeiro, que acompanha o projeto desde 2017, quando ainda estava em planejamento.

O engenheiro agrônomo explica que preservar áreas de Mata Atlântica, como o Trianon, é fundamental. "São nossos bancos de germoplasma, e árvores matrizes das quais podemos pegar sementes e reproduzi-las em nossos viveiros. Dessa forma, podemos plantá-las em outras áreas e parques", afirma.

Em 10 anos, população de palmeiras mais que dobrou

No Parque Trianon, as sementes das palmeiras encontram o ambiente ideal para vingarem. A mata alta e fechada, a umidade e o controle de temperatura no local faz com que elas se tornem perfeitamente viáveis. "Um cacho tem 5 mil sementes que caem e logo se transformam em mudinhas. De tempos em tempos, retiramos cerca de 150 delas", conta.

O primeiro levantamento da quantidade da seafórtia no Trianon foi realizado em 2007 e apontou a existência de 300 delas no local. Desde essa época, os especialistas já apontavam a necessidade do controle desse tipo de árvore.

Em 2017, quando o projeto começou a tomar forma, já havia 700 palmeiras no parque.

Antes do Trianon, entre 2006 e 2007, a Universidade de São Paulo (USP) já havia realizado um programa contra a invasão biológica da seafórtia dentro de suas dependências. Em um primeiro momento, foi feito o manejo das sementes em vez da retirada das palmeiras, ou seja, um técnico subia nas árvores e retirava essas sementes, para que elas não caíssem no solo e brotassem.

Porém, ao longo do tempo, foi observado que esse não era o melhor procedimento — além das já existentes, havia no solo um enorme banco de sementes —, o que serviu para balizar o projeto desenvolvido no Trianon.

A madeira das palmeiras removidas, segundo o engenheiro agrônomo, é pouco aproveitada, pois, em dois anos, apodrece e é descartada. Por isso, geralmente é usada apenas para contenção de barrancos em outros parques municipais ou doada para artistas, que fazem o pedido para a prefeitura.

Outros parques da cidade de São Paulo (são 108 ao total) também enfrentam invasões de espécies exóticas. O Anhanguera, o maior da capital, com 9 milhões de metros quadrados e área remanescente de Mata Atlântica, tem predominância de eucaliptos. Quando as árvores morrem, são substituídas por espécies nativas.

Outras espécies ameaçam o Trianon

O botânico e paisagista Ricardo Cardim, autor do livro Remanescentes da Mata Atlântica: as grandes árvores da floresta original e seus vestígios (Ed. Olhares, 2018) acompanha o projeto de retirada das palmeiras seafórtias desde o começo.

Ele, que já foi consultor da SOS Mata Atlântica, diz que desde 2010 a ONG pressiona a prefeitura para que a remoção das invasoras fosse feita, embora alguns biólogos estivessem contra à época. "Era urgente. Não era uma achismo. Acredito que nossa mobilização foi importante", afirma. Cardim diz que a situação da invasão biológica se torna mais importante quando acontece em uma área fragilizada por sua situação urbana, como o Trianon.

Cardim acompanha o projeto de maneira informal e esteve no parque em janeiro. Ele afirma que a retirada das estrangeiras foi, de fato, benéfica. "É nítido. É possível ver a Mata Atlântica brotando com o novo acesso de luz graças à retirada das palmeiras. O banco de sementes germinou. São espécies ancestrais que estavam impossibilitadas de brotar pela competição com as exóticas. Elas agora começam a enriquecer a biodiversidade do parque e recuperam em parte o que foi aquela área original de floresta séculos atrás", diz. Nessa lista estão o tapiá e a embaúba, por exemplo.

O botânico diz que o Trianon é o fragmento de Mata Atlântica mais bem preservado da região central da cidade. É a área onde ficava a Caaguaçu, a mata grande em tupi, que cobria todo o espigão onde hoje está a avenida Paulista e dividia as bacias do Rio Tietê e Pinheiros. Com a crescente urbanização, ela ficou isolada de outras manchas de florestas, o que a deixa fragilizada.

O Trianon, quando foi urbanizado, por volta de 1890, sofreu com o corte indiscriminado de árvores para o plantio de espécies estrangeiras de paisagismo. "Eram pessoas que não entendiam como a Mata Atlântica funcionava. Esse processo se repetiu algumas vezes ao longo do século 20", explica Cardim.

A madeira das palmeiras - Luciano Amaral - Luciano Amaral
A madeira das palmeiras
Imagem: Luciano Amaral

Sobre as seafórtias há duas possibilidades: ou elas foram inseridas pela ação humana ou por pássaros que possam ter levado suas sementes até o Trianon — ou até mesmo os dois. Há registros dessas palmeiras plantadas na cidade, no Vale do Anhangabaú, por exemplo, desde os anos 1920.

Apesar de atestar o sucesso da retirada das palmeiras estrangeiras do parque, Cardim diz que ainda há muito a ser feito para preservar o que resta da Mata Atlântica na área.

"O Trianon ainda está doente. É imprescindível que todas as palmeiras sejam retiradas. Além disso, há outras espécies estrangeiras, como a palmeira da china e a dracena que prejudicam a floresta. É preciso ter ações constantes de erradicação de invasoras. Em qualquer país sério, o Trianon seria considerado um museu vivo", diz o biólogo.

Cardim também defende o enriquecimento biológico do parque. Segundo ele, é preciso plantar espécies nativas como cambucis e perobas. De cauaçu ou cauassu, uma planta de folhas enormes, há apenas um exemplar no Trianon, segundo Cardim. Se ela morrer, seria o fim da espécie nessa área.

Ele diz que o destino das florestas que sobreviveram em áreas urbanas também está nas mãos dos colegas paisagistas — e, embora o Brasil seja rico em biodiversidade, 90% das plantas usadas em jardins e parques são exóticas. "Se ele criar um projeto que considere lindo, a 100 metros do Trianon, pode ser que esse jardim, daqui a 20 anos, destrua o parque por inteiro. Pode ser a semente da destruição. É quase como incendiar a floresta."

A ajuda da população é igualmente essencial. Embora uma lei da prefeitura de São Paulo estabeleça que é proibido plantar espécies exóticas em áreas e vias públicas, não é bem isso que ocorre — e falta fiscalização.

Para quem estiver disposto a colaborar, basta escolher uma espécie nativa. Para áreas dentro de floresta, a melhor opção é o palmito juçara, ao qual Cardim chama de "padaria da floresta". "É uma palmeira linda, elegante, nativa da cidade, que alimenta mamíferos, pássaros e insetos", afirma o botânico.

Outras boas alternativas para espalhar pela cidade são as frutíferas da Mata Atlântica, como o cambuci, pitanga, grumixama, cereja brasileira e araçá. No site da Secretaria Municipal de Verde e Meio Ambiente é possível encontrar o Inventário da Biodiversidade do Município de São Paulo (2016) para ajudar nessa busca pela árvore ideal.

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a Republica.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.

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