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Desigualdade

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Absorvente biodegradável de uso interno e externo combate pobreza menstrual

Ao destacar o absorvente externo ao meio, é possível confeccionar dois absorventes internos, enrolando cada uma das partes menores - Divulgação
Ao destacar o absorvente externo ao meio, é possível confeccionar dois absorventes internos, enrolando cada uma das partes menores Imagem: Divulgação

Antoniele Luciano

Colaboração para Ecoa, de Curitiba (PR)

26/02/2022 06h00

Foi pensando principalmente em pessoas em situação de rua que a designer de produto Rafaella de Bona Gonçalves, 24 anos, de Curitiba (PR), desenvolveu o projeto de um absorvente biodegradável que pode ser usado de duas maneiras — interna e externamente. Batizada de "Eu. Faço Parte", a iniciativa foi vencedora na categoria "corpo" do concurso Diseño Responde de 2021, premiação latino-americana voltada a soluções criadas por jovens para problemas dessa região. A conquista entre 400 inscritos de 13 países da América Latina levou o projeto à final da premiação mundial Index Award, que aconteceu na Dinamarca no fim do ano passado.

Rafaella explica que a ideia de trabalhar com o tema da pobreza menstrual a acompanha desde 2018. Naquele ano, ela se envolveu em um curso voltado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). "Uma das metas era erradicar a pobreza em todos os lugares e formas. Eu fiquei pensando que outras formas e lugares seriam esses. Na época, fiquei chocada ao conhecer o que era pobreza menstrual", recorda.

Precariedade

Rafaella Gonçalves, criadora do absorvente biodegradável - Divulgação - Divulgação
Rafaella Gonçalves, criadora do absorvente biodegradável
Imagem: Divulgação

O problema da pobreza menstrual é caracterizado pela falta de acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento sobre cuidados com a menstruação. Essa precariedade atinge não só populações marginalizadas, mas também privadas de liberdade, podendo levar à perda de dias de trabalho e afastamento escolar. No Brasil, segundo o Fundo das Nações Unidas para Infância (Unicef), 713 mil meninas ainda vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa. Mais de 4 milhões sequer têm acesso a cuidados mínimos menstruais em escolas, como banheiros com pias, papel higiênico e sabão.

Para conhecer mais sobre essa realidade, Rafaella foi em busca de pessoas em situação de vulnerabilidade, a fim de ouvi-las e entender suas demandas. Fez mais de 100 entrevistas com mulheres que vivem nas ruas e adolescentes de baixa renda. Ela também levou a questão para os estudos que desenvolveria no curso de Design de Produto, na Universidade Federal do Paraná (UFPR). "Em 2019, desenvolvi um absorvente, na época chamado Maria, e a partir dele comecei a receber feedbacks dessas pessoas sobre como melhorá-lo", comenta. As mudanças vieram no projeto "Eu. Faço Parte", que integra o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da designer, realizado em 2020.

Produto ecológico

Verso do absorvente - Divulgação - Divulgação
Verso do absorvente
Imagem: Divulgação

O desenvolvimento da nova proposta levou cerca de quatro meses. O projeto passou então a contar com uma visão ecológica e mais inclusiva. A ideia é produzir os absorventes com algodão orgânico certificado, que, por ser biodegradável, apresentaria menos impacto ao meio ambiente. A previsão de decomposição para essa matéria-prima é de cerca de seis meses, enquanto a de um absorvente comum leva em média 100 anos.

A parte dos adesivos para prender a peça na roupa íntima, por sua vez, seria feita com amido de milho. Além disso, o design do produto permite escolher de que forma usá-lo. Ao destacar o absorvente externo ao meio, seria possível confeccionar dois absorventes internos, enrolando cada uma dessas partes menores.

A embalagem, feita de papelão, não tem distinção de gênero - Divulgação - Divulgação
A embalagem, feita de papelão, não tem distinção de gênero
Imagem: Divulgação

A intenção é não usar químicos nem plásticos e respeitar as preferências e condições de quem usa o produto, salienta Rafaella. "Pessoas em situação de rua, por exemplo, estão em um contexto extremo, sem condições de higiene e até sem roupas íntimas para usar o absorvente externo. Ao mesmo tempo, os absorventes internos também não são tão populares no Brasil. Mesmo assim, eu não quis tirar a capacidade de escolha das pessoas", explica a designer, ao pontuar que a dificuldade de acesso à água limpa inviabiliza o uso de coletores menstruais ou absorventes de pano por pessoas em situação de vulnerabilidade.

Inclusão

Rafaella relata que priorizou, desta vez, a criação de uma embalagem de papelão sem distinção de gênero e capaz de representar tanto mulheres como pessoas intersexo e homens trans que menstruam. "É muito gratificante usar minha profissão para ajudar outras pessoas, conseguir oferecer caminhos, sempre ouvindo quem faz parte da questão", observa.

Ao desenvolver o projeto, a designer idealizou também uma campanha de vendas no sistema one-for-one, no qual um produto é doado a cada compra realizada. Hoje, ela está em busca de financiamento para a construção do maquinário que permitirá a produção do absorvente.

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