PUBLICIDADE
Topo
Final feliz

Final feliz

HQ Arlindo é uma carta de amor para jovens LGBTQIA+

O personagem Arlindo - Luiza de Souza/Divulgação
O personagem Arlindo Imagem: Luiza de Souza/Divulgação

Lílian Beraldo

Colaboração para Ecoa, de Brasília (DF)

18/02/2022 06h00

Em uma cidade do interior do Nordeste, um menino gay de 15 anos tenta encontrar o seu lugar no mundo e no microcosmo que habita — a família, a escola e a vizinhança. Crescido sob a criação machista do pai, Arlindo Júnior enfrenta várias situações típicas da adolescência: o bullying na escola, as primeiras paixões, o medo de expor os sentimentos na própria casa.

A história, criada pela ilustradora Luiza de Souza, 29, nasceu despretensiosa, mas vem tomando conta do Twitter há dois anos. Foi na rede social que Luiza começou a postar as primeiras tirinhas de Arlindo. Semanalmente, os seguidores esperavam ansiosos pelas novas páginas e aventuras do garoto. No ano passado, após um financiamento coletivo, a webcomic foi lançada em formato de livro, pela editora Seguinte.

"A intenção de postar essas páginas no Twitter era para construir conversas. Eu queria que as pessoas conversassem sobre aquela história, que se identificassem, eu queria que elas mostrassem para as outras, e o Twitter era a melhor plataforma para que essa conversa acontecesse. E isso aconteceu muito naturalmente. As páginas mais emocionantes, que as pessoas ficavam mais balançadas, sempre têm muita gente conversando nos comentários e contando suas próprias histórias", diz Luiza, contabilizando que só o primeiro episódio já teve 450 mil visualizações.

Nascida em Currais Novos, no interior do Rio Grande do Norte, ela conta que não criou a história com a intenção de viralizar. "Eu fiz uma história que eu queria ler."

Para construir Arlindo e as situações que ele vive, Luiza contou com as próprias memórias. O fato de ter sido criada em uma cidade nordestina também foi incorporado ao quadrinho. O aspecto regional é bastante marcado, tanto no modo de falar dos personagens, como no jeito de lidar com a família, nas vestimentas e até mesmo na relação com a comida.

Luiza afirma que há uma lacuna muito grande de conteúdo LGBTQIA+ com representatividade positiva, principalmente para os jovens. "A gente cresce como se isso fosse um assunto proibido", destaca.

"Quantas histórias você não conhece de pessoas que são LGBTs numa família? Essa história só é contada em voz baixa, para ninguém escutar, para deixar quieto. Eu venho de uma cidade muito pequena, onde isso aconteceu o tempo inteiro. E acredito que essas histórias merecem ser contadas. A gente é muito acostumado a se esconder nesse sentido. Eu acho que a minha vontade em fazer Arlindo é construir esses espelhos."

A ilustradora Luiza de Souza, criadora do Arlindo - Caroline Macedo (@caroldasfotos) - Caroline Macedo (@caroldasfotos)
A ilustradora Luiza de Souza, criadora do Arlindo
Imagem: Caroline Macedo (@caroldasfotos)

Repleto de referências aos anos 2000, a webcomic conta as primeiras descobertas amorosas do adolescente, suas decepções, o sentimento de solidão no mundo e de incompreensão. "Lindo", como é chamado pelos melhores amigos, gosta de Sandy e Junior e Rebelde, frequenta a escola, é curioso, ajuda a mãe com os afazeres domésticos e assiste a filmes na casa dos amigos. O jeito sensível, entretanto, acaba sendo alvo de bullying dos colegas e do próprio pai.

A ideia de Arlindo começou a tomar forma logo após as eleições de 2018, com a polarização das conjunturas política e social. A história do jovem gay nordestino, então, é para a autora uma manifestação de amor frente ao discurso de ódio.

"Tem uma coisa que eu coloco em todas as dedicatórias: esse livro é uma carta de amor. Eu acho que isso é o que eu quero dizer com essa história. Que é uma carta de amor não só para Arlindo, não só para a família dele, não só para pessoas que se veem como ele, mas para mim. É uma carta de amor de mim para todo mundo que se sente assim", declara.

Financiamento de sucesso

capa - Reprodução - Reprodução
Capa da HQ Arlindo
Imagem: Reprodução

A ideia de transformar as histórias de Arlindo em livro contou com um empurrãozinho especial: o engajamento e o apoio dos leitores fieis. Apenas durante a pré-venda, 5 mil exemplares foram vendidos. A campanha de financiamento foi lançada em dezembro de 2020, e a meta estabelecida para a campanha — cerca de R$ 80 mil — foi batida em 24 horas.

"Foi uma loucura! O livro ia ser brochura, normal, mas acabamos conseguindo ser capa dura. A gente conseguiu ainda fazer a doação do livro para bibliotecas comunitárias e instituições que apoiam [a população] LGBTQIA+ do Brasil inteiro. Foi uma coisa muito louca e muito linda essa campanha", lembra Luiza. O valor alcançado passou de R$ 385 mil, o equivalente a 455% da meta inicial.

Um dos leitores a acompanhar os quadrinhos semanalmente e a ajudar a financiar a campanha foi o estudante Jander Lopes, 20. Nascido no interior da Bahia, o universitário afirma que "se viu" várias vezes durante a leitura da webcomic.

"Principalmente nos momentos mais difíceis, quando ele [Arlindo] duvida de si mesmo ouvindo as pessoas ao seu redor lhe julgando por ser apenas ele mesmo. Mas também fiquei feliz quando sua mãe o abraça — eu senti que a dona Angela da HQ era a minha mãe. E isso me fez chorar ao perceber que talvez aquilo pudesse ter acontecido comigo", confessa o jovem estudante de engenharia de materiais da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

Jander comprou ainda outros exemplares de Arlindo para doação "esperando que mais jovens LGBTQIA+ tenham acesso a esse abraço".

Novos passos

Em fevereiro, Luiza pretende lançar um documentário sobre o processo criativo e as referências para a criação de Arlindo. O trailer do documentário foi lançado no YouTube no final do ano passado.

O UOL pode receber uma parcela das vendas pelo link recomendado neste conteúdo.

Final feliz