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Indicado ao Oscar, 'Onde eu Moro' retrata o lado humano de uma crise

Cena do filme "Onde eu Moro", codirigido por um brasileiro - Divulgação/Netflix
Cena do filme "Onde eu Moro", codirigido por um brasileiro Imagem: Divulgação/Netflix

Paula Rodrigues

De Ecoa, em São Paulo (SP)

11/02/2022 06h00

"Crise humanitária" - assim o padre Júlio Lancellotti tem definido o que pode ser visto a olho nu em grandes cidades do Brasil: o aumento da população vivendo nas ruas. Fora daqui, em lugares como Los Angeles, São Francisco e Seattle, a cena é a mesma, e governos declararam estado de emergência por causa do crescimento no número de desabrigados.

Essa realidade encontrada nas ruas dos Estados Unidos foi registrada entre 2017 e 2020, e "Onde eu moro" (2021) é o resultado disso. Indicado ao Oscar na categoria de documentário em curta-metragem, o filme da Netflix pode marcar a primeira vez que o Brasil conquista a premiação, já que a direção é dividida entre o estadunidense Jon Shenk e o carioca Pedro Kos.

Por meio de entrevistas com pessoas em situação de rua, conhecemos mais sobre as histórias de quem precisa se virar, muitas vezes sozinho ou sozinha, para conseguir sobreviver. "Onde você come? Como toma banho? Onde dorme? Quem te ajuda quando você precisa de algo?" são algumas das perguntas feitas. Mais do que mostrar a vida dessa população, a obra pinta na tela de forma muito explícita o lado humano de uma crise, mostrando como ela afeta as pessoas, deixando-as cada vez mais vulneráveis a problemas diversos, como violência e abusos.

"Onde eu Moro" apresenta a versão dessas pessoas sobre o que está acontecendo à nossa volta. Sobre a realidade que vivemos hoje. Ao ver o filme, assistimos do lado de fora ao que acontece dentro das casas. Da rua, observamos pelas janelas a vida que acontece dentro de um teto contrastada com o viver nas ruas.

Enquanto uns comem em restaurantes, outros não têm o que comer. Os dias frios aquecidos dentro de casa em nada se parecem com os de uma mãe solo que passa a tarde toda em uma biblioteca pública com os dois filhos porque esse é o único lugar quente que ela tem a oferecer a eles.

No decorrer do filme, conhecemos os motivos que levaram os entrevistados a ficar sem teto: os altos níveis de desemprego no país; o preconceito contra pessoas com deficiência, o que dificulta o acesso ao mercado de trabalho; famílias que não aceitam filhos e filhas transexuais e os expulsam de casa; problemas de saúde mental; ter que escolher entre alimentar os filhos ou pagar o aluguel.

Aluguéis, inclusive, cada vez mais caros, como mostra o documentário - o que tem contribuído para o aumento da população sem-teto. Proporcionalmente, as casas e prédios vazios também aumentaram. "Onde eu Moro", de forma sutil, registra também essa desigualdade que permite tanta gente não ter onde morar, enquanto tanto prédio está abandonado nos centros das grandes cidades.

Enquanto isso, pessoas, coletivos e organizações da sociedade civil lutam para ajudar essa parte da população do jeito que dá. Os que estão em situação de rua não pedem muito, apenas o básico: comida, moradia, cuidado, atendimento médico e às vezes um ombro para chorar e ouvidos que possam escutar sobre o que passam e a vontade de sair desse lugar.

Se olhar para o lado e ver essa realidade acontecer na porta de nossas casas não é suficiente, "Onde eu Moro" pode nos ajudar a entender melhor o que significa dizer que se vive hoje uma crise humanitária pelas ruas. E o filme alerta: algo precisa ser feito já, soluções precisam ser encontradas. Porque o "tsunami da falta de moradia", com a crise econômica, pode alcançar cada vez mais gente.

A premiação do Oscar acontecerá dia 27 de março em Los Angeles, e você pode já assistir ao filme pela Netflix.

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