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Iniciativas que inspiram

Iniciativas que inspiram

Trabalho e acesso a documentos são maiores demandas de refugiados, diz OSC

Wellthon Leal, assessor nacional da Cáritas Brasileira, com crianças de famílias assistidas pela organização - Divulgação
Wellthon Leal, assessor nacional da Cáritas Brasileira, com crianças de famílias assistidas pela organização Imagem: Divulgação

Bianca Borges

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP)

08/02/2022 06h00

Há mais de três anos morando no Brasil, o migrante Charles Jean Baptiste traz no peito o símbolo do país que deixou após sofrer perseguições e ameaças de morte. O pingente com a bandeira do Haiti na correntinha que ele tem no pescoço não é a única recordação que o migrante de 36 anos guarda da nação caribenha. Lá, o professor e ativista deixou pai, mãe, irmãos e outros familiares, além de dezenas de amigos.

Formado em Pedagogia, Charles era professor primário e liderava uma associação política que lutava contra a estrutura política local. Ele dava aulas de história, francês e créole (idioma oficial do país).

O haitiano Charles Jean Baptiste foi atendido pela Cáritas no Paraná ao migrar para o Brasil - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O haitiano Charles Jean Baptiste foi atendido pela Cáritas no Paraná ao migrar para o Brasil
Imagem: Arquivo pessoal

A adaptação dele e da família não foi fácil por aqui, mas não se comparava ao clima de perseguição e dificuldades que vivia no país de origem. Em Maringá (PR), Charles contou com a ajuda da Cáritas, um organismo internacional ligado à Igreja Católica, para obter documentos e começar a vida nova. "A Cáritas nos ajuda em tudo. Ajuda a fazer documentos, a ir a uma escola para aprender português e ajuda quem tem problemas para conseguir uma casa, um trabalho e até alimentação". Durante alguns meses, ele recebeu também doações de cestas básicas.

Como não consegue validar seu diploma haitiano de professor, ele tem recorrido a empregos em outras áreas, como pintor e estoquista em uma loja. Mas ainda mantém o sonho de estudar ciência política em uma universidade no Brasil.

A história de Charles não é muito diferente da maioria dos migrantes e refugiados que tentam a sorte no Brasil, que tem oferecido uma paisagem difícil e cada vez mais hostil para esse grupo. A repercussão do assassinato de Moïse Mugenyi Kabagambe, na última semana, no Rio de Janeiro, tem levado muitos brasileiros a refletir sobre a questão dos refugiados. "Acho que a primeira coisa que devem refletir é sobre se colocar no lugar do outro", defende o sociólogo e assessor nacional da Cáritas, Wellthon Leal.

Segundo Leal, a principal questão hoje é o acesso básico às condições de vida, ou seja, assegurar ao migrante o mínimo para tentar uma vida melhor da que se tinha no país de origem. "O principal desafio ainda é a garantia de um meio de subsistência e a regularização de documentos para estar no país. Esses processos por vezes são longos.".

O sociólogo acredita que a xenofobia no país não vai cessar enquanto o racismo estrutural estiver em nossa sociedade.

"A medida mais urgente é o acolhimento digno para todos os migrantes que chegam ao país através da estrutura do Estado. O primeiro passo é tratar o migrante, o 'de fora', assim como nós brasileiros gostaríamos de ser tratados quando migramos para o Canadá ou Alemanha, por exemplo: com dignidade e respeito, tal como todo cidadão brasileiro deve ser tratado."

Wellthon Leal, o sociólogo e assessor nacional da Cáritas

Acesso a documentação e trabalho são principais demandas

De acordo com a Organização da Sociedade Civil (OSC), as demandas de migração no Brasil são diversas e vão desde o acesso à documentação até oportunidade de emprego e geração de renda. Muitas pessoas precisam de ajuda também para garantir necessidades emergenciais de moradia e alimentação.

Como exemplo de acolhimento e atuação da rede, há o projeto emergencial Orinoco Águas que Atravessam Fronteiras, que atende a população Venezuelana com a disponibilização de espaços para usarem o banheiro, beberem água, lavarem suas roupas e aprenderem sobre formas de garantir a higiene neste contexto de pandemia. Esse projeto também atua na frente de proteção, a fim de garantir apoio no campo de direitos para a população migrante.

Como a atuação é capilar, os números de atendimento local estão sob a responsabilidade de cada regional, com base na sua atuação, mas, para se ter uma ideia do alcance, em um dos projetos realizados pela Rede Cáritas só em Roraima, mais de 17.500 migrantes que chegaram da Venezuela foram atendidos com serviços de acesso à água, saneamento e higiene desde 2019.

Em que frentes a organização atua:

  • Apoio no acesso à documentação;
  • Apoio e formação para garantir acesso ao mercado de trabalho (iniciativas de conectar migrantes e empreendedores, promoção de cursos e capacitação);
  • Garantia de segurança alimentar, através de experiências de distribuição de cestas e cartões para compras no comércio local;
  • Garantia do acesso a instalações de água, saneamento e higiene (locais com duchas, banheiros, bebedouros e lavanderias);
  • Acesso à informação;
  • Acesso e promoção de higiene (formações voltadas para saúde e distribuição de kits de higiene).

É possível ajudar como voluntário ou fazer doações de itens para leilão, alimentos, roupas e outros objetos, além de valores em dinheiro. Acesse o site da Cáritas para mais informações.

Para ajudar a associação de Charles no Paraná, visite a página no Facebook ou o perfil da associação no Instagram.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do que a reportagem dizia, a Cáritas não é uma organização não governamental (ONG), mas sim uma organização da sociedade civil (OSC). O texto foi corrigido.

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