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Com sessões de cinema e debates, supervisora do IBGE estimula funcionários

Rosinadja Morato implementou sessões de cinema e debates para motivar funcionários - Arquivo pessoal
Rosinadja Morato implementou sessões de cinema e debates para motivar funcionários Imagem: Arquivo pessoal

Danilo Casaletti

Da República.org

01/12/2021 06h00

Em 2012, logo que entrou no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) como analista de planejamento da unidade em Sergipe, Rosinadja Morato percebeu que muitos pesquisadores de sua equipe estavam desmotivados, o que influenciava na qualidade dos levantamentos e no cumprimento de prazos.

Ela decidiu que era preciso mudar a cultura de trabalho. Passou a homenagear os funcionários que se destacavam, a dar folgas aos que batessem as metas estabelecidas (o que era possível nos períodos de recesso das pesquisas) e a compartilhar com sua equipe a tomada de decisões (o que gerou cumplicidade e engajamento).

Com medidas simples, conseguiu aumentar a autoestima dos pesquisadores, que em sua maioria têm vínculos temporários com o instituto. Com uma equipe motivada, os relatórios se tornaram mais fidedignos, conta Rosinadja, que, aos 48 anos, é hoje supervisora de pesquisas econômicas da unidade estadual do IBGE.

Um passo avante foi dado em 2018. Na entressafra das pesquisas, que são feitas de abril a dezembro, Rosinadja resolveu oferecer cursos, oficinas e treinamentos. Sua equipe sugeriu então — ela faz questão de dizer que foi uma criação coletiva — sessões de cinema que pudessem gerar debates sobre gestão de pessoas e questões sociais. Ela já havia vivenciado algo parecido quando trabalhou por nove anos no Banco do Estado de Sergipe (Banese), apesar de lá serem exibidos apenas trechos de filmes, com foco em gestão.

Foi dessa maneira que nasceu o EconCine, cujo nome faz menção a econômicas (pesquisas). A cada mês, um filme ou documentário é escolhido e visto em casa por funcionários e colaboradores. São títulos de fácil acesso, disponíveis no YouTube ou em serviços de streaming. Há depois um debate sobre a obra, com presença de um especialista no assunto abordado.

Sessão virtual do EconCine - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Sessão virtual do EconCine
Imagem: Arquivo pessoal

A iniciativa não gera qualquer despesa pública. A maioria dos convidados são servidores ou oriundos de escolas públicas. "Estão retribuindo os investimentos que receberam", afirma Rosinadja, com a rigidez de quem não gosta de ver ninguém de braços cruzados.

Ao longo desse tempo, foram discutidos temas como empoderamento feminino, pobreza, autismo, mito da democracia racial, racismo estrutural, apropriação cultural e cultura negra nas artes. Foram realizadas até agora 52 sessões, com uma média de 30 participantes em cada uma. "São questões relevantes para a sociedade como um todo. Sempre chamo convidados com lugar de fala", afirma Rosinadja.

Entre as produções já abordadas estão a série Black Mirror (2011-2019), usada para a discussão sobre comportamento nas redes sociais, e o filme A Onda (2008), que gerou bate-papo sobre a manipulação do poder. A partir de Como Nossos Pais (2017) foi discutido o conflito de gerações. O docudrama The Social Dilema serviu para discutir a presença crescente dos algoritmos na vida das pessoas.

Em setembro a discussão foi sobre fake news e, em outubro, sobre comunicação assertiva. "O IBGE é um órgão gerador de informação. E ela não pode ser desvirtuada. Lido com rede de coletas, e os pesquisadores precisam saber da importância da informação verdadeira. Embora a Lei afirme que é preciso prestar informações ao IBGE, precisamos convencer as pessoas a fazê-lo. É preciso saber conversar, insistir, ter paciência", afirma. Os debates ajudam a aumentar a capacidade de oratória dos pesquisadores.

O objetivo de Rosinadja — a capacitação dos pesquisadores — foi alcançado. Em um ano, a qualidade das pesquisas aumentou e a unidade na qual ela trabalha entrou na lista das dez melhores do país. O departamento de Recursos Humanos premiou o projeto e passou a incentivá-lo. Outras unidades já fizeram sessões pontuais ou mais compactas.

"É a capacitação transversal, na verdade. Para que eles [os pesquisadores] levem algo quando saírem do IBGE, já que vão para o mercado. São conhecimentos adquiridos, uma vantagem competitiva. Não é uma pausa para o café", analisa. Rosinadja sabe o valor do conhecimento. Graduada em Administração e Letras, é mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente e atualmente faz doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Sergipe (UFS).

Sessões favoritas

Antônio Marcos Ribeiro Couto, 47 anos, trabalha há quase três anos como colaborador na equipe de Rosinadja e participou de todas as sessões do EconCine, não só como espectador. Costuma ser ativo nos debates e nas indagações acerca dos temas abordados. "Acho muito proveitoso para o nosso crescimento pessoal e profissional."

Antônio Marcos gostou particularmente da sessão que exibiu o longa Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, protagonizado por Regina Casé. Na trama, uma empregada doméstica vê sua filha ser tratada de forma preconceituosa pela patroa.

"Não podemos aceitar as condições que as pessoas nos impõem. Temos sempre que batalhar pelo melhor. E o EconCine nos mostra isso. A mulher rica achava que a filha da empregada tinha passado no vestibular por sorte. Isso é preconceito", diz ele, que fica até março na turma de Rosinadja para depois assumir a vaga de auxiliar administrativo da Câmara Municipal de Laranjeiras (SE), conquistado por concurso público.

Com a chegada da pandemia, as sessões de debate dentro da agência migraram para uma plataforma de vídeo, o que possibilitou que funcionários de outras agências estaduais ou unidades municipais pudessem conhecer e aderir ao projeto.

Foi o caso da gaúcha Julie Graziela Zanin, 36 anos, funcionária temporária do IBGE da Agência Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre, contratada como coordenadora do Censo. Ela acompanha tudo virtualmente desde que viu um anúncio na intranet do IBGE, logo quando a pandemia obrigou todo mundo a trabalhar de casa.

Julie esteve, inclusive, na mais recente sessão do EconCine, que ocorreu no dia 26 de novembro e teve como base o documentário Negritudes Brasileiras (2018), dirigido por Nátaly Neri. O filme discute a identificação racial no Brasil e suas complexidades. A debatedora convidada foi a professora Mirtes Rose Menezes da Conceição, doutora em Geografia com ênfase em Geografia Cultural e mestre em Sociologia.

Durante a discussão, Julie levantou a questão sobre como os recenseadores devem conversar com os pesquisados ao abordar a questão racial. "Eu sou branca. Então, para mim, é importante reduzir ao máximo a possibilidade de trazer uma fala preconceituosa ou racista, além de passar isso para minha equipe. A palestrante também chamou a atenção para as atitudes. Às vezes, há comportamentos racistas, mesmo sem qualquer fala", diz.

O professor de educação física do Instituto Federal de Sergipe, Roger Carlos Ferreira Alves Santos, 45 anos, esteve dos dois lados do EconCine — como espectador e palestrante. Colega de doutorado em Sociologia de Rosinadja, ele conheceu o projeto em 2019 e participou ativamente por cerca de dois anos. "São temas variados, com alcance acadêmico e social. No momento mais duro da pandemia, de isolamento, era algo muito aguardado por mim."

Roger destaca duas sessões que chamaram sua atenção. A primeira foi a do filme O Poço (2019), de Galder Gaztelu-Urrutia, que fez uma analogia com a pandemia e como a sociedade iria se comportar em um momento tão delicado. A outra, a que debateu o filme Minha Vida em Cor-de-Rosa (1996), do Alain Berliner, abordando a questão da transexualidade.

Como debatedor, ele apresentou o longa britânico Você Não Estava Aqui (2020), do diretor Ken Loach, que aborda o trabalho informal e o quanto isso pode influenciar na rotina de uma família. Santos falou sobre a "uberização", que mudou a conformação das relações trabalhistas.

Esta reportagem foi desenvolvida em parceria com a Republica.org, organização social apartidária e não corporativa que se dedica a contribuir para a melhoria do serviço público no Brasil, em todas as esferas de governo.