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Empresas que mudam

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Marca ensina vítimas de violência doméstica a bordar e tingir roupas

As sócias da Utopiar: Natália Seibel (à esq.) e Renata Rizzi - Divulgação
As sócias da Utopiar: Natália Seibel (à esq.) e Renata Rizzi Imagem: Divulgação

Colaboração para Ecoa, de Florianópolis (SC)

25/11/2021 06h00

No Brasil, os números da violência contra a mulher são alarmantes. Sempre que atualizados, eles entram nos assuntos mais comentados nas redes sociais, geram manchetes, inspiram pichações politizadas nos muros, viram assunto indigesto de almoços de família. Mas mais do que revolta, a quantidade de vítimas causa medo e escancara as condições machistas a que as mulheres estão expostas em nossa sociedade. O Brasil é o quinto país em que as mulheres mais são mortas por feminicídio. Em 2020, houve uma denúncia de violência contra mulheres a cada 5 minutos. Em 2019, segundo a mais recente edição do Atlas da Violência, 3.737 mulheres foram assassinadas (dessas, 33,3% foram mortas dentro de casa).

Tal realidade motivou o surgimento de uma empresa paulistana que apoia mulheres que sofreram qualquer tipo de abuso por meio de trabalho e acolhimento. Na Utopiar, elas aprendem uma nova ocupação, ganham uma fonte de renda e, no processo, curam muitas feridas ao conviver e trabalhar com mulheres que também vivenciaram os tortuosos caminhos do abuso da força.

Guinada na carreira

Renata Rizzi tinha uma vasta experiência na indústria da moda. Em 2017, era gerente de marketing da Swarovski quando resolveu, impactada pelos números do Mapa da Violência, criar uma empresa em que todas as peças seriam feitas por mulheres que passaram por esse tipo de situação. Foi a forma que ela encontrou para encarar um trauma pessoal. Aos 17 anos, foi assaltada e feita refém na própria casa. Desenvolveu crises de pânico e depressão.

Desde a guinada na carreira de Renata, a marca de roupas Utopiar atua em parceria com ONGs para capacitar mulheres que sofreram com a violência. Essas organizações oferecem apoio psicológico e jurídico e a empresa entra com a capacitação técnica de tingimento e bordado. Quando elas concluem o curso, podem trabalhar para a marca e são remuneradas de acordo com a produção.

Além disso, as oficinas funcionam como um resgate de autoestima. "Elas criam novas amizades e acabam formando uma rede importante de apoio", diz Natália Seibel, que virou sócia da Utopiar em 2020.

No começo, a Utopiar fazia lenços tingidos com as técnicas de tie-dye e shibori (tipo ancestral de tie-dye japonês). Hoje, quimonos, vestidos, peças de tricô, camisetas e blusas também fazem parte do portfólio da marca, todo disponível na loja online — com a pandemia, a Utopiar, que antes vendia mais em feiras e confeccionava brindes corporativos para empresas, investiu em um novo site, que hoje é seu principal canal de vendas.

Mais de 60 mulheres já participaram das oficinas e geraram alguma renda com seu trabalho, segundo Seibel. Todas elas adotam codinomes, a fim de preservar a privacidade e a segurança. "Elas escolhem o nome de uma flor para representá-las. Temos a Rosa, a Lavanda, a Margarida e a Girassol, entre outras. Ao comprar uma peça da Utopiar, você sabe quem a bordou", diz.

Além disso, elas deixam sua marca nas roupas. "A camiseta 'Calma, tudo tem seu tempo' veio de uma frase de uma delas, é uma frase que ela falava para si mesma", lembra a sócia. "Outro exemplo é o quimono Sol, inspirada no sonho da Rosa de voltar para a Bahia. Bordamos o sol da Bahia bem grande nas costas."

Em seu site, a Utopiar convida os clientes a conhecerem a história de quem fez suas peças. Cravo sofria violência psicológica do marido e estava desempregada, com dois filhos gêmeos para criar. Tem depressão e síndrome do pânico. Lavanda não suportava ver as marcas da violência do marido em seu próprio corpo e quase se afundou nas drogas. Rosa Vermelha se sustentava de vários bicos, mas aprendeu a enxergar nos bordados, que fazia como diversão, uma nova fonte de renda. Todas elas contam que o programa as ajudou a se valorizar, a se reconectar consigo mesmas.

Utopia verde

Para as sócias da empresa, o propósito deve ir além do engajamento social. Práticas nada sustentáveis e frequentes na indústria da moda, como uso de produtos tóxicos, desperdício de água ou até mesmo descarte incorreto de sobras de tecido, não têm vez em sua produção, elas garantem.

A empresa preza por matérias-primas sustentáveis e diz aplicar diferentes técnicas de tingimento de baixo impacto, em que não há desperdício de água. Além disso, reutiliza sobras de tecidos em novas peças e nas embalagens e encaminha à reciclagem tudo que não é aproveitado.

Natália diz que a Utopiar é um lugar de harmonia: "Nós 'utopiamos' viver em um mundo que respeita e valoriza igualmente todos os gêneros e celebra as relações justas de trabalho. Neste lugar, todos cuidam do meio ambiente e contribuem para o bem-estar coletivo das gerações presentes e futuras".

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