PUBLICIDADE
Topo

"Contratei um homem para ver se me levavam a sério", diz empresária

Carmem Lúcia

Colaboração para o UOL, do Rio

23/11/2021 04h00

Se olhar no espelho e ver a imagem de uma mulher negra e empresária bem-sucedida foi um longo processo para Dani Rodrigues, podcaster e CEO da Foco na Missão, que falou sobre sua trajetória no mercado audiovisual em Origens: Passos que Vêm de Longe, evento promovido por Ecoa na quarta-feira (17). "Eu contratei um homem para ver se os caras me levavam a sério", disse.

Dani, que é empresária do rapper Rashid, participou do painel "Grana preta: um jeito brasileiro de fazer negócio". Com mediação da empresária, advogada e produtora executiva na Boogie Naipe Eliana Dias, o bate-papo também contou com a participação da artist manager e head do Selo Extrapunk Extrafunk Marina Dee e da especialista em Gestão Pública e diretora Criativa do Lerato Rachell Brasil.

Entre os desafios na trajetória, Dani relatou a dificuldade que vê na sociedade de aceitar uma mulher em uma posição de decisão, fato que a fez, inclusive, contratar um homem para trabalhar com ela. Sua forma de se vestir simples e o modo tranquilo de falar também impactaram na carreira.

"Eu fui amadurecendo e aprendendo a me impor. Sou muito tranquila com tudo, não ando de roupa social, maquiada. Então me barram muito nos lugares. Chego em uma multinacional e falo sobre uma reunião, as pessoas me perguntam sobre o que seria a reunião ao invés de me deixarem passar. Já aconteceu de eu montar uma lista de premier e, na hora, ser barrada no meu próprio evento", disse.

A empresária também relatou situações em que clientes ignoravam seu trabalho e tentavam negociar diretamente com clientes e que, por necessidade, diversas vezes aceitou receber um salário abaixo do mercado.

FOTOS: Origens - Nossos Passos Vêm de Longe

"Em muitas situações eu via que queriam me enrolar, pagar a metade de valores e eu aceitava porque eu venho de uma classe social baixa, então o dinheiro que surgia já significava muita coisa. Eu demorei muito tempo para entender que eu estava trabalhando e recebendo abaixo do mercado. Hoje, me orgulho muito do caminho que tracei", disse.

"Eu acredito que o fato da gente ver predominantemente pessoas brancas nestes espaços, a gente fica amedrontada de adentrá-los. Eu falo por mim, estou acompanhando o Rashid há 10 anos e faz pouco tempo que eu tive a coragem de me olhar assim, empresariando a carreira dele"
Dani Rodrigues, podcaster e CEO da Foco na Missão

Dani acredita que grande parte das dificuldades que passou como empresária do mercado audiovisual é porque ele é um ambiente predominantemente branco, e do qual as mulheres só começaram a ter espaço recentemente. Ao frisar o orgulho que hoje tem do caminho que traçou como empresária, ela reforçou a importância de abrir portas para outras mulheres pretas no setor.

"Comecei a achar importante ocupar estes espaços. É importante que eu esteja neles para que meninas como eu possam ver que isso é possível. Tem vários momentos em que você se sente insegura. (?) A minha ética está totalmente comprometida com o meu objetivo que é de construir um negócio para pessoas negras e incentivá-las a ocupar estes espaços. Sempre estivemos em todos os locais, mas agora temos que tomar posse disso. Precisamos chegar com o pé na porta e ocupar esses locais", disse.