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Músicas pretas ficam conhecidas quando brancos cantam, diz Rico Dalasam

Carmem Lúcia

Colaboração para o UOL, do Rio

19/11/2021 04h00

O cenário da musicalidade negra e seus desafios foi tema do segundo painel de 'Origens: Passos que Vêm de Longe', promovido por Ecoa na quarta-feira (17), que teve como participante o rapper e compositor Rico Dalasan. Ele foi enfático sobre a conclusão de que exista um apagamento do negro no cenário musical: "É histórico que desde os primórdios, homens pretos fazem músicas e elas ficam conhecidas pelas mãos de homens brancos".

Com o tema "Respeita meu som: a cultura que preserva existências", o painel foi mediado pelo ator e diretor Rodrigo França, com participações de Preta Rara, rapper e escritora, e Valéria Monã, atriz e coreógrafa.

Em sua fala, assim como Preta Rara e Rodrigo, o músico também opinou sobre a questão da apropriação cultural dentro do rap. "Tem muita coisa acontecendo no Brasil. Eu estou sempre passeando tanto por aqui, quanto pelos outros lugares da música. Sem dúvida, tudo que chegar ao grande público, na massa mesmo, passa por um filtro de embranquecimento. Acho que as coisas se embranquecem para se nacionalizarem", disse.

O Carnaval, grande paixão do povo brasileiro, também foi assunto do painel. França questionou o fato do estilo musical, um ambiente majoritariamente negro, estar sendo embranquecido ao longo dos anos. "Por exemplo, quando a gente pensa no samba, tem os carnavalescos, as figuras poderosas da escola, os dirigentes, são todos brancos. Há uma apropriação cultural desta arte", avaliou.

Rapper e escritora, Preta Rara seguiu a mesma linha de crítica, lembrando sobre o papel e lugar da mulher negra nas agremiações. "Eu fico nervosa, confesso. Chegar em uma escola de samba e a rainha de bateria não ser uma menina preta da favela ou da comunidade. E ainda os dirigentes totalmente embranquecidos", pontuou.

FOTOS: Origens - Nossos Passos Vêm de Longe

"Neste país eles gostam de utilizar a cultura preta, mas desde que não seja um preto ali na frente da própria cultura, né? Então, eles usurparam, se apropriaram de uma história de várias coisas que não são deles"
Preta Rara, rapper e historiadora

Quando o assunto é dinheiro, Preta Rara faz um questionamento que considera ser primordial para o debate: "O dinheiro está circulando na mão de quem?". Relembrando sua experiência ao produzir seu próprio disco em 2015, a rapper reforçou que os artistas pretos precisam ter incentivos para alcançar recursos para colocar no mundo as suas produções.

"O meu disco foi através de um edital. É importante sim a gente ter dinheiro para dar continuidade às nossas produções. A gente sabe que até sem dinheiro, a gente consegue produzir cultura, mas a gente quer trazer qualidade para as nossas ideias. Seria incrível se tivesse incentivo público injetando dinheiro na cultura e nas nossas produções. Com certeza, a gente ia alcançar voos maiores, pois tem muita gente por aí com grandes ideias para colocar em prática", disse.

A artista, que também utiliza as redes sociais para divulgar seus trabalhos e opiniões, criticou o algoritmo usado na internet por, segundo ela, não valorizar os padrões negros. "Para as pessoas pretas conseguirem crescer nas redes é muito trampo. Não acham os nossos traços, nossos corres e nosso cotidiano interessantes ou rentáveis", disse.

Rodrigo França debate as vozes negras na cultura em Origens - Passos que Vêm de Longe. - Júlio César / UOL - Júlio César / UOL
Rodrigo França debate as vozes negras na cultura em Origens - Passos que Vêm de Longe.
Imagem: Júlio César / UOL

Inspirações

Aos 50 anos, a atriz e coreógrafa Valéria Monã está de volta à universidade. A inspiração: Mercedes Baptista (1921-2014), bailarina e coreógrafa brasileira, a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Em sua participação em Origens, Valéria declarou sua admiração pela dançarina.

"A conquista dela pela dança fez com que eu e outros corpos negros também se expressar pela dança. A conquista dela permitiu que estivéssemos aqui hoje. Ela abriu portas e foi referência de ancestralidade. E eu, enquanto mulher negra, me sinto honrada em ser representada pela Mercedes. Ela vem de uma formação clássica e o corpo dela se reconhece na dança africana. Mas, a sociedade está em débito com ela por não ter uma referência dela no Teatro Municipal do Rio ainda", disse.

Orgulhosa de suas origens, Valéria ressaltou a importância do acolhimento e do incentivo entre pretos. A Carmen Luz, bailarina, cineasta e diretora de teatro, foi uma grande incentivadora para eu fazer o vestibular para dança e ocupar este lugar. Sou cria da Baixada Fluminense, dou aula na Zona Sul do Rio de Janeiro e agora estou de volta à graduação. Estou muito feliz em ocupar este espaço, sempre ciente de quem eu sou e me desafiando a melhorar cada vez mais, trazendo a questão acadêmica para o meu corpo", finalizou.