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Aquecimento global pode colocar humanos em extinção?

Getty Images/iStockphoto
Imagem: Getty Images/iStockphoto

Giacomo Vicenzo

Colaboração para Ecoa, de São Paulo (SP)

07/11/2021 06h00

O que uma espécie extinta há cerca de 66 milhões de anos diria hoje aos humanos? Essa é a ideia proposta em um vídeo publicado no Twitter pela conta oficial da ONU (Organização das Nações Unidas), em que um velociraptor falante invade o púlpito de uma assembleia mundial da ONU para discursar. Entre as falas, compara o subsídio aos combustíveis fósseis feito pelos humanos, como se os dinossauros tivessem subsidiado os meteoros que os extinguiram da face da Terra. O réptil completa dizendo 'não escolham a extinção' - 'salvem a sua espécie antes que seja tarde demais'.

O alerta da campanha, ainda que dito por um ser ficcional, é real e vai ao encontro do estudo que revela que a meta para zerar os gases do efeito estufa em 2050 é tarde, e que isso deve ser feito até 2030.

Na Cúpula Climática da ONU (COP26), o aquecimento global está no centro das atenções e barrá-lo é uma tarefa assumida pelos 196 países e pela União Europeia, que fazem parte do evento, e que se comprometeram entre a série de ações, com a diminuição das emissões de carbono, que tem como principal objetivo limitar o aumento da temperatura média do planeta em 2ºC [em relação à era pré-industrial] nas próximas décadas.

O Brasil não tem resultados muito promissores para apresentar. A manobra apelidada de "pedalada ambiental", que modificou a Contribuição Nacionalmente Determinada do Brasil, alterou a base de cálculo das emissões nacionais para cima e deu margem ao país para despejar 400 milhões de toneladas a mais de carbono em comparação com o previsto há seis anos.

Mas o que é aquecimento global realmente? Por que devemos nos preocupar com isso? E quais os riscos que corremos, caso a temperatura média global continue subindo? Ecoa reuniu dados sobre esse cenário e conversou com uma bióloga sobre o tema.

O que é aquecimento global?

Imagine que você acendeu um palito de fósforo e sobre ele colocou uma vasilha de vidro, vedando a saída da fumaça. Dentro dessa redoma, outras dezenas de fósforos continuam a ser acendidos e a liberar fumaça. Sobre o vidro, incidem os raios solares, aquecendo continuamente esse microambiente. De um jeito bem simplista, é mais ou menos isso que acontece com o aquecimento global — estamos acendendo fósforos sem parar, aumentando a poluição e a temperatura na Terra.

"O aquecimento global aumenta a temperatura média do planeta. A atmosfera fica mais quente, pois ao redor existem gases que conservam o calor natural da Terra, porém, quando esses gases estão em grande concentração, os raios solares se acumulam muito na atmosfera, aumentando sua temperatura", explica tecnicamente a bióloga Francyne Elias-Piera, mestre em oceanografia biológica (USP) e doutora em ciência ambiental (Universitat Autònoma de Barcelona).

Elias-Piera alerta que não é só na atmosfera que esse calor age. "Existe a troca de calor entre a água e o ar. Se o ar está mais quente, consequentemente a água ficará mais quente também", explica.

O que o aquecimento global pode causar?

O aquecimento global e as mudanças climáticas podem alterar desde as correntes marítimas até diminuir a renda média mundial, aumentando ainda mais a desigualdade entre países pobres e ricos, caso ocorra um aumento de 4,40ºC projetado por pesquisadores.

O aumento da temperatura promove o derretimento de gelo, o que aumenta o nível de água nos oceanos — mais uma preocupação iminente. Uma pesquisa feita pelo Climate Central, organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos, projetou que diversas áreas ao redor do mundo sofrerão grandes inundações, caso o aquecimento global não tenha o seu ritmo diminuído nas próximas décadas. As áreas mais atingidas são as costeiras, o que afetaria a vida de mais de 1 bilhão de seres humanos que vivem nessas regiões.

Para tornar o problema mais tátil, o Climate Central projetou com a ajuda da computação gráfica como será o "nosso futuro" em cenários otimistas, com o aumento de 1,5ºC ou com 3ºC nos pessimistas (expectativa real caso continuemos com os níveis atuais de emissão).

As imagens fazem parte do projeto Picturing Our Future (imaginando o nosso futuro) e nas simulações com maior aumento mostram imagens de cidades e regiões completamente ou parcialmente submersas pelos oceanos. De acordo com a simulação, isso aconteceria no Brasil em 13 locais diferentes, como no Copacabana Palace no Rio de Janeiro, que teria quase até o primeiro andar do edifício tomado por água e na Casa Amarela, um dos bairros mais populosos do Recife, que seria quase totalmente inundado. O site também permite analisar cenários mais temerosos, como aumento em 4ºC, o que apresenta regiões inteiras completamente submersas no Brasil.

Como iremos impedir o aquecimento global?

Pensar no futuro da nossa espécie está intimamente ligado ao pensar sobre o aquecimento global. Para isso, lideranças mundiais, especialistas e ativistas pelo clima estão reunidos até o dia 12 de novembro em Glasgow na COP26 e têm como objetivo decidir como irão implementar de fato os acordos. Agora, todos os países que assinaram o Acordo de Paris se comprometem em alcançar as metas estipuladas.

Para impedir que a simulação se torne real e ouvir a súplica ficcional do réptil extinto há milhões de anos, que citamos no início do texto, é preciso manter a temperatura média do planeta em 1,5ºC acima dos níveis da era industrial.

"A maior solução para frear o aquecimento global é a diminuição da emissão dos gases de efeito estufa. Emitimos esses gases em maior quantidade usando combustíveis fósseis nos transportes e nas indústrias", explica a bióloga.

Elias-Piera afirma que atitudes individuais que privilegiem o uso de energias verdes e alternativas são importantes, mas as principais mudanças devem vir de uma forma sistemática e das políticas ambientais adotadas pelos governos. "Precisamos ter políticas públicas que levem às indústrias a diminuírem essas emissões e que ajudem a ter mais transportes que usam energias renováveis. Além disso, incentivar o uso de carros elétricos", explica.

A pedido de Ecoa, a bióloga deu algumas dicas práticas para adotar no dia a dia para quem quer fazer a sua parte neste esforço coletivo:

  • Evite o uso de carro, principalmente sozinho. Prefira usar o transporte público, bicicleta e ande a pé;
  • Evite desperdício de energia elétrica;
  • Diminua a quantidade de lixo gerado, principalmente plásticos descartáveis;
  • Compre de produtores e comerciantes do seu bairro.

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